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Mary del Priore - 66 - Setembro de 2000
Mistérios da multiplicação
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Mistérios da multiplicação

MARY DEL PRIORE

Depois da "história vista de baixo", ou seja, da abordagem que interpretava os fatos históricos do ponto de vista dos oprimidos, subalternos e outros, a "história vista de dentro"! A "boutade" serve para ilustrar a tônica entre a obra, um fascinante relato das teorias de concepção nos séculos 17 e 18, e sua autora, uma bióloga portuguesa cuja especialidade acadêmica é a fertilização de ouriços-do-mar, embriologia e clonagem de mamíferos. De "dentro", pois se trata, também, de um estudo sério e cuidadoso sobre o interior do corpo humano, este lugar de desejo, de vida e de morte que, ultimamente, vem fascinando historiadores do mundo todo. Não é por acaso que Clara Pinto-Correia encontrou no departamento de história da ciência de Harvard e na figura de Stephen Jay Gould todo o apoio necessário para desenvolver seu trabalho. Os EUA têm produzido massa crítica de grande importância sobre o universo externo e interno do corpo, tentando entendê-lo como parte constitutiva de laços, práticas e representações culturais e sociais.
00Contudo a idéia não é nova. Nos anos 70, os franceses, pioneiros na descoberta de tantos objetos e abordagens para o estudo da história, já visitavam o assunto. Pierre Darmon debruçou-se, pioneiramente, sobre o contraste entre a facilidade com que os homens cresciam e se multiplicavam e os poderosos mistérios dessa multiplicação. Entre os fins do século 16 e 17, imaginação e incertezas caminharam de mãos dadas. Médicos, cirurgiões, anatomistas, teólogos, filósofos e moralistas apropriavam-se de algumas descobertas científicas e, munidos de grande curiosidade, erigiram teorias absolutamente contraditórias. Por sua vez, Jacques Gélis e Jean-Claude Bologne ampliaram o assunto, iluminando as novas concepções de amor e sexualidade egressas das teorias explicativas de que "crianças nasciam nos repolhos". Entre os fins da Idade Média e a Idade Moderna, engendrar filhos, explicam, era sobretudo uma forma de vencer a morte e de entender que macrocosmo e microcosmo estavam intimamente ligados.
00Novidade, portanto, é um biólogo lançar-se, com o talento de Clara Pinto-Correia, na aventura de decifrar a história da reprodução humana, de René Descartes (1596-1650), com sua teoria da fermentação de partículas masculinas e femininas, a Oscar Hertwig (1849-1922), o primeiro a descrever a fertilização e a fusão nuclear dos gametas. E de fazê-lo com competência e graça bastante para atrair o olhar do leitor menos afeito a tal assunto.
00Por isso vamos ao livro: as quase 500 páginas são divididas em 11 capítulos com títulos convidativos. Estes, por sua vez, subdividem-se, tornando a leitura corrida e agradável. O leitor desliza de temas como as primeiras teorias ovistas, nas quais, graças a De Graaf, acreditava-se que os "testículos femininos" produziam ovos, para as preocupações de Malebranche em criar um sistema geracional compatível com o "imprimatur" de Deus. Delicia-se, a seguir, com as afirmações de Swammerdan tais como "é mais claro que a luz do meio-dia que o homem é, como os insetos, produzido por um ovo visível", enquanto saboreia as reações frente à descoberta, graças ao microscópio recém-inventado, de "vermes com caudas" ou "girinos" no sêmen masculino.
Pobres espermatozóides! O fato de parecerem-se, através das toscas lentes, com animaizinhos tão insignificantes granjeou-lhes a pior recepção nos meios científicos, além de incitar a inúmeras perguntas: o que comiam? Teriam intestino? Eram macho e fêmea? Tinham alma? A repulsa parece ter sido bem equacionada nas palavras do catalão Monravá, professor de anatomia em Lisboa: "Se acreditássemos (nos espermistas), então todo o homem seria filho de um animal; pior ainda que ser filho de uma puta. Ah, nos sentiríamos todos realmente honrados!". Outro fascinante tema do debate sobre a pré-formação dos seres vivos: quando nascia um "monstro" -crianças xipófagas, por exemplo-, mesmo entre os sábios iluministas como Maupertuis e Voltaire, havia aqueles que repetiam ser esse um caso de excesso de sêmen: daí, em vez de uma, duas cabeças. Em vez de dois braços, quatro. A outra explicação era a "guerra dos espermatozóides", igualmente observada através do microscópio; guerra capaz de fazer inúmeros mortos e feridos. Os feridos, produziriam crianças com a marca da violência que teriam sofrido: pernas e braços amputados.
00Com grande erudição, Clara Pinto-Correia mostra os embates entre o pensamento científico em formação e o peso das tradições, encarnadas em textos que haviam, incólumes, atravessado séculos como "A Geração dos Animais", de Aristóteles ou mesmo a "História Natural", de Plínio. Como discutir com tal saber armazenado por tanto tempo em alfarrábios e bibliotecas, saber o que garantia que o vento engravidava mulheres, que a urina de uma mulher grávida podia "gerar como a sua dona" e que moscas podiam ser filhas de matéria decomposta? Mitos arcaicos e novas experiências se encontravam. Eram esses tempos, em que almanaques de todo o tipo circulavam com receitas como a seguinte, destinadas a produzir um bom enxame de abelhas: "Peguem um touro jovem e matem-no com uma pancada na cabeça, depois enterrem a carcaça, deixando os chifres de fora. Deixem-no ali por um mês, depois serrem os chifres -e de dentro sairá voando o desejado enxame de abelhas".
00"O Ovário de Eva" é uma excelente oportunidade para nos fazer conhecer homens como Spallanzani, Buffon, Harvey, Leeuwenhoeck e tantos outros, cuja intimidade só nos é acordada por meio de dicionários históricos ou enciclopédias. O livro nos ajuda a compreender como se moviam nesse mundo de ciência em construção e de como seus laços com a Igreja e com os Antigos interferiam em sua lógica; a lógica moderna. É também um painel amplo de uma Europa fervilhante de academias científicas, publicações, disputas intelectuais das quais a América portuguesa esteve, para nossa pouca sorte, ausente.
00Numa apresentação elegante, o livro traz uma série de ilustrações de época e apoia-se em excelente tradução de Sônia Coutinho. A pergunta que fica é: pode-se fazer história das ciências sem ser historiador? Talvez sim. Mas, no que diz respeito à "história de dentro", todo o cuidado é pouco, pois o biólogo pode tomar por história aquilo que não é: na pág. 196, a autora confunde dois dos mais renomados estudiosos de história da literatura (Jean Céard) e da arte (Jurgis Baltrusaitis), chamando-os de precursores medievais. É um erro pequenino, mas que nos faz lembrar que, malgrado as bênçãos da fada madrinha Stephen Jay Gould, entre as incontáveis fertilizações de ouriços-do-mar e a história do ovário de Eva há ainda um longo caminho a percorrer.



O Ovário de Eva - A Origem da Vida
Clara Pinto-Correia
Tradução de Sônia Coutinho
Campus (Tel. 0/xx/21/585-2047)
468 págs., R$ 56,50.



Mary Del Priore é professora de história na USP, autora de "Ao Sul do Corpo" (José Olympio) e organizadora de "História das Mulheres no Brasil" (Contexto). 

Mary del Priore é professora do departamento de história da USP.
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