

Brasil cordial
Uma Introdução ao Brasil: Um Banquete no Trópico
Lourenço Dantas Mota (org.)
Editora Senac
(Tel. 0/xx/11/3884-8122)
420 págs., R$ 42,00
LUIZ RONCARI
Quinhentos anos é muito ou pouco para uma nação? São os anos da adolescência ou maturidade? Depende dos rumos de cada uma. Nas nossas comemorações, os tutores acharam que eram os da puberdade e deram aos afetos verbas para os divertimentos. Mas a sociedade achava que já era adulta e não gostou da programação. Deu no que deu. Que oportunidade se perdeu da nação se encontrar e as lideranças discutirem os nossos problemas históricos! Mas era o velho Brasil cordial.
E é o Brasil o tema deste livro, que foge à programação tutelar, apesar do subtítulo, "Um Banquete no Trópico". O restritivo de lugar causa arrepio, normalmente vem prometendo paraísos, mas oculta um outro sentido, o de amenizar um tipo de dominação que se aprofunda e se universaliza. E fica difícil associá-lo ao diálogo de Platão, um banquete comemorativo entre cidadãos, na casa do trágico Agatão, em Atenas, cidade que gestou a idéia de igualdade e isonomia, onde discutem o amor, o caminho para o homem para se superar. O tema do Brasil, uma sociedade com traços monstruosos, num banquete, poderia ser indigesto.
Porém, quanto ao restante, o livro realiza bem o que se propôs: fazer uma apresentação de algumas das reflexões mais densas da nossa formação social. Dantas Mota organizou o livro com diferentes estudiosos falando de uma obra dos autores escolhidos. Cada um pôde se concentrar e, a seu modo, expor o livro, seguindo, porém, um roteiro comum: uma pequena apresentação do autor, o resumo dos capítulos e maiores ou menores contextualização e avaliação crítica da obra, dependendo do comentador. Com isso, garantiu-se um mínimo de unidade, preservando-se a singularidade do apresentador. O desejável seria fazer aqui uma apreciação de cada uma das leituras, mas não é possível, no espaço apertado da resenha; sobra falar da concepção geral da obra.
Quanto à seleção dos livros, no geral, acertou: ela compreende os mais conhecidos e que estariam em qualquer brasiliana. Mas, como toda escolha, essa também está sujeita a reparos, não é possível contentar a todo mundo. A antologia procurou selecionar as melhores sínteses sobre o país, ou as obras que, pela densidade da reflexão, tratando de um aspecto, acabaram falando do todo. Assim, o Brasil pareceu à maior parte deles como um desafio ao conceito e à comparação com os modelos civilizatórios conhecidos: uma fronteira onde se misturavam os extremos de civilização e barbárie.
A leitura das interpretações na ordem cronológica tem a virtude de nos revelar um lento processo de desanuviamento, compondo elas próprias uma história, com ganhos de compreensão e sentido. Um que fica claro é o da inversão: como tudo o que de início aparecia como ameaça e barbárie, índios selvagens, negros escravos e massas miseráveis mamelucas, era filho da civilização -a dita destruição criadora não é uma invenção nova. Os movimentos colonizadores, trazendo nas mãos a cruz e a espada, foram fontes de violência e destruição, ecológica e humana.
Assim, o Trópico só foi um paraíso muito relativo, lugar mais livre e sem pecado, em que se pôde tudo, mas para o capital, onde ele se despiu dos freios civilizatórios que foi obrigado a morder nos países de origem. O que remete a outra inversão, incubada nas interpretações, mas um pouco tolhida pela seleção: como só poderia ter saído do mundo do trabalho, e não do das elites, uma verdadeira civilização, caso as forças geradas no seu seio tivessem se estruturado melhor para policiar a cidade; dada essa debilidade, a sua história é a de avanços e recuos, sofrendo sempre as ressurgências truculentas das forças ilustradas, e quanto mais ilustradas, mais de costas para ele, exacerbando-se na sua capacidade destrutiva.
Para esse melhor delineamento da construção do artifício Brasil -pois não é obra da natureza nem do acaso, antes, da força das coisas, do capital, sem que as elites se interessassem em resistir e impor-lhe um projeto mais humano-, talvez fossem necessárias algumas complementações e inserções nessa biblioteca que, se nomeada por um índio, um negro ou um pobre, poderia ser chamada de "A Arquitetura da Destruição". A reunião dos escritos ilustrados de José Bonifácio, "Projetos para o Brasil", poderia ser complementada pela percepção aguda, por vezes exaltada, de João Francisco Lisboa, no "Jornal de Timon"; as agruras do empresário Irineu Evangelista de Sousa, expostas na sua "Autobiografia" ("Exposição aos Credores ..."), deveriam ser compostas com as agruras de Thomaz Davatz, "Memórias de um Colono no Brasil" (1850), para o ponto de vista do trabalho ter o mesmo peso que as do visconde; e "A Ilusão Americana", do moço rico monarquista Eduardo Prado, ganharia substância se acompanhado do livro do médico sergipano Manoel Bonfim, "A América Latina: Males de Origem".
Outros livros dariam mais abrangência à biblioteca. As populações indígenas ganhariam com "O Processo Civilizatório", de Darcy Ribeiro; as de origem africana, com o grande estudo de Roger Bastide, "As Religiões Africanas no Brasil"; os interessados na história do modo perverso de estruturação do trabalho no Brasil, com o livro de Emília Viotti da Costa, "Da Senzala à Colônia"; e a sociedade brasileira enxergaria melhor as fontes do seu caráter violento, sistêmico e não-ocasional, com o livro de Maria Sylvia de Carvalho Franco, "Homens Livres na Ordem Escravocrata".
Ficam como sugestões, que não visam senão à complementação, afirmando determinado sentido, também uma escolha, desse material introdutório ao Brasil. A meu ver, o que melhor o resume, é uma citação de Florestan Fernandes, feita por Gabriel Cohn, na sua leitura exemplar, pelo que condensou sem perder a riqueza, de "A Revolução Burguesa no Brasil": "Seria preciso lembrar que no cosmos senhorial só pode existir um tipo de individualismo, que nasce da exacerbação da vontade do senhor e se impõe de cima para baixo?". Comemoremos a eterna adolescência.
Luiz Roncari é professor de literatura brasileira na USP e autor de "Literatura Brasileira. Dos Primeiros Cronistas aos Últimos Românticos" (Edusp)