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Marcelo Ridenti - 66 - Setembro de 2000
Meninos, vivi
Foto do(a) autor(a) Marcelo Ridenti

Meninos, vivi

MARCELO RIDENTI

Voltar aos 20 anos depois de viver um século. Quem esqueceria, especialmente se chegou a essa idade no ano conturbado de 1935, uma viagem à Europa?
Descendente de famílias aristocráticas e decadentes do Rio de Janeiro -que menciona reiteradamente, traindo uma ponta de orgulho-, Moacir Werneck conta um tempo sem as pressões da "ditadura do mercado", que ameaçaria os "moços de hoje". O jovem jornalista e estudante de direito ia aprendendo a ter "horror à sociedade burguesa", cujo discreto charme, entretanto, aparece no livro: o ambiente intelectual e artístico carioca, a vivência de quase um ano especialmente na esplendorosa Paris e na Berlim sob domínio nazista.
Com um discurso fluente e elegante, o autor lembra detalhes de suas pequenas aventuras -como o trambique montado por um diplomata brasileiro, que permitia a Werneck obter renda para viver em Berlim-, inserindo-as na grande desventura por que passava a humanidade, que levou o autor a abraçar a causa comunista. De volta ao Brasil, ele logo teria de buscar refúgio numa fazenda da família, para escapar da sanha repressora posterior ao levante comunista de 1935. Completava-se o romance de sua formação.



Europa 1935 - Uma Aventura de Juventude
Moacir Werneck de Castro
Record (Tel. 0/xx/21/585-2047)
222 págs., R$ 20,00


O livro daquele que mereceu o título de parlamentar mais destacado de 1963 expõe como poucos a experiência dos comunistas profissionais: a resistência ao Estado Novo, a breve legalidade, os anos de clandestinidade no auge da Guerra Fria (Coelho narra sua atividade nas escolas de formação de quadros do PCB, ainda pouco estudadas), a ascensão do partido do final dos anos 50 a 1964, a resistência à ditadura militar até a redemocratização. Nos anos 70, o autor amargaria quatro anos de prisão, após inomináveis torturas, num período retratado com especial sensibilidade e importância documental. Não faltam episódios de dedicação revolucionária e dignidade humana de militantes desconhecidos e também de gente famosa, comunista ou não.
Há casos que merecem entrar no folclore político, como a quase insurreição de um leprosário em Três Corações, a votação expressiva do PCB em bordéis de Pouso Alegre e Natal e a recusa de Virgílio Melo Franco em assinar um manifesto formulado pelos comunistas, tendo mudado de idéia ao saber que o portador, Marco Antonio Coelho, descendia de tradicional família mineira, à qual devia favores. Eis um livro das misérias e grandezas da cultura comunista e brasileira.



Herança de um Sonho
As Memórias de um Comunista

Marco Antonio Tavares Coelho
Record (Tel. 0/xx/21/585-2047)
532 págs., R$ 45,00


Na transcrição desse depoimento oral mostra-se o encanto radical do autor, que dá opiniões informais sobre vários temas. Para a história, interessa mais o que o livro tem de testemunho de uma trajetória pessoal invulgar. Gaúcho, ainda menino iria para São Paulo, "ovelha negra" de modesta família judia, "que só pensava em ganhar dinheiro". A duras penas, concluiu o curso primário. Só voltaria à escola depois de adulto, admitido no curso de Ciências Sociais da USP por notório saber. Autodidata, aprendeu em círculos populares de formação do PCB, PSB, trabalhistas, luxemburguistas, anarquistas, e de intelectuais que frequentavam a Biblioteca Municipal, onde estudava nove horas por dia, enquanto não trabalhava num jornal.
Do livro -que mereceria melhor cuidado editorial- salta uma São Paulo em efervescência cultural, entre 1946 e 1964, notadamente nos bairros do Brás, Belém, Bom Retiro e Centro, dos descendentes de judeus e outros imigrantes. Revela-se o colorido único de personalidades intelectuais militantes, de origem popular ou acadêmica, como Edgar Leuenroth, Hermínio Sacchetta, Paul Singer, Florestan Fernandes, a família Abramo, Antonio Candido, Aziz Simão e o saudoso Tragtenberg.



Memórias de um Autodidata no Brasil
Maurício Tragtenberg
Escuta (Tel. 0/xx/11/3865-8950)
134 págs., R$ 26,00


A pena de Carlos Lacerda -expressiva das ambiguidades do liberalismo nacional- testemunhou os embates da Constituinte de 1946. Em textos selecionados de sua coluna no "Correio da Manhã", Lacerda ironizava comunistas, getulistas e integralistas, vistos como ditatoriais e estatistas, inimigos da democracia e da liberdade de imprensa, a colaborar com a "perversa adulteração" do processo democrático, por meio de um "eleitoralismo desprezível", do qual só escaparia a União Democrática Nacional (UDN). Essa seria a promessa moralizante de um "partido sincero", pelo qual Lacerda seria eleito vereador em 1947 e, mais tarde, governador da Guanabara. O pensamento do ex-comunista Lacerda estava então numa fase transitória, talvez social-democrata, ou social-liberal, ainda no espírito da frente de oposições ao Estado Novo. Mas já se prenunciava o liberalismo conservador que se tornaria a marca desse político, também jornalista e escritor.
Assim, ele falava em 1946 de um socialismo reformista para o Brasil, que seria ainda democrático, antiestatista e individualista. Revela-se a visão liberal -quiçá não só brasileira- numa frase que diz tudo: "A existência do PC é útil à democracia, desde que ele não ganhe" as eleições.



Na Tribuna da Imprensa - Crônicas sobre a Constituinte de 1946
Carlos Lacerda
Sérgio Braga (Org.)
Nova Fronteira (Tel. 0/xx/21/ 537-8770)
542 págs., R$ 47,00

Marcelo Ridenti é professor de sociologia da Unicamp.
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