

Nos salões da academia
CARLOS ALBERTO DÓRIA
A maneira correta de se medir a vitalidade de um pensamento é saber se desperta interesse continuado. Gramsci, um caso particular dentro da história do marxismo, tem esse dom entre nós. Manteve, ao longo do tempo e apesar dos percalços do socialismo, um grupo coeso interessado em penetrar os meandros de seu pensamento. É um grupo pequeno por certo, mas abriga nomes como Carlos Nelson Coutinho, Leandro Konder e Luiz Werneck Vianna, que foram leitores pioneiros e introdutores de Gramsci no panorama cultural brasileiro dos anos 60.
Naqueles anos, ler Gramsci -e "propagar" Gramsci- apresentava vantagens: em primeiro lugar tratava-se de um autor marxista melhor adaptado às temáticas culturais; em segundo, conferia legitimidade ao marxismo que rejeitava as formulações mais dogmáticas do PCB. Gramsci era o autor sob medida para o "trabalho cultural", nome dado à discussão dos temas da cultura tendo em vista a formulação dos compromissos socialistas com o "nacional e popular". Por fim, o posicionamento crítico dos "gramscianos" em relação à "linha justa" do PCB fazia deles uma espécie de "reserva moral" do marxismo, que haveria de se salvar apesar do partido... Balanços bons e acessíveis do que foi o compromisso do "gramscianismo" brasileiro com o movimento comunista encontram-se nos trabalhos de José Antonio Segatto, neste volume, e no texto de Carlos Nelson Coutinho editado na "História do Marxismo Brasileiro", organizada por João Quartim de Moraes (Unicamp, 1998).
A OBRA Gramsci: a Vitalidade de um Pensamento Alberto Aggio (org.) Editora da Unesp (Tel. 011/223-7088) 201 págs., R$ 20,00 |
Vivemos a época de balanços do que foi o marxismo. No entanto, trata-se de saber o que será dele no futuro e, neste particular, talvez jamais se recupere da profunda ruptura com o movimento prático a partir da queda do muro de Berlim. É sintomático portanto que o pensamento marxista, em especial na sua versão gramsciana, encontre o terreno para sua rediscussão no meio acadêmico e só nele. "Gramsci: a Vitalidade de um Pensamento" é fruto de um colóquio promovido pela Unesp, em Franca, em maio de 1997, reunindo a geração dos introdutores de Gramsci no Brasil e aqueles que, de alguma forma, deram continuidade a esta prática reflexiva e crítica em relação ao movimento comunista brasileiro em sua vertente dominante: o PCB. Mas o colóquio é também um momento de refundação do gramscianismo entre nós -uma refundação acadêmica, sem o sabor da política que entremeava a universidade e as ruas nos anos 60.
Há, nesta coletânea, mergulhos de fôlego no universo teórico de Gramsci. A função social dos intelectuais -um tema especialmente caro aos gramscianos- ou o conceito de revolução passiva são tratados de forma bastante conveniente para quem pretenda se debruçar sobre o assunto. Não deixa também de ferir temas transcendentais para todos nós, como a relação entre democracia e socialismo, que, em Gramsci, é unívoca: não há democracia sem socialismo e não faz sentido falar em socialismo sem democracia. O conjunto desses temas, bem como a reflexão sobre a política e a vida social, fazem do livro uma oportunidade privilegiada para se tomar contato com o pensamento de Gramsci, revisitado nos anos 90 por quem vem se debruçando sobre ele há décadas.
No entanto, se olhamos a iniciativa sob o aspecto da política revolucionária, isto é, daquela que para Gramsci era o verdadeiro motor da reflexão histórica e teórica, é gritante a ausência de uma consideração mais explícita e estruturada sobre os rumos do marxismo nos últimos dez anos. O Gramsci deste livro parece pairar acima das vicissitudes da vida prática. E é por esta omissão que se pode vislumbrar o sentido mais profundo deste colóquio reunido em livro: tornar Gramsci um "clássico" da teoria política, à maneira como o mundo acadêmico trata Maquiavel, Marx, Hobbes, Rousseau etc.
É difícil dizer se Gramsci terá este estatuto na história do pensamento político ocidental. Não creio que sua sorte possa ser distinta da sorte do marxismo em geral, ainda sob o fogo cerrado de seus "inimigos" ansiosos por confiná-lo ao pensamento do século 19, negando-lhe, assim, qualquer transcendência. Por outro lado, a construção do que chamaria "gramscianismo acadêmico" é um processo que nasce também nos anos 60, iniciado talvez por Francisco Weffort na Universidade de São Paulo.
É certo que Gramsci perdeu o caráter antitético em relação à política partidária comunista. Mas, ao conquistar a universidade, sendo cultivado como fermento crítico já nos anos 60, sua função era adubar o terreno da crítica, onde podia florescer o espírito independente, e não seu nivelamento com os demais "clássicos" da teoria política no sentido em que sugere esta coletânea.
De fato a história do marxismo tem várias facetas, e ainda estamos longe de esgotá-las mediante os balanços em curso. O fruto do colóquio de Franca instiga mesmo a explorar as apropriações e transformações do "gramscianismo acadêmico" dos últimos 30 anos. Não se lia Gramsci na universidade da mesma forma que se lê hoje e, portanto, sua função nos aparelhos ideológicos também sofreu transformações que fazem parte da história do marxismo. Seja como for, vê-se logo que Gramsci, longe de ser um "cão morto', talvez seja uma parcela do que de melhor encontramos em nós mesmos ao cavoucar a história do marxismo nos trópicos.
Carlos Alberto Dória é sociólogo, doutorando pela Universidade de Campinas (Unicamp) e autor de "Ensaios Enveredados" (Siciliano) e "Bordado da Fama" (Editora Senac).