

O arcanjo e a revolução
Crítico analisa a Revolução de 1848, quando a burguesia abandona o universalismo |
JOSÉ ANTONIO PASTA JR.
"A quem, entre aqueles que hoje cruzam a Place Saint-Michel, as figuras da fonte de mesmo nome, cercada de garrafas de cerveja e de Coca-Cola, têm ainda algo a dizer? Quem seria capaz de decifrar historicamente aquela alegoria para turistas, de reconhecer que o arcanjo de espada em punho, nos ombros de Satanás, devia representar na época a vitória da ordem imperial e burguesa sobre a revolução, o triunfo do bem sobre o povo mau de junho de 1848?"
Na breve evocação dessa alegoria, decifrada por Dolf Oehler na introdução de seu livro, pode-se ler boa parte de seu programa crítico. Já de entrada, estamos às portas da "rive gauche" parisiense, onde ele nos convida a contemplar a imagem do suspeitíssimo arcanjo, que o Segundo Império fez instalar precisamente ali, "na fímbria do bairro rebelde da margem esquerda", conforme diz um contemporâneo da construção do monumento (R. Gottschall). Este, aliás, não se enganava: o arcanjo não fora "cinzelado por mérito próprio". "Hoje em dia, não se veneram mais tais santos em Paris", dizia ele; o arcanjo "simboliza apenas o Second Empire, que sufocou o demônio da revolução".
Carnificina e Coca-Cola
Mas, se observamos bem, logo notamos que, sob o olhar de Oehler, a alegoria triunfal, apenas decifrada, sutilmente se realegoriza. Cercado pela sua nova rocalha de garrafas de cerveja e de Coca-Cola, o arcanjo da opressão compõe agora uma outra figura, tão ou mais alegórica que a anterior. Talvez se pudesse dizer que, no cruzamento das duas alegorias, a mais antiga e a atual, ilumina-se por um instante sua verdadeira face: entre a barbárie velha e a nova, entre o massacre de julho de 48, monumentalizado no arcanjo triunfante, e a bestice compulsiva de sua novel guirlanda de refrigerantes, ele contempla a permanência do desastre burguês, que, de triunfo em triunfo, não cessa de empilhar ruínas e dejetos. No seu olhar estático, vidrado de otimismo compulsivo, carnificina e Coca-Cola, se cruzam e se entreolham, como em um espelho. Cúmplice de assassinatos e patrono da tolice, o arcanjo, finalmente, diz a que veio.
Este é o anjo de Oehler, pode-se dizer, e ele nos ajuda a entender tanto o que o aproxima quanto o que o distingue de seu mestre Walter Benjamin. Todos conhecem o célebre "Angelus Novus", de que fala Benjamin em uma de suas "Teses Sobre o Conceito de História". Aí, ele é o "anjo da história", que tem "o rosto voltado para o passado". "Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê apenas uma única e a mesma catástrofe, que não cessa de acumular ruínas sobre ruínas e de dispersá-las a nossos pés."
Esse mesmo anjo, que Benjamin vai encontrar em um quadro de Klee para, finalmente, depois de uma longa travessia baudelairiana, projetá-lo na filosofia da história, Oehler vai, a seu modo, encontrá-lo em pedra e bronze, naquela determinada praça de Paris, monumentalizando uma determinada data do calendário, cujo significado, a um tempo, ele ostenta e recalca.
Seria tolice, nesse caso, falar de superioridades e inferioridades teóricas ou críticas, já porque, como se vê, o projeto de Oehler é de corte nitidamente benjaminiano, e se encaminha na direção de particularizar tanto quanto possível as indicações que soube herdar de seu inspirador. Discordâncias pontuais surgirão ao longo desse processo, mas elas antes indiciam do que desmentem a "Aufhebung" que lhe é essencial, e em nada diminuem o conjunto de escritos baudelairianos de Benjamin, talvez o mais belo estudo que um poeta tenha merecido em qualquer tempo. Pode-se dizer que, de certo modo, os estudos de Oehler estão simultaneamente aquém e além dos de Benjamin, pois, se lhes falta a dimensão especulativa e o brilho sugestivo destes, vão ainda mais longe no desígnio materialista que Benjamin já imprimira em todos os seus aspectos essenciais.
O sentido do passado
Em vista disso, certamente leríamos mal o benjaminiano Oehler se quiséssemos enxergar, em seu desígnio obsessivo de restituir o sentido do passado, uma recaída no historicismo. Conforme a configuração duplamente alegórica do "seu" anjo já deixava ver, o seu projeto de descriptação minuciosa do passado se faz com um olho firmemente posto no presente. De fato, é impressionante o poder de revelação que seu estudo demonstra em relação ao nosso tempo. De minha parte, confesso que poucas vezes pude ler um estudo que, concentrando-se tão acuradamente no passado, incidisse de modo tão agudo, vibrante até a perturbação, sobre a particularidade do presente.
Não cabe aqui estender-me sobre os aspectos dessa dupla incidência, mas desde já ela permite indicar, ainda uma vez, o quanto é ociosa a dicotomia entre determinação do passado e percepção do presente (hoje frequentemente erigida em tabu e fetiche apologético, sob a rubrica enganosa de anacronismo), uma vez que tal determinação, quando autêntica, só se processa na constelação de ambos.
Salvo engano, creio que tocamos, aqui, no centro mesmo do "método" de Oehler, o que novamente nos reconduzirá a Benjamin, conforme já indica a própria noção de "constelação". Por um paradoxo aparente, o seu estudo sobre a "semântica" de 1848 e do Segundo Império só incide de modo tão agudo sobre o presente porque ele renuncia à exposição das meras continuidades e dos nexos causais entre um e outro, e se concentra monadologicamente sobre o passado. Este, assim, salta do "continuum" temporal, detém-se, suspenso, e se exibe sob "o caráter único, incomparável, do acontecimento", conforme o próprio título de seu primeiro e decisivo capítulo sobre o impacto dos massacres de 1848.
"O materialismo histórico", diz Benjamin, "não pode renunciar à idéia de um presente que não é apenas passagem, mas que se detém imóvel no limiar do tempo (...)". "O historicista põe a imagem "eterna" do passado, o materialista histórico faz deste passado uma experiência única no seu gênero" (Benjamin, ob. cit., "Tese 16"). Arrancado, por efracção, do contínuo temporal, suspenso em um além do tempo, o acontecimento único instaura um "agora" que o torna apto a entrar em constelação com um presente bem determinado.
Ponto de viragem
Como se vê, só o tratamento do passado como constelação permite-lhe entrar em constelação com o presente: "Quando o pensamento se fixa subitamente em uma constelação saturada de tensões, ele lhe comunica um choque que a cristaliza em mônada", escreveu Benjamin na "Tese 17". Creio que aí se descreve com precisão o procedimento de Oehler, e nele se assenta o núcleo de seu trabalho. Sua força, entretanto, advém da conjunção profunda, cuja simplicidade tem algo de inelutável, de objeto e método. Uma verdadeira afinidade eletiva o orienta para os acontecimentos de junho de 1848, em Paris. Aí, o materialista histórico divisa não apenas mais uma na fieira de revoluções parisienses, mas o acontecimento único por excelência, o ponto de viragem em que a burguesia despe-se de suas presunções universalistas e passa a fio de espada, cose a bala, bomba ou baioneta, os proletários insurretos, dizendo finalmente a que veio.
O Velho Mundo Desce aos Infernos - Auto-Análise da Modernidade Após o Trauma de Junho de 1848 em Paris Dolf Oehler Tradução: José Marcos Macedo Companhia das Letras (Tel. 0/xx/11/866-0801) 429 págs., R$ 35,00 |
Estava a inaugurada "modernité". Nas suas palavras, "pode-se compreender o acontecimento das jornadas de junho (...) como o paradigma da vida moderna, como o fruto tão monstruoso quanto natural do cotidiano burguês".
Esse acontecimento único, precisamente datado e inteiramente atual, torna-se no livro de Oehler a força de gravitação que rege "uma constelação saturada de tensões". No seu campo circulam e se tensionam reciprocamente discursos de toda ordem, com os quais Oehler vai compondo o que chama de "semântica de 1848". Ordenando-os por temas, mas deixando-os polarizar-se de modos múltiplos, ele vai desencavando os signos em que o trauma de 48 se registra, recalca, inverte, varia, alegoriza, mistifica, sublima etc. Toda a primeira parte do livro, assim, é composta por uma espécie de vasto léxico ou dicionário, em que tais signos, de todas as procedências ideológicas, cruzam-se e evidenciam a comunidade de um campo semântico específico que os imanta a todos. Não é alheio, a esse momento do trabalho de Oehler, um piscar de olhos para a história das mentalidades, aliás confesso, mas que, bem consideradas as coisas, tem algo de satanista ou subversivo, tendo em vista a filosofia da história de que está saturado.
A emersão desse campo semântico já seria, em si mesma, um resultado importante. Todavia, não é aí que o trabalho de Oehler dá a sua medida, mas, sim, ao revelar os nexos de pertencimento e superação que ligam a esse solo comum a grande literatura moderna.
A análise de cada um desses signos obedece ao mesmo procedimento paciente e rigoroso, que os capta em seu movimento de aparição e fixação, para finalmente vê-los no momento de seu resgate crítico, na obra de Baudelaire, Heine e Flaubert, principalmente. A superioridade da grande literatura, assim, ao mesmo tempo que se desmitifica, é radicalmente sublinhada -na medida em que se dá a ver que ela consiste, essencialmente, no seu movimento paradoxal de "denunciar toda cumplicidade com o espírito do tempo", mas de fazê-lo "abandonando-se deliberadamente, embora com repulsa, à prosa de sua época, a fim de trabalhá-la até seus limites".
A partilha que aqui se faz, logo se vê, é aquela entre essa "modernidade crítica" e os representantes da "l'art pour l'art" ou da "poésie pure", cuja renúncia ao "palavrório", em busca de uma purificação da língua (pensa-se exemplarmente em Mallarmé), coincide com a busca de um refúgio "fora do mundo no qual ela é falada".
A leitura das obras dessa modernidade crítica ganha, assim, com base na operação de Oehler, uma luz nova, que lhes dá contornos mais nítidos e restaura nelas a espécie peculiar de beleza a que elas próprias aspiravam -e que a intuição pressentia-, mas que em grande parte jazia desfigurada, seja pelas ruínas da alegoria primitiva, em que se cifra o testemunho de seu caráter originalmente reprimido e mutilado, seja pela recepção desfiguradora de mais de um século de beletrismo.
Oehler tem razão ao apontar, neste livro, uma "nova versão" de seu trabalho anterior, "Quadros Parisienses", pois nele muito do que, no primeiro, permanecia como indicação ou ponto de fuga, encontra agora um ajuste mais cabal e uma concretude que tornarão mais difícil o confusionismo crítico.
Esse movimento se completa, neste livro, nos perfis literários da segunda parte, cujos pontos altos serão, ainda uma vez, as leituras de Baudelaire e do Flaubert da "Educação Sentimental". O satanismo, o tédio, a tolice, a estupidez, o otimismo compulsivo, a loucura do egoísmo, a misantropia, a exasperação da impotência etc., todos os signos colhidos na primeira parte cruzam-se como num traçado de pontos luminosos -uma constelação?- em que sua natureza compulsoriamente fragmentária ao mesmo tempo se confirma e ameaça resgatar-se, formando sistema, em um plano superior de sentido.
Por isso mesmo, a mais bela das construções do livro de Oehler talvez seja a mais inacabada e a mais intangível de todas. Contra o arcanjo da opressão, mencionado no princípio destas linhas, ele evoca o monumento imaginário que Baudelaire ergueu aos revolucionários de junho, na antiga Place du Carrousel, outro ponto chave na história da revolta. Oehler não faz, neste livro, nenhuma análise completa ou cerrada desse poema -"Le Cygne"-, ao qual no entanto retorna incessantemente, como a uma obsessão, em curtos lances iluminantes, ao longo de todo o livro (págs. 29, 49, 89, 102, 105, 113, 116, 125, 127, 136, 138, 147, 207, 269, 298, 367 etc.). Aos poucos, a imagem do cisne em desespero vai se compondo diante de nós, sem todavia jamais chegar a integrar-se inteiramente, como um monumento ao que não se pode esquecer nem, tampouco, se consegue apreender de todo. Lido o livro de Oehler, voltei às minhas velhas "Fleurs du Mal", elá reencontrei o poema do cisne. Nunca o achei tão belo.
José Antonio Pasta Jr. é professor de literatura brasileira na USP.