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Lygia Araujo Watanabe - 9 - Dezembro de 1995
O amigo do sábio
Foto do(a) autor(a) Lygia Araujo Watanabe

O amigo do sábio

 

LYGIA WATANABE 
EDITORA DA UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA, 90 PÁGS. R$ 16,00

O diálogo "Lísis", que discute a noção de amizade (em grego, "philía"), injustamente atraiu pouca atenção da parte dos tradutores e comentadores em geral. Não concordo com passos importantes desta tradução, mas o próprio fato da edição, proporcionando-nos a ocasião de refletir sobre o texto de Platão, é da categoria do indispensável.
"A Nota Prévia" e a "Introdução" do volume são animadoras, revelando os longos estudos necessários à tarefa de tradução de um clássico grego. Mas tal empresa é sempre arriscada. Dilacerados entre a nossa miséria cultural, o esforço técnico da sua pesquisa e a grandiosidade do autor, os tradutores em geral tendem enganosamente a se empolgar e a ceder à sofisticação desnecessária, fugindo sistematicamente do óbvio e da simplicidade, cultivando o inusitado. Como se o simples fosse desprezível. Felizmente, isto ocorre nesta edição somente em algumas ocasiões. Citando ao acaso, na pág. 13 da "Introdução", lemos e grifamos: "O diálogo platônico atingiu uma craveira única", em vez do simples "nível", ou do batido "padrão". Bem menos perdoáveis, no entanto, são o "desportivismo" da pág. 23, para fugir do banal "espírito esportivo", e o "interesseirismo" da pág. 31, na qual o simples "interesse", ou um mais elaborado "procedimento interesseiro" poderiam resolver, sem necessidade de criação de "ismos" que, além de supérfluos, não estão dicionarizados. Ainda na pág. 36: "Conheço não só que amas", evitando nosso banal "sei". Muito haveria a discorrer sobre a tradução de "kalós kaí agathós", "belo e bom", por "perfeito" (págs. 39 e 21). E, para afinar a lira, na pág. 42, teremos que "deslassar a corda" em vez de "afrouxar, relaxar". Ora, as melhores lições que tiramos dos clássicos têm sido em grande parte lições de simplicidade. Do mesmo modo, é próprio do homem sábio o cultivo da clareza, o estilo explicativo, não distante de um certo proselitismo pedagógico, que o torna um mestre, amado e seguido.
O texto de Platão leva o subtítulo de "Sobre a Amizade" e a classificação de "gênero maiêutico", ambos conferidos por leitores da Antiguidade. Estas duas informações podem ainda nos servir como guias.
A ação se passa numa palestra, nos arredores de Atenas. Em geral é um amplo local onde meninos e rapazes aprendem lutas, "pálai" (geralmente nus, "gymnoi", como nos ginásios, mas no "Lísis", estão todos paramentados para uma cerimônia religiosa), em exercícios físicos e também intelectuais, de poesia, prosa e ... dialética! (imperceptível na tradução da pág. 38).
A "philía" vivida entre os rapazes tem em geral como cenário essas escolas, assim como a camaradagem de hoje vive em nossas escolas e casernas, e agrupamentos de jovens. A juventude grega se caracteriza também por se apresentar sempre em bandos ou em formação cerrada ("hathroos), aliás, traduzido aqui por um esdrúxulo "fazer grupo" (pág. 35).
No entanto, para além de nossa experiência confessada da camaradagem, a "philía" ateniense implica também o inconfessável amor erótico: "éros", para horror de nossa formação cristã, que preferiu escamotear como pôde a efebia e a pedofilia pagãs. Um sinal desse escamoteamento ainda pode ser sentido no eufemismo "um sofista seu encomiasta" (autor de composição elogiosa dedicada a alguém, em verso ou prosa), cometido pelo tradutor ("Introdução", pág. 15), na esteira monástica que reprime o erotismo entre jovens do mesmo sexo e crianças.
Mais do que isso, a "philía" grega é uma instituição política, o "espírito de corpo", a formação cerrada, marca distintiva entre cidadãos de uma cidade e os de outra. Ora, os estrangeiros precisavam ser desde logo identificados, pois poderiam ser amigos ou inimigos; e diante deles se deveria, consequentemente, seguir sejam as normas da hospitalidade, sejam as da hostilidade.
No diálogo, Sócrates não está tratando diretamente com outro filósofo, nem com um sofista, nem sequer com cidadãos adultos, mas basicamente com adolescentes, que se distraem conversando. É um hábito, o de se encontrarem em "diatribé". A tradução por "passatempo", como na edição francesa (de Alfred Croiset, 1921), deveria lembrar também o sentido segundo de "diatribé": estudo levado a sério, a partir do que, preferiríamos ler "entretenimento", por exemplo, que mesclaria o puro passatempo ao exercício da atenção. Mas conversar também é, por definição etimológica, o próprio do adolescente, o muito falante, do verbo "adolésko", palrear, palavrear, falar em demasia. É ele quem está nascendo para a dialética, e quem necessitará da arte socrática da parturição, "maieutiké". Eis a razão pela qual este diálogo está entre os menos abstratos, os menos indutivos ou generalizadores, ou menos metafísicos, e com isto estou contrariando a empolgada nota 80 do tradutor sobre o "caráter indutivo e metafísico", que teria a referência ao amigo tido como belo; ora, é na mesma frase, que Sócrates descreve o amigo como se fosse um "corpo, maleável, liso e besuntado de óleo", que escapa por entre as mãos, como por entre as definições... Neste nível maiêutico, tais generalidades ainda não são satisfatórias: no "Lísis", o homem sábio não é o amigo, não é a resposta procurada!
É preciso observar antes de mais nada o fato de que a maior parte da discussão entre Sócrates e os adolescentes procura a definição do amigo, mais do que propriamente da amizade, fala muito mais do homem sábio do que da sabedoria, numa espécie de "caça ao homem", que tradicionalmente caracterizaria a sofística, mais do que na "caça às definições", que caracterizaria a dialética platônica. Além disso, o amigo, o "phílos", é carente, padecendo dessa mesma carência marcada pela "philía" do "philo-sophein", da aspiração ao saber. No "Lísis" há uma identificação explícita do amor entre os jovens e o amor do filósofo pelo saber, o filosofar ("philosophein", traduzido na pág. 53 como "amor à ciência", na esteira da edição francesa. Mas nesta, ao menos, reconhece-se a dificuldade em nota). O ignorante completo não ama saber, mas o sábio completo também não, porque este não carece de saber... Por essa razão, é lamentável que o tradutor, na pág. 20, sem mais explicações, não veja a "existência de tal relação", discordando de Paul Friedlãnder -um dos pilares dos estudos platônicos contemporâneos-, que já havia ressaltado, em seu comentário de 1957, a aproximação entre a "philía" erótica que a conversação socrática procura definir e a própria definição de "philo-sophía"... Pois neste diálogo, o homem vem antes da abstração, o filósofo precede a filosofia, a filosofia se define a partir daquilo que é o amigo -"philos"- e do que é o sábio -"sophós". Aqui, mais do que nunca, o filósofo é o amigo, o admirador, e o amante do sábio. É o discípulo e o seguidor que, para tanto, tende a se transformar ele mesmo em sábio, admirável e amável.
Os diálogos de Platão não podem ser resumidos; seria necessário repertoriar o ir e vir de todas as argumentações -"lógoi"- que, tal como as personagens, vão adquirindo vida no decorrer da conversa. Eis apenas algumas linhas gerais. No "Prólogo", Sócrates é chamado a servir de juiz na jocosa discussão entre Ctesipo e Hipótales, dois jovens amigos que estão enamorados de outros dois ainda mais jovens que eles, respectivamente, de Menexeno e de Lísis. Ctesipo acusa Hipótales de estragar seu amado com elogios e mimos e de não educá-lo como se deve. 

Pois o amor por um menino, "pais", implica desde logo seu bem e sua educação, "paidéia".
O ponto de partida da discussão é: como deve se comportar o jovem Hipótales, de atitudes tímidas e tortuosas, diante de seu amado Lísis, "o mais belo da palestra"? Deixar que este faça todas as suas vontades é coisa que nem sequer os pais, que também o amam, podem permitir. Ora, os pais são os primeiros mestres, que sempre desejam o bem para seus filhos, o mesmo que um amante deve desejar para seu amado. No entanto, eles são "pais", e não propriamente "amigos" (pág. 43). Mas, de fato, quem é o "amigo", o "phílos", propriamente dito? É o amante ou é o amado? É aquele que ama o seu igual, ou aquele que deseja seu oposto (à Empédocles e à Heráclito)? É o que ama o belo ou o útil? É de estranhar, então, que Sócrates se dirija a seus interlocutores, segundo a tradução, como "meus filhos" (pág. 53) para traduzir o vocativo "ho paides", "o' crianças!". Conferindo um tom "paternal" ao relacionamento de Sócrates com os jovens, o tradutor se arrisca a atribuir de novo ao tema central da "philía" o caráter familiar já suplantado pela própria discussão. Essa interpretação esquece, aliás, a boa nota dois da tradução, que nos esclarecia logo de início a compartimentação das faixas etárias em questão no diálogo.
Por detrás da questão "quem é o 'phílos'?", se aquele que ama ou aquele que é amado, se o amante ou o amável, podemos subentender esta outra: entre adolescentes, quem é o mestre? Friedlãnder vê no "Lísis" três estágios da amizade: um "natural", entre os meninos, outro mais "perigoso", entre os jovens, e, finalmente, o amor de Sócrates, exercido como "paidéia" sobre todos os quatro adolescentes.
Ao final da discussão, parece que sabemos apenas aquilo que o amigo não deve ser. Não há soluções. O diálogo pertence à categoria dos diálogos aporéticos, isto é, cuja discussão termina numa aporia, num impasse, em suma, sem que se tenha chegado à definição procurada, no caso, saber o que é um amigo. Os pedagogos, meio bêbados, vêm buscar as crianças para levá-las para casa, interrompendo o desejo de Sócrates de continuar a discutir.
Sempre é bom lembrar que o amigo do sábio é a acepção que o termo filósofo tem no contexto do pensamento pitagórico, e somente se aplica aos que já se encontram em formação cerrada no interior da escola. Para o pitagorismo, filósofo é todo aquele que segue e aspira à sabedoria do mestre Pitágoras. No "Lísis", Platão parece querer sutilmente substituir, na história da filosofia, o grande Pitágoras pela figura de um "novo" mestre. Sofistas, como esse desconhecido Mico do "Lísis", rondam os jovens aristocratas. Mas, quem é o mestre? Felizmente, Sócrates é chamado.
Aliás, é primeiramente Aristóteles quem estuda o pensamento platônico em termos de uma visão nova, própria, que Platão teria tido de seus predecessores, eleatas, heraclitianos e Sócrates. Mas sem jamais retirar o fundador da Academia da sequência lógica e histórica do pitagorismo... 

Lygia Araujo Watanabe é professora do departamento de filosofia da USP.
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