

Montale de pijama
JOÃO MOURA JR.
Com maior ou menor assiduidade, várias musas frequentam a poesia de Eugenio Montale. A do "Diário Póstumo" se chama Annalisa Cima, jovem pertencente à alta burguesia lombarda que conheceu o poeta em 1968, aos 27 anos, quando ele contava 72. Além de bela e inteligente, a moça tinha várias coisas em comum com o autor de "Ossos de Siba". Ao gosto (e à prática) da poesia, da música e da pintura vinha acrescentar-se o temperamento melancólico. Eleita sua executora testamentária, o poeta, em 1979, dois anos antes de morrer, entregou-lhe vários envelopes lacrados contendo poemas que, por sorteio, seriam abertos a cada ano a partir do quinto de sua morte. Perfazendo 84, esses poemas compõem o "Diário Póstumo", os 30 primeiros reunidos em livro pela editora Mondadori, em 1991, no décimo aniversário da morte de Montale, e a totalidade em 1996, no seu centenário de nascimento.
As regras desse curioso jogo entre o poeta e sua musa derradeira já haviam sido estabelecidas, porém, desde o ano seguinte àquele em que se conheceram, segundo conta a própria Annalisa Cima no posfácio que escreveu para a edição dos 30 primeiros poemas do "Diário". Ao enunciá-las, Montale entregou-lhe os poemas "Alvorada" e "A Foz", que seriam mais tarde respectivamente o sétimo e o oitavo do livro e que, postos lado a lado, como que lhe resumem o sentido: a figura feminina que vem trazer novo alento ao poeta (poema 7) quando este sente a proximidade inelutável da morte (poema 8).
"Diário Póstumo" revela-se a imagem invertida de Xênia, a sequência de poemas a sua mulher morta que inaugura o estilo prosaico-irônico do último Montale. Ali, Drusilla Tanzi, apelidada de Mosca, readquiria vida em flashes que, irônicos e isentos de autopiedade, não se afinavam com as convenções elegíacas, levando, inclusive, o grande crítico inglês F.R. Leavis a ressaltar o modo como o poeta nos faz sentir que ela, Mosca, "é uma presença real para nós". Aqui é o poeta que adquire uma vida suplementar, "post mortem", e, do além, dialoga com sua nova musa e lhe dá conselhos.
As diversas presenças femininas na poesia de Montale constituem com frequência uma tábua de salvação, uma possibilidade de transcendência num mundo com o qual o poeta se confessa em total desarmonia. No "Diário", ele declara à sua interlocutora: "Não tens um clichê:/ emerges singular. É o signo/ que transcende os humanos" (poema 7); "...Mas eis que chegas/ desbaratando o tédio/ com teus discursos variegados" (poema 56); "Ó natura divina, animadora das palavras,/ salvaste minha alma do naufrágio (...) Pedirei ao amanhã um outro encontro/ e outro ainda, para que/ frente a frente, eu velho vate e tu/ jovem Safo, sejamos um presente/ não incinerado, nem vazio:/ brilha no ar a cor esfumada do prodígio" (poema 61); "Não foste um simples fulgor,/ chegaste inesperada, voz de salvação" (poema 65).
Percorre essas poesias, como foi dito, a consciência da proximidade da morte: "Às vezes, receio no silêncio/ que venha o lobisomem/ e mutile as incertezas" (poema 8). É ela que torna ainda mais intransponível a diferença de idade entre o poeta e sua musa: "É o saber-te igual/ num tempo diverso que talvez/me doa..." (poema 6). Mas uma dor maior, que é desencanto do mundo, intensifica o elo entre os dois, para surpresa daquele que escreve: "Difícil é crer/ que a vida seja um dom,/ quando se arrasta uma/ triste existência e o viver/ a cada instante nos tortura,/ mas até mesmo em teus olhos/ vejo brumas de aflição./ Será que já flagelaram/ teu jovem coração?..." (poema 83).
Não se pense, porém, que o "Diário" se resume a um tête-à-tête do poeta com sua musa. Outras personagens o povoam: colegas escritores e demais representantes de "uma sociedade entre mundana e intelectual", que é como Marco Forti -amigo, estudioso e responsável, desde 1961, pelas obras de Montale junto à editora Mondadori e ele próprio personagem do livro- define os frequentadores da Villa Fasola, propriedade de Susi e Antonio Justi, uma das duas belas vilas em Forte dei Marmi, na costa toscana (a outra era a Vittoria, de Annamaria Papi), onde o poeta passava suas férias de verão antes de alugar, já no finalzinho da vida, um pequeno apartamento sobre um café. Forte dei Marmi divide com seu apartamento em Milão o cenário dos poemas do "Diário", que, entre outras coisas, alimentam uma estranha fantasia: a da musa-imperatriz comandando um séquito de súditos, entre os quais o poeta, todos vivendo em comunidade numa cobertura de Manhattan, com vista para o Central Park (poemas 3 e 82).
"Não sei se um testamento equilibrado/ entre a prosa e a poesia triunfará sobre o nada/ do que nos sobrevive", escreve o poeta em "Segundo Testamento" (poema 22), no qual resume a aposta do seu jogo póstumo. Seja como for, o livro encerra com chave de ouro (se é possível falar assim do despojamento) a "arte povera" do último Montale, o de "Satura", "Diário de 71 e de 72" e "Caderno de Quatro Anos", que, segundo suas próprias palavras, abandonou o fraque para escrever de pijama ou, quando muito, em traje de passeio. Como o título está dizendo, retomando o dos dois livros anteriores, essa poesia prosaica obedece à regra do "nulla dies sine linea" do diarista, aqui estendendo paradoxalmente o cotidiano para além da vida. O fino tradutor, Ivo Barroso, observa na introdução que "são poemas escritos ao acaso, às vezes no verso de envelopes ou de cartões postais, às vezes em guardanapos de papel ou cardápios de restaurantes, enfim em toda espécie de suporte gráfico que estivesse ao seu alcance no momento da composição". Nisso se assemelham aos quadros que Montale pintava e dava de presente aos amigos, feitos com materiais nada nobres como vinho, borra de café, pasta de dentes e cinzas de cigarro.
É como se o poeta outoniço, inimigo declarado da cultura de massa, estivesse nos dizendo que a literatura, e especialmente a poesia, é, ela sim, a mais democrática das artes: no limite, qualquer um pode fazer, basta ser alfabetizado. Uma revalidação insuspeitada do projeto de desmistificação da arte que caracterizava as vanguardas históricas do início do século passado.
João Moura Jr. é poeta e tradutor.
Diário Póstumo
Eugênio Montale
Tradução: Ivo Barroso
Record (Tel. 0/xx/21/507-2000)
208 págs., R$ 28,00