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Arlenice Almeida - 84 - Abril de 2002
No coração da literatura
Foto do(a) autor(a) Arlenice Almeida

No coração da literatura

Geração 90 - Manuscritos de Computador
Nelson de Oliveira (org.)
Boitempo (Tel. 0/xx/11/3872-6869)
266 págs., R$ 26,00

Ao contrário do que indica o título, os contos aqui reunidos não chegam a demarcar uma geração, mas confirmam, entre nós, a importância do gênero. De um lado, alguns contos dialogam com a forte geração dos anos 70, do desbunde e sufoco político. Dessa linhagem surgem os contos curtos de Marcelo Mirisola, Sérgio Fantini ou Marcelino Freire, potencializando a linguagem crua e temas urbanos, em uma escrita na qual predominam o fragmento e a contração temática. Já Rubens Figueiredo ou Carlos Ribeiro optam pelo tratamento tradicional do encadeamento dos fatos, no melhor estilo realista, recolocando a ação no coração da literatura. Em alguns casos, experimentação e intensidade narrativa se casam e o leitor é sequestrado como no belo conto de Luiz Ruffato que, ao contar uma singela história, faz aparecer uma outra história, secreta e alusiva. Se há traços de uma geração, isso decorre da propensão profissionalizante dos autores, herdada do jornalismo, e mais da matéria que da forma: apesar do espectro largo, prevalece uma atmosfera de angústia e solidão em um mundo sem brechas, um conjunto profundamente afetado pela história recente.

O Pão do Corvo
Nuno Ramos
Editora 34 (Tel. 0/xx/11/3816-6777)
85 págs., R$ 15,00

Após "Cujo", Nuno Ramos demonstra mais uma vez ter intimidade com o gênero. Seus contos, alguns curtíssimos e condensados, captam em estilo marcante o instante singular de aproximação do sujeito às coisas. Seja na operação de camuflagem dos objetos ou na metamorfose do sujeito que quer consumar sua morte autêntica, transformando-se em pedra, o que se busca é a tensão entre o eu e as coisas. Se essas, nas palavras de Merleau-Ponty, "estão apenas entreabertas diante de nós, reveladas e escondidas", é na brecha que Nuno Ramos vê, às vezes pelos olhos dos animais, nossos arredores marcados por obstáculos. No devir-bicho de suas personagens, não temos, como em Kafka, a denúncia em parábola da desumanização, mas "o pão do corvo", o estranhamento diante da morte que já encontrávamos nos contos de Murilo Rubião. Uma transmutação, que não busca uma totalidade perdida entre o eu e o mundo, mas tão somente a irrupção do desejo bruto percebido nos tufos, cheiros e líquidos, e a aceitação da "morte que vem pelas paredes", murmurando no fundo do "pátio sem luz".

Contos mínimos
Heloisa Seixas
Record (Tel. 0/xx/21/2585-2000)
130 págs., R$ 15,00

Os 50 contos de Heloisa Seixas foram publicados inicialmente no "Jornal do Brasil". Reproduzem um mesmo formato e linguagem, a despeito dos assuntos mistos -amor, assombrações, solidão, natureza e reflexões. Pelo tamanho, filiam-se aos contos curtos, mas não pelo efeito. Falta-lhes tensão, força metafórica, ou seja, dimensão simbólica. Ficam mais próximos das crônicas, nas quais predomina a descrição de impressões do cotidiano flagradas em tom confessional e iluminadas fugazmente por fios de memória. Os recortes na narrativa não chegam a romper com a ordem, como em Clarice Lispector, provocando explosões de sentido, alterações de consciência, seguidas pela recomposição da ordem. Recortam, contudo, como em Rachel de Queiroz -para ficar no registro de mulheres cronistas-, pequenos fragmentos da realidade que são subjetivados em um olhar errante, terno e simples, uma experiência do vivido.

Ignorância do Sempre
Juliano Garcia Pessanha
Ateliê Editorial (Tel. 0/xx/11/4612-9666)
136 págs., R$ 20,00

O livro de Juliano Pessanha, aproximando filosofia e literatura, cria uma fala sem fronteiras. Poemas, microhistórias e ensaios sinalizam variações em torno de uma mesma "mise en forme": uma literatura em busca de um abrigo, uma casa para habitar. Aqui não se procura narrar uma história, mas enunciar radicalmente a impossibilidade de uma biografia. Seus contos podem ser entendidos como ensaios, nos quais uma linguagem precursora transforma a forma em destino. Buscando uma "passagem para o poético", insuflada pelas leituras de Heidegger, Kafka, Thomas Bernhard ou Blanchot, o autor aborda um mundo que lhe parece impossível: é o dentro, o "mundo-partilhado", o espaço da familiaridade e da reconciliação pacificadora das idéias e coisas. Mesmo afirmando a radical historicidade do homem, sua escrita procura habitar um "onde" anterior, originário, ainda não positivado. Tal lugar não parece ser o espaço da luta, para o autor também domesticado, mas o fora, o puro fora da "palavra quebrada", do gesto vital, do grito selvagem, da "palavra ainda não furada pelo susto de haver coisas". Não se trata de uma apologia do isolamento fácil, mas da construção de uma ética que procura, na aceitação da angústia, apagar a distinção entre o dentro e o fora.

ARLENICE ALMEIDA 

Arlenice Almeida é professora de história na Unifesp.
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