

Instantâneos narrativos de Vilma Arêas
Nadinhas
MARIA LÚCIA DAL FARRA
Este originalíssimo "trouxa frouxa", de Vilma Arêas, se compõe de pequenas apreensões verbais ou instantâneos narrativos aos quais a poesia não é nem um pouco estranha: em alguns deles, a intenção poética comparece transparente, pois se vale, então, do próprio uso de versos.
A ficha bibliográfica os nomeia "romance", e a tela de Leonilson, não por acaso estendida como capa sobre os 33 fragmentos de Vilma, e dita "34 com "Scars'", visualmente os complementa, encerra e encima.
Há por certo alguma mágica numerológica na disposição desses textos, depreendida da constância de alguns títulos e do desenho que esboçam. Do mesmo modo, "cicatrizes" não é, de fato, uma palavra avessa a tais flashes: concerne, antes, à semântica e à natureza deste livro que se ocupa de caquinhos, de fatos se esfacelando, de coisas perdidas ou esfiapadas, de realidades se trincando, de lacunas indizíveis, enfim, de tudo o que ronda a vida reduzida a um naco. O que não impede a alegria exuberante de se sentir existindo nesse intervalo, nesse espectro muitas vezes patético, mas sempre atravessado de fino e atento humor, que revalida ou desvanece a tenebrosidade escabrosa de algumas situações capazes de doer fundo na gente.
É assim que Vilma Arêas trata a família, os relacionamentos, o mundo da velhice, dos excepcionais, dos lúmpen, da militância política, da infância, da intelectualidade, enfim, os vivos e os mortos; porque também a morte é para aqui chamada, quase obsediante.
Perambulando irrequieta entre a província, na maioria das vezes situada às margens do Paraíba do Sul, e as metrópoles, onde posso discernir o Rio de Janeiro e São Paulo, "trouxa frouxa" guarda em si e vasculha a vida íntima mais resguardada e as apertadas dobras da vida pública, de maneira que não lhe escapam nem sequer os olhares concupiscentes do Assessor Direto do Governo.
Relevos de sentimentos
Todavia não é exatamente a cena, enraizada numa matéria banal ou, ao contrário, deveras bizarra, o que interessa, mas aquilo que a transcende e que a suspende ao seu limiar. Assim, se o assunto que lhe dá chão são histórias de gente, casos do nosso tempo, absurdidades, feitos da miséria humana ou nadinhas, importa sobretudo obter dele uma temperatura emocional, depurá-lo enquanto sensações fluidas que atinjam, sem que se perceba, o leitor. O fato é que, depois de lidos os fragmentos, sobram na mão da gente relevos de sentimentos, impressões, haustos, vertigens e, muito forte, um gosto de assombro e a certeza de que o mundo está prenhe de sentidos e significações de que não podemos dar conta, que nos ultrapassam; muito embora ele permaneça, como nos orienta a epígrafe de Nuno Ramos, sendo o que é. Daí a estranheza que nos assoma o tempo todo no transcorrer deste transporte.
Sim, porque, sem dúvida, a trouxa participa do princípio da mobilidade: quem a arruma não quer de todo estacionar, mas mudar-se, peripateticamente deambular, dar voltas à bola, viajar, flanar, expor as suas miudezas a diferentes ambientes. Bagatelas que são, todavia, pertences essenciais -e eis por que Vilma Arêas dedica o livro a todos os seus personagens: na trouxa interessa primeiro o que há dentro, o que se leva.
Além disso, muito embora reúna trens e tralhas, cabe nela mais do que se supõe, sobretudo por ser frouxa, por se encontrar ainda em estado de alguma vacância -tentador convite ao preenchimento. De maneira que esse mundo para ali enfiado aspira por mais, visto que ainda não se locupletou. A trouxa de Vilma Arêas que, por paronomásia, é frouxa, se oferece, pois, como um caleidoscópio de pano que comporta mais do que carrega.
Ora, essa maleabilidade estampada no seu título está também -e desde o fragmento de abertura- impressa no instável da visão atingida. "Furo na Mácula" registra como a dita anomalia visual providencia nos objetos e no mundo variadas mudanças de volume, de perspectiva, de solidez, pondo em dúvida a existência factual deles e, mais que isso, a sua unicidade. Todavia a imperfeição, em lugar de gerar incapacidade, produz destreza e conhecimento, uma vez que inspira esta pequena ciência: que "o que não se vê conduz à sensação correta do que de fato existe" (pág.11, grifo meu).
Nenhuma coisa escapa, de fato, a essa escrita, porque em nada ela se detém. Seu permanente processo ziguezagueante de começar algo e passar para outro é um perspicaz método de exploração do inusitado parentesco entre as coisas. Escrever, por exemplo, sobre o pecado, desemboca na penúria da carola que frequenta a igreja e na proliferação das baratas, essa praga do colonialismo. Abordar a avassaladora força da areia que toma posse de tudo, espalhada sobre a terra que crepita, é caminhar para a convicção de que aquilo que acomete o corpo, embora seja verdadeiro, fica ao largo, contrário a descrições. Mostrar a insuficiência da língua na narração da absurdez surrealista brasileira leva à flexão de uma outra algaravia. Em verdade, desviar e entortar o pensamento é, antes de mais nada, firmá-lo -tal como se reconhece em "Boquinha".
Estilo movediço
Vilma Arêas constrói, pois, este estilo tão singular, firmando-se (e não é uma contradição em se tratando dela) numa escrita andeja, num sapateado dançante -e tudo com o fito de buscar o entendimento do mesmo, em verdade tão instável! Testemunho do seu estilo movediço é a cama que, no último e belíssimo "Praia", pesada e de ferro, abandonará o quarto onde se encontra, competindo com ele em largueza e em significação.
Assim, antes que se escoe (à maneira de ampulheta) no labirinto de areia das muitas praias da vida, ela vai compor uma paisagem marinha, visto que é "água densa" capaz de refratar e multiplicar superfícies, para se tornar, então, barco e, em seguida, animal arcaico pronto a engolir as presas sem ao menos triturá-las. Ora, os saltos aparentemente desconexos, a migração de uma coisa para outra e o elenco de impropriedades na montagem dessa cama trabalham apenas no sentido de precisar, sobremaneira, esse bicho como o lugar exemplar das aventuras amorosas mais aprofundadas. E é bom que se atente para o mistério das contiguidades que, deveras, "jamais será resolvido se baseado estreitamente na água rasa da literatura".
Da mesma forma, as súbitas mudanças de registro semântico dessa escrita provocam (em "Ele") o pai, dedicado ao esporte de caçar mulheres, a comer a própria filha de nove anos, que, afinal, não será bem comida, uma vez que já estava "velho demais, faltavam-lhe dentes e a carne da menina era excessivamente dura". Também o dom de ensinar muita coisa a quem conta e a quem o lê é próprio deste estilo errático. Assim é que o narrador do último "Dudu" aprende pequenos nadas banais que, todavia, se revelam de suma importância. Descobre, assim, que só diante de um morto temos consciência de sermos "animais de alta temperatura. Como as aves". Que um caixão de defunto "veste e consola", e que essa história de fecharmos bem os nossos mortos tem de fato o seu sentido, visto que, se eles "ficam soltos, sobem para a tona da terra, atraídos pela luz do dia. Nisso se assemelham aos afogados".
Mesmo ainda quando temporais, os saltos também fazem parte desse bailado estilístico que tenho sublinhado. Assim, num dos magníficos "Cromo" (as minhas peças preferidas), um morto "ainda vivo na memória" flutua na linha do horizonte. Em "Boquinha", na cena que se descreve, as crianças, "mesmo aquelas que hoje em dia já estão mortas e enterradas -cochilavam"; num outro "Cromo", o pulo temporal produz, de súbito, transportes absolutos, elevando a cena à categoria do transcendente. Mostrando aí o menino, o gato, as cadelas no cio, a conversa à mesa, passa-se então ao quarto do menino que "um dia ficará suspenso, intacto no ar".
A mulher e a criança
Aliás, as crianças ganham especial espaço no interior dessa trouxa. Tomadas na excepcionalidade de estarem ainda inteiramente vivas, elas compreendem uma alegria ilimitada cujo atestado é a inocência no seu estado mais puro. Os pequenos instantâneos reunidos em "Nós" são disso um primor.
Assim, a descoberta do pássaro pelo menino obtém, primeiro, que a manhã se detenha e, depois, que o dia ganhe corda e continue o seu percurso. A distância entre o pássaro que alcança o espaço e o menino que engatinha e baba é aquela entre os habitantes do ar e da terra, entre o ser que tem asas e aquele que ainda guarda a forma primitiva (mas cheia de promessas) dos caracóis.
Segundo me dou conta, a visão infantil integra em substância essa escrita ambulante, permeando sua maneira de ser e pulsando-a por dentro em vitalidade e em inauguração de olhares.
Assim é possível a ela auscultar, no velho que admira longamente as estrelas, o devaneio de que "daqueles campos pretos poderia vir o que nos livrasse da velhice e da morte". Também lhe é permitido ouvir de alguém que, passando a mão na cabeça de um morto, exclame: "Como está frio este vulcão"!
Por último, quero crer que é a pureza da criança -ou, quem sabe, a ousadia da mulher (o que dá na mesma)- que insufla em definitivo a metáfora do ato de criação dessa escrita que, segundo se depreende, provém do exercício feminino mais rudimentar e genuíno: o de desovar, de cócoras, os pensamentos.
trouxa frouxa
Vilma Arêas Companhia das Letras (Tel. 0/xx/11/ 3846-0801) 82 págs., R$ 19,00
Maria Lúcia dal Farra é professora de teoria literária na Universidade Federal de Sergipe e autora, entre outros, de "Florbela Espanca - Trocando Olhares" (Imprensa Nacional/Casa da Moeda).