

O bom senso da filosofia
Gramsci - Filosofia, Política e Bom Senso
Michel Debrun
Ed. Unicamp
(Tel. 0/xx/19/3788-1097)
280 págs. R$ 28,00
LEANDRO KONDER
Não há como ignorar: o interesse pelas idéias dos marxistas mais famosos do século 20 vem diminuindo. No entanto, a estrela de Antonio Gramsci não só não cessa de brilhar como seus escritos e os ensaios sobre ele estão sendo cada vez mais procurados, na França, na Inglaterra, nos EUA, no México, na Argentina e no Brasil.
O leitor brasileiro já dispõe de três biografias do pensador italiano: a de Giuseppe Fiori (Paz e Terra), a de Laurana Lajolo (Brasiliense) e a de Aurelio Lepre (Record). Já pode utilizar em nossa língua duas edições diversas dos "Cadernos do Cárcere", ambas da Civilização Brasileira: a dos anos 60, inteiramente calcada na edição dita "temática", e a que está sendo lançada agora, levando em conta importantes elementos novos da edição "crítica".
São numerosos também os ensaios publicados por autores brasileiros a respeito de Gramsci e de suas teorias. A eles vem se juntar o livro do saudoso Michel Debrun, francês por nascimento, brasileiro pelo enraizamento em nossa realidade.
Debrun lecionou de 1956 a 1960 na Fundação Getúlio Vargas, depois na USP, de 1960 a 1965. Foi em seguida para a Unicamp, da qual em 1990 se tornou professor emérito. Quando morreu, no início de 1997, vinha trabalhando há anos em seu ensaio sobre Gramsci, do qual elaborou duas versões, carregadas de alterações. Paulo Sérgio Pinheiro conta que, ao insistir na publicação da obra, ouviu Michel lamentar que não conseguia mais distinguir com clareza o que era de Gramsci e o que era dele.
Como editar em livro uma obra póstuma que se apresenta em tal estado e com tais características? Felizmente a viúva Solange e o amigo Ricardo Antunes descobriram em meio ao material deixado por Debrun a indicação precisa: ele queria que fosse publicada a primeira versão, com suas inserções manuscritas.
O que se destaca, desde logo, na leitura de Gramsci por Debrun? Não é a erudição acadêmica (presente neste, porém que se destaca em outros trabalhos seus). Também não é a atualidade das referências bibliográficas. Nada disso é essencial.
Debrun não se fixava nas cabeças pensantes da filosofia universitária, não as escolhia como interlocutores preferenciais. Seu entusiasmo pela filosofia decorria da convicção de que ela é por si mesma uma atividade altamente politizada, criativa, que constitui o bom senso. Ele escreveu: "A descoberta desse caráter prático da filosofia é precisamente a novidade essencial trazida pela filosofia da práxis, o marxismo".
A filosofia lhe parece ser o "mestre artesão" da construção das superestruturas, a "superestrutura das superestruturas", a "forma das formas" do mundo social.
Debruçado sobre os escritos de Gramsci, Debrun os analisa e os submete a interpretações ousadas. Reflete sobre a relação de "acavalamento" entre teoria e prática, a "conexão íntima" que as liga, os "serviços que se prestam mutuamente". Repele as construções que privilegiam uma em detrimento da outra.
A teoria é um "meio-fim". Mesmo não sendo "determinante", é "indispensável para que a ação levante vôo e não se perca, por exemplo, nos meandros das reivindicações econômico- corporativas".
A dimensão subjetiva da ação desencadeada pela vontade é tão importante quanto a objetividade do movimento e de suas condições materiais. A infra-estrutura não é a causa do que acontece na superestrutura: é a motivação. As forças produtivas "motivam" o desenvolvimento das superestruturas. O nível de desenvolvimento das forças produtivas apresenta aos sujeitos questões que eles enfrentam e para as quais dão respostas que podem variar bastante.
Numa linha de argumentação que lembra algo da concepção hegeliana da história, Debrun sustenta que "as relações de produção não se explicam de baixo para cima, mas de cima para baixo, a partir da filosofia de uma época". E assegura que "para Gramsci as relações de produção fazem parte da superestrutura".
A concepção de Gramsci, no entanto, é diferente da de Hegel, já que nela o movimento não se cristaliza numa "totalidade" e constitui pura e simplesmente um instrumental fecundo para uma melhor compreensão de qualquer época, encarada como um momento que tem significação universal porque já foi ele mesmo "o" presente.
Debrun se concentra no exame da função do conceito de "bom senso". O bom senso é, de fato, a própria filosofia, orientada para a verdade, caracterizada pela participação coletiva. Pelo fato de ser acolhida por um grande número de pessoas, a filosofia se torna a expressão do bom senso e promove a expansão de uma nova ordem social, de um novo tipo de civilização.
Os caminhos a serem trilhados nessa direção dependem da consciência dinâmica, não contemplativa, do povo. Dependem da superação da estreiteza e da rigidez do "senso comum". Dependem do bom aproveitamento dos recursos e da capacidade de superar os obstáculos da situação presente, de olhos postos no futuro. O desafio consiste em desenvolver o bom senso e manter a filosofia dentro dos limites do bom senso atual ou possível. Sem sacrificar todas as formas de especulação filosófica, sem baixar o nível da teoria, os revolucionários -segundo Debrun- devem se empenhar em desenvolver a pedagogia indispensável à construção de uma nova mentalidade, adequada aos novos tempos.
É possível não acompanhar o ensaísta em suas formulações polêmicas. Pode-se suspeitar de um certo subjetivismo em sua enérgica valorização da superestrutura. Pode-se ter dúvidas quanto à sua afirmação de que Gramsci não se ocupa da problemática do conceito de "alienação". É muito difícil, porém, deixar de reconhecer o vigor ensaístico deste livro e a falta que nos faz como interlocutor um filósofo com a "garra" de Michel Debrun.
Leandro Konder é professor na Pontifícia Universidade Católica (RJ) e autor, entre outros, de "Os Sofrimentos do "Homem Burguês'" (Senac).