

O artista e as formas
VICTOR KNOLL
Idea: A Evolução do Conceito de Belo
Erwin Panofsky tradução: Paulo Neves Martins Fontes, 259 págs. R$ 21,00
Panofsky persegue o conceito de Idea e sua relação com o belo a partir da teoria platônica das Formas e das interpretações que lhe impuseram os latinos e os neoplatônicos. A interferência aristotélica é também apontada, seja com um propósito corretivo, seja para atender determinado corpo teórico. Embora a estratégia do texto assuma a abordagem da Idea e do belo segundo o curso histórico linear, desde a Grécia clássica, passando pelos tempos medievais até o século 17, o Renascimento é uma referência constante para a inteligibilidade daqueles conceitos. Panosfsky surpreende nas teses renascentistas sobre a produção artística, até mesmo, o embrião de uma estética do Gênio. Nesse itinerário são revistos Cícero, Sêneca, Plotino e no alvorecer dos tempos modernos Alberti, Zuccari, Bellori ocupam a cena teórica.
Apesar do estatuto que Platão atribuiu à pintura e à escultura em sua República", simulacros do real, a teoria das Idéias exerceu o papel de referência na compreensão da criação artística. Por força de uma engenharia conceitual a teoria das Idéias passou a ser solidária da arte. Sofreu tais interpretações que a tornaram dócil ao universo artístico. Já a Academia e depois os neoplatônicos incorporaram o ponto de vista aristotélico para tornar possível a aplicação" da teoria das Idéias à arte. A Idéia já não mais é vista como arquétipo, mas como representação depurada da natureza, como modelo, projeto ou imagem interior" tida como origem da obra. O corretivo aristotélico foi definitivo. O imitar não é copiar o dado sensível. A imitação artística rivaliza a criação da natureza e a corrige. A arte mostra a Idea.
De um lado, a teoria da arte terá em seu horizonte o conceito de Idea, de outro, resta por resolver de que maneira a doutrina das Idéias, a partir da qual Platão estabeleceu a inferioridade da arte, pôde sofrer tais adaptações a ponto de ter o seu sentido invertido e se constituir em um conceito próprio para o esclarecimento da atividade artística. Encontramos já em Cícero a inversão do sentido conceitual da Idéia platônica -preparando as concepções renascentistas- a ponto de fazer do próprio conceito de Idea uma arma contra a concepção de arte de Platão.
Panofsky lembra esta passagem de Cícero, para ilustrar a mutação de idea em imagem interior": ...quando esse artista (Fídias) trabalhava na criação de seu Zeus e de sua Atena, ele não considerava um homem qualquer, isto é, realmente existente, que teria podido imitar, mas em seu espírito é que residia a representação sublime da beleza; é ela que ele olhava, é nela que mergulhava, e tomando-a por modelo dirigia sua arte" (pág. 16). Cícero atribui a Platão tal concepção e indica que a designava pelo termo Idea. Platão que expulsou o artista da cidade é agora, segundo Cícero, o seu mais vivo promotor. A inversão na posição da arte, de ré condenada" a cidadã livre" se deveu à deslocação da Idea de essência metafísica" para conceito".
Aristóteles já havia substituído o dualismo que opunha, no plano de uma teoria do conhecimento, o mundo inteligível e o mundo sensível por uma síntese recíproca entre a universalidade do conceito e a singularidade da representação individual, no plano de uma filosofia da natureza e da arte, e também por uma relação sintética recíproca entre a forma e a matéria" (pág. 22). De resto, Panofsky lembra esta proposição lapidar de Aristóteles: É um produto da arte tudo aquilo cuja forma reside na alma (no espírito do artista)" (Metafísica", VII, 7, 1032a). Cícero reúne em uma só concepção a forma interior" de Aristóteles e a Idéia platônica. Entretanto, tal conciliação deixava em aberto um problema: o que garante à obra de arte perfeição? Panosfky reconhece dois caminhos: ou recusava-se à Idéia, doravante identificada à representação artística', sua alta perfeição, ou conferia-se a essa alta perfeição uma legitimidade metafísica" (pág. 14). Sêneca responde pela primeira solução, enquanto o Neoplatonismo, em particular Plotino, pela segunda.
Na concepção de arte medieval já não se impõe uma explicação das relações entre o homem e a natureza, mas trata-se de concebê-la como projeção de uma imagem interior no meio sensível. Imagem interior" e Idéia" não possuem a mesma carga nocional, uma vez que este termo passou a servir sobretudo à teologia; mas não é falsear a verdade histórica estabelecer um continuidade entre uma e outra. Dante, evitando intencionalmente utilizar nesta passagem o termo Idéia', resumiu numa única formula lapidar o sentido da teoria medieval da arte: a arte encontra-se em três níveis: no espírito do artista, no instrumento que ele utiliza e na matéria que recebe sua forma da arte' "(pág. 44, a citação de Dante é Da Monarquia", II, 2).
Para o Renascimento, o real se aloja em uma razão imanente à natureza. Cabe ao artista imitar a natureza. A noção de imitação, mais uma vez, é guinada à posição de categoria estética e com ela convive o neoplatonismo renascentista. Contudo, ao lado da imitação da natureza, afirma-se o triunfo da arte sobre a natureza; afirma-se o poder da imaginação. Pede-se ao artista fidelidade à natureza e, ao mesmo tempo, que escolha na diversidade natural o que há de belo. O pintor deve procurar nas partes o que é belo para reconstruir um todo.
As concepções artísticas do Renascimento deslocam o objeto do âmbito da representação subjetiva para o mundo exterior". O alvo era pautar a atividade criadora do artista por regras firmes e cientificamente fundadas. Pressupõe-se leis universais independentes e anteriores ao sujeito e ao objeto. Tal era a referência para a teoria da arte. Alberti irá ditar o sentido da nova arte" por oposição a uma metafísica da beleza de inspiração platonizante.
A beleza não é mais vista segundo o acordo da representação com a Idéia ou segundo a preexistência da Forma no espírito do artista, mas conforme diz Alberti a beleza consiste numa harmonia e num acordo das partes com o todo, segundo determinações de número, de proporcionalidade e de ordem, tais como o exige a harmonia', isto é, a lei absoluta e soberana da natureza" (pág. 53). Pela primeira vez o belo" e o bem" são reconhecidos em esferas independentes; já está aí o reconhecimento da autonomia da estética que somente no século 18 irá encontrar o seu pleno desenvolvimento.
O Renascimento propõe duas inversões de significação do conceito de Idéia: 1) adquire um sentido naturalista (a teoria platônica é totalmente abandonada); 2) por força da Idéia do belo não preexistir à experiência, já não pode ser vista como um duplo (arquétipo), mas, antes, algo derivado da realidade sensível e, ainda, que a Idéia não se põe como transcendente e, sim, como um produto do conhecimento humano. A presença aristotélica domina o palco teórico.
O Maneirismo" ergue-se contra a rigidez das regras e em particular das regras matemáticas. A representação do espaço que repousava para os renascentistas sobre uma teoria racional da perspectiva, desaparece em favor de uma maneira quase medieval de compor que amontoa as formas em um único plano" (pág. 74).
A arte maneirista" se caracteriza por um dualismo: defende com ardor a liberdade do artista, mas faz da arte também um objeto racionalmente ordenado. As regras não podem ser totalmente descartadas. A composição requer regras. Trata-se de um confronte entre o gênio e as regras. Já não mais se trata de estabelecer os fundamentos práticos da criação, mas da exigência de sua legitimidade teórica. A interrogação se desloca do operacional para o especulativo. Da pergunta como o artista representa algo belo?" passamos para esta: como são possíveis em geral a representação artística e sobretudo a representação do belo?" (pág. 83). Pela primeira vez procura-se resolver a questão da representação artística no âmbito estrito da especulação. Resulta o reconhecimento que há um acordo entre os procedimentos do artista e os procedimentos da natureza. Na origem do retrato interior", a Idea, não está a percepção, mas a imaginação. O desenho interior" assume o caráter de um dom e, mesmo, de uma graça divina. Há algo de divino no artista.
O Neoclassicismo se definiu em relação ao Maneirismo do mesmo modo que o Renascimento o fez em relação à Idade Média. A acusação é a mesma: a ausência de um estudo sistemático da natureza". Bellori volta a afirmar que a idéia não reside a priori no homem, mas deriva a posteriori da intuição da natureza"(pág. 103). De um lado, a Idéia deve governar a arte do pintor, de outro, a visibilidade da natureza conduz o artista à idéia. Procura-se o meio-termo entre a imitação da natureza e o triunfo sobre a natureza" (pág. 103). Bellori promove um retorno ao Renascimento. Temos aqui, mais uma vez, a tentativa de conciliar o espírito e a natureza.
O Neoclassicismo, ao combater os naturalistas e os maneiristas, assumiu um programa que define, tal como a entendemos hoje, a estética idealista". Pela primeira vez se dá a metamorfose da Idéia em Ideal". Belori não se cansa de acumular argumentos visando a estabelecer que o homem pintado ou esculpido é -ou pelo menos pode e deve ser- mais perfeito do que o homem real" (pág. 107).
A obra de arte passa a ser o lugar privilegiado da beleza. O Ideal" como sensibilização da Idea abre as portas para a concepção romântica da arte e se converterá no instrumento conceitual para a sua compreensão. A partir de então a teoria da arte foi dominada pela oposição entre Naturalismo" e Idealismo" que na prática artística ecoa no final do século 19 e início do 20 no Impressionismo e no Expressionismo.