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Michael Wrigley - 87 - Julho de 2002
Mistérios da mente
Foto do(a) autor(a) Michael Wrigley

Mistérios da mente

A Mente Desconhecida
John Horgan
Cia. das Letras (Tel. 0/xx/11/3167-0801)
Tradução: Laura Teixeira Motta
408 págs., R,00

MICHAEL WRIGLEY 

Às vezes os cientistas dedicam seu tempo a pesquisas cujo valor é, no mínimo, questionável. Pode-se perguntar se, ao descobrir recentemente que os mexilhões e mariscos, quando imersos em Prozac, produzem uma taxa mais elevada de espermatozóides e óvulos, a ciência estaria oferecendo algum consolo para quem apresenta certa disfunção sexual.
Mas a história da ciência muitas vezes se ocupou de teorias datadas e de becos sem saída que hoje parecem medonhos e nem por isso deixou de aumentar enormemente nosso conhecimento sobre o Universo. Em especial, a ciência já nos explicou muitas coisas sobre a mente humana e animal. Sabemos, por exemplo, que as mentes possuem base física e não são entidades imateriais e desprovidas de corpo, algo que não sabíamos alguns séculos atrás. Também sabemos que a base física da mente é constituída pelo cérebro e pelo sistema nervoso, e que há áreas específicas do cérebro envolvidas na percepção, emoção, memória etc.
É claro que ninguém acha que sabemos tudo sobre a mente, e provavelmente nunca saberemos, pelo menos não antes de virmos a saber tudo sobre o mundo físico. O provável é que a raça humana desapareça antes que isso ocorra. Todavia a ciência ostenta ótimos antecedentes e podemos ficar seguros de que ainda nos ensinará muito sobre a natureza da mente.
Em seu novo livro "A Mente Desconhecida", o jornalista John Horgan questiona tal otimismo e propõe uma tese negativa e radical, a saber, a de que existem limites fundamentais para o conhecimento científico da mente, e que as ciências da mente já estão se deparando com eles. Escreve: "Receio que neurociência, psicologia e outros campos direcionados para a mente possam estar deparando com limites fundamentais da ciência. Os cientistas podem nunca ter êxito completo em curar, replicar ou explicar a mente humana". Para submeter à prova essa alegação, Horgan destaca uma série de casos extraídos da história e das discussões atuais na neurociência, psicanálise, psicoterapia, psicofarmacologia, genética comportamental, psicologia evolutiva, inteligência artificial e estudos da consciência.
As evidências oferecidas estão longe de justificar essa tese extremamente ampla. A estratégia geral de Horgan é enfatizar a ausência de consenso entre os cientistas que investigam a mente e a falta de confirmação empírica convincente para muitas das teorias que eles formulam. Todavia isso em nada contribui para mostrar os limites do que é possível descobrir nas ciências da mente. E muito menos para mostrar que já se tenha chegado a tais limites.
Bem pode ser verdade, como pretende Horgan, que nenhuma das diversas versões de psicanálise e psicoterapia tenha sido convincente na busca de confirmação empírica para sua eficácia terapêutica. Horgan também pode estar certo ao mencionar pesquisas que mostram que as drogas não são mais eficientes do que os placebos no tratamento de depressão e outras doenças mentais. Mas isso com certeza não evidencia que a ineficácia das versões atuais de psicoterapia e psicofarmacologia se deva a alguma limitação fundamental da investigação científica da mente, nem mostra que venha a ser impossível desenvolver tratamentos mais eficazes para as doenças mentais. Talvez tenhamos de esperar longamente por esses tratamentos, mas nada que Horgan está dizendo mostra que sejam impossíveis.
E não será mesmo de surpreender que a ciência ainda não tenha conseguido compreender por completo certos aspectos da mente que são complexos e de nível mais elevado, como a emoção e a doença mental, quando nos lembrarmos que ainda se está apenas começando a entender aspectos mais básicos como a memória e a percepção.
A única área em que a tese negativa de Horgan possui certa plausibilidade é a dos estudos da consciência. Também aqui não há quem acredite que já se tenha explicado por completo como a consciência e a experiência possam emergir de uma base física, mas existe um argumento importante e engenhoso do filósofo Colin McGinn ("The Problem of Consciousness", Blackwell, 1991), que pretende mostrar que, em princípio, é mesmo impossível para nós, seres humanos, responder algum dia a tal questão. McGinn indica, de modo seguramente correto, que todas as mentes possuem suas limitações. Assim como os gatos não têm como apreender os conceitos próprios de uma partida de xadrez, provavelmente existem conceitos que estejam igualmente além do alcance das mentes humanas. McGinn alega, especificamente, que também se encaixam nessa categoria os conceitos necessários para explicar como a consciência e a experiência emergem da base física do cérebro.
Mas esse argumento não justifica nada parecido com a forte conclusão que Horgan propõe, a de que todos os aspectos da mente estão além do alcance da ciência. McGinn demonstra bastante cuidado em limitar sua conclusão ao caso específico da consciência.
Do meu ponto de vista, o problema básico de tal argumento está em que não podemos afirmar com antecedência o que é possível, tomando como base o que se pode conceber no presente. A história da ciência nos tem ensinado que aquilo que os filósofos com confiança afirmam ser inconcebível e, por isso, impossível, tomando como base argumentos a priori, com muitíssima frequência acaba se revelando não somente possível, mas também verdade. As revoluções em nossos conceitos de espaço, tempo e causalidade ocasionadas pela teoria da relatividade e pela mecânica quântica são alguns desses casos.
É bem verdade que ainda não podemos compreender como a consciência e a experiência emergem de uma base física (mesmo sabendo que de fato emergem). Ainda assim eu preferiria apostar que o futuro trará novas revoluções, que mudarão nossa compreensão desse problema e transformarão o que atualmente parece inquestionavelmente inconcebível em algo transparentemente inteligível. A ciência continuará a mudar e a expandir os limites do que é concebível e inteligível, e a ciência da mente não será exceção.


Michael B. Wrigley é professor do departamento de filosofia da Universidade Estadual de Campinas.

Michael Wrigley é professor do departamento de filosofia da Unicamp.
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