

Metafísica experimental
EDELCIO G. DE SOUZA
O surgimento da ciência moderna, no século 17, principalmente com os trabalhos de Galileu e Newton, foi acompanhado da edificação de sistemas filosóficos profundamente arraigados nessas realizações científicas. Física e filosofia misturavam-se de tal modo que as descobertas científicas constituíam fonte de inspiração para a filosofia, ao passo que esta servia de base para aquela.
No entanto, com o passar do tempo, a física, ao se constituir como disciplina independente, altamente especializada e matematicamente muito sofisticada, criou uma certa dificuldade de aproximação entre suas conquistas e novos sistemas filosóficos de fundamentação. Esta dificuldade agravou-se ainda mais com o advento da teoria da relatividade e da mecânica quântica, e a tarefa de exploração das consequências destas teorias para a filosofia parece longe de estar concluída.
É nessa complexa atividade de pesquisa que se desenvolve este livro de Michael Redhead. Trata-se da transcrição mais ou menos literal de uma série de quatro conferências proferidas em Cambridge, em 1993, cujo objetivo é "considerar a relevância dos desenvolvimentos da física teórica moderna para as questões metafísicas acerca da natureza última da realidade".
O autor procura, num primeiro momento, traçar uma distinção clara entre o trabalho do físico e o papel do filósofo (em particular, o do filósofo da física), quanto ao tipo de indagação a que estão sujeitos em suas respectivas atividades. Enquanto ao físico compete o estudo das relações entre os diversos fenômenos naturais, ao filósofo cabe investigar o que os físicos dizem acerca do mundo natural e como devem ser avaliadas tais asserções.
A partir deste ponto, Redhead passa a expor, de maneira sucinta, os diversos modos com que a epistemologia contemporânea aborda o problema do estatuto cognitivo das teorias científicas. São contrapostas concepções extremadas como o relativismo, o construtivismo social e o irracionalismo, por um lado, e o realismo, o objetivismo e o racionalismo, por outro. O pano de fundo desta contraposição é a aceitação ou não de um determinado tipo de teoria da verdade, seja correspondencial ou coerentista. Diante deste espectro de possibilidades, Redhead posiciona-se como um realista, pressupondo a existência do mundo exterior independentemente do nosso conhecimento sobre ele, sem deixar, no entanto, de reconhecer uma série de dificuldades que tal posição envolve: o problema da subdeterminação de teorias, a aparente descontinuidade do progresso científico, a necessidade de elaboração de algum tipo de conceito de verossimilhança etc. Todavia, posteriormente, mostra que sua concepção de realismo possui características muito diferentes de tudo o que se supunha na física clássica.
Uma questão fortemente relacionada com a posição realista diz respeito à relação entre ciência e subjetividade. Tal problema é analisado na tentativa de desfazer concepções equivocadas que "conferem à subjetividade um papel essencial dentro da física, resgatando para o observador, que cria sua própria realidade, um papel fundamental". Assim, ao examinar a relatividade restrita, Redhead mostra que o "observador" nada mais é do que um termo usado simplesmente para designar um sistema de referência. Em mecânica quântica, o mesmo termo designa um arranjo experimental macroscópico específico. No entanto, Redhead reconhece que, no caso específico da mecânica quântica, é preciso examinar com muito cuidado o problema do processo de medição (cuja exposição é um tanto técnica, como não poderia deixar de ser), com todos os paradoxos que acarreta (por exemplo, o gato de Schrõdinger e o amigo de Wigner).
O autor passa, então, a analisar as abordagens realistas usuais da mecânica quântica, reunidas aqui sob o título de "realismo local", que possuem duas características que serão posteriormente criticadas, a saber: (1) a tese do realismo: "as entidades atômicas e subatômicas -o objeto de estudo da mecânica quântica- possuem valores precisos e bem definidos para todos os seus atributos, em todos os instantes"; e (2) o princípio de localidade: "esses atributos não podem ser afetados instantaneamente por operações, tais como medições, efetuadas sobre outras microentidades, em localidades espaciais diferentes daquela da microentidade cujos atributos estão em questão". Ora, são essas duas características que serão a seguir postas em xeque; a primeira, pelo paradoxo de Kochen-Specker, e a segunda, pelas desigualdades de Bell. O teste experimental das desigualdades de Bell é um marco na história das relações entre ciência e filosofia, em se tratando de uma experiência que pretendia testar uma tese de natureza metafísica (o realismo local).
Assim, se o realismo local foi refutado, deve o realista abrir mão de suas concepções? Na tentativa de abordar essa questão, Redhead propõe um tipo diferente de realismo, que não está sujeito às dificuldades anteriores. Tal construção (que é um tanto técnica) consiste na redefinição dos conceitos de localidade e contextualidade, tanto ontológica quanto ambiental. A esse respeito, é interessante observar que seu trabalho consiste basicamente na elaboração matemática de conceitos filosóficos e ainda no confronto de asserções que envolvem esses conceitos com o formalismo da mecânica quântica e a experiência.
Resta examinar uma questão, também relacionada com o realismo científico: a de saber se o objetivo da física teórica é a descoberta de uma teoria que forneça explicação para todos os fenômenos, uma "teoria de tudo" (TDT). Aqui, Redhead, diante das possibilidades da existência ou não de uma TDT, não vislumbra nenhum argumento que possa nos dizer qual das concepções está correta. Mas reconhece a possibilidade da existência de questões que jamais poderão ser respondidas. Para isto, basta lembrar as limitações impostas pelo famoso teorema de incompletude de Gõdel.
Estamos, assim, diante de um retorno à situação da filosofia na época de Kant e Newton, expresso nas últimas palavras do texto: "E espero tê-los persuadido de que a física e a metafísica se mesclam em um todo inconsútil, em que uma enriquece a outra; e que, na verdade, nenhuma delas é capaz de progredir sem a outra". Enfim, uma lição que podemos tirar do livro é que apenas com um profundo conhecimento de ciência (em particular, de física) pode-se produzir uma boa filosofia da ciência, calcada firmemente nas recentes descobertas de cada campo de pesquisa.