

Negação e negaceio
TV falsifica composição racial do país
EUGÊNIO BUCCI
Há uma ambiguidade incômoda no título deste livro. A princípio, a palavra "negação" está aí para indicar a recusa preconceituosa da televisão em relação aos afro-brasileiros. A TV os nega e, assim, falsifica a composição racial do Brasil. Somos um país em que 45,3% dos habitantes se declararam negros ou pardos ao IBGE -e este país vem sendo representado ao longo de quatro décadas por elencos em que negros só aparecem marginalmente. Daí, portanto, a pertinência do termo "negação".
Mas há nele também uma certa impertinência. Estranhamente, quando se deixa que a palavra "negação" ecoe repetidamente dentro da cabeça, ela parece não mais denunciar, mas reafirmar um preconceito. Negar, negacear, denegrir. Aos poucos, a palavra "negação" começa a soar, de longe, como negacear. Maldita palavra em negativo, cujo duplo sentido o próprio autor do livro reconheceu em uma declaração recente ao "Jornal da Tarde" (22/11/ 2000): "Negação se refere a negro mesmo e também significa a negação da diversidade racial do Brasil".
Não terá sido em vão a ambiguidade. O autor sabe bem das contradições internas, e não superadas, daquilo que tomou por objeto. Logo no início do livro, ele dialoga com o Brasil de Gilberto Freyre, que é assim ambivalente, feito da fusão de opostos, da miscigenação entre sinais invertidos, um lugar em que o branco e o preto deságuam um no outro, encobrindo a relação de opressão com uma relação, digamos, mais luxuriante. Daí em diante, vai passando por outros Brasis, ou outras visões de Brasil, num mosaico de ideologias pelas quais a mestiçagem, em lugar de enfraquecer, enrijeceria (e alegraria) a raça.
Joel Zito Araújo vai conduzindo o leitor a desarmar o mito ufanista do "caldeirão de raças", que no fundo (do caldeirão) nada tem de ambíguo: apenas serviu e serve ainda hoje de fachada para a dissimulação das elites para sempre escravistas.
A retrospectiva das ideologias raciais ilumina a análise da representação do negro na TV. Que fica ainda mais fecunda à medida que vai sendo comparada com essa mesma representação na TV e no cinema dos EUA. Aos poucos, o autor vai descortinando uma diferença básica entre Brasil e EUA em matéria de ambiguidade -e hipocrisia- racial. Lá, prevalece o autocontraste. Aqui, há o fetiche da mestiçagem. O fato é que lá, de modo violento ou traumático, a diferença seca acabou por abrir caminho por onde as ações afirmativas das minorias raciais obtiveram vitórias sucessivas. Nunca negando a diferença. Aqui, o culto da miscigenação mitigou a diferença e encobriu o próprio racismo -mas, para ascender socialmente, seria preciso embranquecer (nem que fosse "na alma"). A consequência só poderia ser, como foi, uma TV desbotada. Muito mais desbotada do que a americana. Lá, onde o contingente de afro-descendentes (termo adotado pelo autor) é proporcionalmente menor que no Brasil, há muito mais presença negra na televisão.
É como se por aqui não houvesse atores negros. Em 1969, quando foi ao ar a novela "A Cabana do Pai Tomás", Sérgio Cardoso, branco, pintou o rosto com tinta escura, enfiou duas rolhas nas narinas para alargá-las, arranjou cabelo pixaim e assumiu o papel-título. Ruth de Souza, atriz negra, que contracenava com ele, foi paulatinamente perdendo destaque. Viu seu nome ir despencando nos créditos.
"No meio da história", diz Ruth, entrevistada por Araújo, "começaram os protestos das outras atrizes; meu nome, que estava no primeiro lugar, passou para o segundo. Lembro-me de Sérgio Cardoso, que me falou: "Ruth, estão criando um protesto enorme, a novela tem de correr, você se importa de deixar colocar outros nomes, das outras atrizes brancas, na frente do seu?" E eu disse: "Não, eu não me importo." Claro! O que eu ia dizer? (...) A partir daí, o meu papel foi declinando, declinando, declinando".
Sérgio Cardoso, com o recurso do "blackface", permanece talvez como o símbolo mais eloquente dessa ambiguidade tão brasileira, que elogia a cultura negra no plano da representação, para liquidá-la em surdina nas relações reais cotidianas. E assim vem sendo.
Ao final, o autor pergunta: "Será que nos próximos anos a telenovela brasileira estará assimilando, com mais naturalidade e regularidade, o talento, a personalidade e a aparência física do ator negro, assegurando para as estrelas afro-brasileiras um lugar semelhante ao que Denzel Washington, Angela Bassett, Morgan Freeman e Whoopi Goldberg já conquistaram na indústria cinematográfica norte-americana?".
Sofá da Hebe
Não que Araújo elogie um racismo (o do Tio Sam) em detrimento de outro (o nosso). Não há racismo melhor ou pior. Mas a hipocrisia daqui talvez seja mais danosa, e mais enraizada, que a hipocrisia de lá. A televisão entre nós, não é novidade, é um convescote de madame, um continental sofá da Hebe. Os desconvidados são incontáveis. Veja-se o caso dos evangélicos. Até há poucos anos, embora fossem milhões, não tinham lugar na programação. Entraram agora para o espetáculo, trazidos pelas lentes da Rede Record, que, não por acaso, difunde mais que todas as outras emissoras juntas o preconceito contra as religiões de origem africana. A televisão no Brasil parece seguir uma lei perversa, que admite a inclusão somente à medida que gera uma nova discriminação. Os pobres e os desassistidos quase nunca tiveram vez nem voz nos programas de auditório.
Recentemente, depois de circos de horrores como o de Ratinho, passaram a povoar o picadeiro, expondo ali suas brigas conjugais, suas crianças de paternidade desconhecida, suas deformidades físicas. Mas, de novo, estão ali não para superar, mas para aprofundar seu abandono. Estão ali para divertir a platéia e para reforçar ainda mais o preconceito.
Há esperanças? Araújo faz crer que sim. Afinal, nos anos 90 andamos vendo aí algumas telenovelas apresentando com normalidade famílias negras de classe média ("A Próxima Vítima") e mesmo uma trama inteira cuja protagonista era negra ("Xica da Silva", com Taís Araújo). De todo modo, é preciso cautela nas avaliações e nos prognósticos. Diferentemente do Brasil, nos EUA não há apenas a ação de grupos organizados na sociedade civil interferindo na programação das emissoras. Há também um mercado de afro-americanos, e esse mercado não se reduz a xampus e produtos de maquilagem. Há uma ampla oferta de grande variedade de bens, sobretudo culturais. Publicações de e para leitores afro-americanos são comuns e já constituem uma tradição nas bancas das cidades americanas. A cidadania do afro-americano se manifesta na política, todos sabem, mas não só aí. Ele não é simplesmente um cidadão em abstrato -age de forma organizada na sociedade civil, por certo, mas, além disso, comparece ao mercado como um consumidor autônomo, capaz de fazer valer suas preferências. Nada disso, infelizmente, se verifica no Brasil.
Por fim, a leitura de "A Negação do Brasil" torna ainda mais perversa a ambiguidade que já se anunciava no título. Ao negar a presença negra no espetáculo nacional, a televisão sonegou ao telespectador a realidade que o cerca, mas acabou revelando o que mais teria querido ocultar. Com essa "negação", fez emergir claramente (o termo vem a propósito) um imaginário voltado para o embranquecimento permanente. O Brasil é um país africano, sim. Eis o que se quer negar. Pois ele é também um país escravocrata, um país latifundiariamente branco. Foi assim que essa nossa televisão, ao tentar esconder o Brasil do Brasil, acabou mostrando, sem querer, o antiafricanismo ancestral que mora na "alma branca" desta terra. Na alma de sua elite e de seu público, adestrado à base de loiras falsas e mulatas-objeto. Vindo de dentro da TV, faiscando nas disparidades dos domicílios nacionais, nosso mistério nos devora: nós não somos apenas ambíguos, somos a nossa própria negação imobilizada.
Eugênio Bucci é secretário editorial da Abril e autor, entre outros livros, de "Brasil em Tempo de TV" (Boitempo).
A Negação do Brasil - O Negro na Telenovela Brasileira
Joel Zito Araújo
Senac (Tel. 0/xx/11/3849-4122)
324 págs., R$ 28,00