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Bernardo Ricupero - 69 - Dezembro de 2000
Nosso marxismo
Foto da capa do livro História do marxismo no Brasil - Vol. 4
História do marxismo no Brasil - Vol. 4
Organização: João Quartin de Moraes e Marcos del Roio
Editora: Edunicamp 0
Foto do(a) autor(a) Bernardo Ricupero

Já é um fato em si notável, merecedor de aplauso, uma coleção como esta chegar ao quarto número. Não é difícil de imaginar a estranheza que um pretenso viajante no tempo, vindo de 1983, quando se realizaram as primeiras reuniões de um grupo de intelectuais interessados em estudar a história da esquerda brasileira, sentiria ao ser transportado para os dias que correm. Há 17 anos, ainda havia União Soviética, a ditadura brasileira, apesar das fissuras, continuava de pé... Mais importante, no intervalo entre o início do projeto e a atual publicação, assistimos ao aparente triunfo do mercado e, com ele, o refluxo do marxismo e demais teorias críticas, levando a um notável empobrecimento do debate político-cultural.

Este volume de "História do Marxismo no Brasil" é dedicado às visões de Brasil elaboradas por autores marxistas. A partir do correto entendimento de que a cultura política da esquerda brasileira se formou aceitando ou negando as interpretações do país do Partido Comunista Brasileiro (PCB), o livro se bifurca em dois pólos: os textos que examinam as elaborações teóricas mais globais de autores marxistas a respeito de nossa formação social e os artigos que tratam de temas e problemas particularmente relevantes para essa tradição política.
Pertencem à primeira linha de ensaios os trabalhos de Marcos Del Roio e João Quartim de Moraes, respectivamente sobre a problematização do tipo de revolução burguesa vivenciada no Brasil, e de como se deu a elaboração do programa, nacional-democrático, dominante na esquerda brasileira. Já o texto de Leonilde Servolo de Medeiros, que discute como a questão agrária aparece na imprensa comunista, e de Carlos Alberto Dória, que analisa como o Nordeste se tornou um "problema nacional" para os socialistas brasileiros, fazem parte da segunda linha temática.
Finalmente, há artigos mais teóricos, mas dedicados a questões específicas, que servem quase como uma interseção entre os dois eixos em torno dos quais se constrói o livro. Este é o caso da discussão do caráter da colonização no Brasil, empreendida por Lígia Osório Silva, da análise, realizada por Angelo José da Silva, das interpretações de Brasil formuladas pelos pioneiros do marxismo entre nós, Astrojildo Pereira e Octávio Brandão, e do exame, feito por Raimundo Santos, dos textos políticos publicados por Caio Prado Jr. na "Revista Brasiliense".
Há, de forma geral, uma notável unidade em "História do Marxismo no Brasil - Visões do Brasil". O tom geral do livro é dado pelos artigos dos organizadores, que são até mesmo complementares. Assim, boa parte dos autores analisados por Del Roio e Quartim de Moraes são coincidentes: no caso, Nelson Werneck Sodré e Caio Prado Jr., enquanto Florestan Fernandes e Jacob Goerender aparecem como teóricos discutidos por um ou outro.
No fundo, como notam Lígia Osório Silva e Quartim de Moraes, as divergências entre marxistas brasileiros se centram na questão da relação de nossa formação social (particular) com o capitalismo internacional e, a partir daí, na caracterização do tipo de relações de produção e circulação nela predominantes. Há aí dois enfoques principais: o dos que enfatizam as características internas da sociedade brasileira, desde a colônia, e o dos que prestam especial atenção à sua relação com o capitalismo, desde seus primórdios.
Identificam-se com o primeiro tipo de interpretação, autores como Nelson Werneck Sodré e Jacob Gorender, ao passo que Caio Prado Jr. e Florestan Fernandes aparecem como representantes da linha oposta. É evidente, porém, que também entre esses autores aparecem diferenças. Dessa forma, se Werneck Sodré, em sintonia com o PCB, afirma que houve feudalismo no período colonial, já Gorender insiste em que aqui se formou um modo de produção particular, o escravismo-colonial. Por seu turno, Caio Prado Jr. e Florestan Fernandes concordam quanto ao caráter mercantil da colonização, não necessariamente capitalista, mas discordam em relação ao programa político, o historiador comunista não indo muito além do proposto por seu partido, enquanto o sociólogo da USP chega a vislumbrar o socialismo.
Mas, se a unidade é uma qualidade deste livro, ela também pode se converter em defeito. Isso ocorre ao se privilegiar a interpretação do Brasil ligada ao PCB e da qual a obra de Nelson Werneck Sodré é a maior expressão teórica. O organizador de outra "História do Marxismo" (Paz e Terra), Eric Hobsbawm, já nos advertia para os perigos de uma atitude como essa, até porque, não havendo "um único marxismo, mas sim muitos", não se deve numa obra de tal natureza, "decidir a validade das suas respectivas pretensões a não ser num sentido puramente técnico ou concreto". Neste momento em que se completa a desagregação dos PCs outrora no poder e dos regimes por eles constituídos, a renovação do papel crítico e construtivo do marxismo só pode vir desse pluralismo e riqueza criadoras.

História do Marxismo no Brasil - Vol. 4
João Quartim de Moraes e Marcos Del Roio (orgs.)
Ed. da Unicamp (Tel. 0/xx/19/788-1015)
307 págs., R$ 18,50


Bernardo Ricupero é autor de "Caio Prado Jr. e a Nacionalização do Marxismo no Brasil" (Ed. 34).

Bernardo Ricupero é professor do departamento de ciência política da USP.
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