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Eliane Robert de Moraes - 69 - Dezembro de 2000
Memórias do luto
"O Gattopardo" desmente conservadorismo de Lampedusa
Foto do(a) autor(a) Eliane Robert de Moraes

"O Gattopardo" desmente conservadorismo de Lampedusa 

Memórias do luto



ELIANE ROBERT MORAES
Nada mais patético do que o velho cachorro empalhado, descrito nas últimas páginas de "O Gattopardo", sobretudo porque ele aparece como o derradeiro emblema de um aristocrata cuja linhagem evocava para si a realeza dos leopardos. Morto há 45 anos, o antigo cão de fila era conservado no quarto de uma velha solteirona, em meio a "um inferno de recordações mumificadas". Porém mesmo empalhado, com o focinho de madeira e os olhos de vidro amarelo ainda intactos, o animal não conseguia resistir ao tempo: em 1910, ele se tornara um "ninho de teias de aranha e de traças, detestado pelos empregados que há anos pediam que fosse jogado no lixo".
O cão pertencera a dom Fabrizio Corbera, príncipe de Salina, o último "pater familias" de uma estirpe que, na Sicília de 1860, estava prestes a desaparecer. Mais que um animal de estimação, o cachorro desempenha um papel fundamental no romance: era a principal testemunha da vida do nobre siciliano, e certamente a única criatura a quem o príncipe concedia o direito de compartilhar sua inviolável solidão. Testemunha muda, amistosa e obediente, como convinha perfeitamente a um homem cuja superioridade manifestava-se de tal forma que "o orgulho e a análise matemática associavam-se nele a ponto de dar-lhe a ilusão de que os astros obedeciam a seus cálculos".
Extrovertido e alegre, o cão pode ser considerado também uma espécie de alter ego de seu dono, cujo temperamento melancólico e irritadiço resultava da reunião de matrizes distintas: do lado materno, a ascendência germânica legara ao príncipe um caráter intelectual e altivo; do lado paterno, o sangue siciliano lhe dera inclinações sensuais e levianas. Marcado por essa contradição de base que a sensibilidade aristocrática só fazia acentuar, dom Fabrizio "vivia eternamente descontente, embora sob a expressão jupiteriana, e contemplava o ruir da sua casta e de seu patrimônio sem nada fazer e sem nenhum desejo de remediar o desastre".
Essa descrição está longe de esgotar a complexidade do protagonista de "O Gattopardo". Nele, o furor sanguíneo convive com a cortesia tipicamente nobre; o orgulho cede com frequência à lucidez da razão; a autoridade, própria de sua natureza leonina, não raro dá lugar à compaixão; até mesmo o temperamento irritado, que o predispõe à insatisfação e ao tédio, sucumbe muitas vezes a um forte sentimento de solidariedade.
Mais que tudo, o caráter fundamentalmente intelectual do príncipe lhe confere uma estatura espiritual superior àquela que ostenta no sangue, criando um intervalo decisivo entre o homem público e o íntimo, este introspectivo e solitário.
Se é difícil resumir o caráter de dom Fabrizio, isso se deve inicialmente ao fato de que o romance o coloca no centro dos acontecimentos: é por meio dele que o leitor acompanha os bastidores da revolução liberal na Sicília e suas intrincadas negociatas de transição do poder. É em torno dele que os outros personagens se movem, nem sempre com a mesma proeminência do cachorro Bendicó. Protagonista -no sentido lato de termo- dessa história, o príncipe de Salina é um filtro por meio do qual se tem acesso a acontecimentos públicos e privados, durante o processo de unificação da Itália. Trata-se de uma consciência que se oferece como ponto de vista interno à aristocracia, mas num ângulo absolutamente singular.

O neto de dom Fabrizio
Esse contraponto entre a biografia do personagem e o quadro histórico torna-se ainda mais complexo quando sabemos que foi um neto de dom Fabrizio quem escreveu o romance. Príncipe, ele também, e compartilhando com o avô o gosto pelas altas atividades do espírito, Giuseppe Tomasi di Lampedusa solicita uma atenção que transcende a mera autoria. Não cabe aqui uma especulação maior sobre as delicadas relações que se podem estabelecer entre vida e obra. Mas talvez seja o caso de lembrar que o jogo especular entre as duas biografias nem sempre favoreceu a qualidade das interpretações do livro.
Em "L'Intimità e la Storia" (Einaudi, 1998), Francesco Orlando alude ao frequente "preconceito biográfico" que "O Gattopardo" suscita, empenhando-se em desmentir a suposta identidade entre personagem e autor: "Dom Fabrizio, riquíssimo, politicamente influente, pai de família, mulherengo, astrônomo premiado, não é Lampedusa, empobrecido, marginal, solitário, frustrado no sexo, diletante desconhecido". Mas até mesmo a hipótese de uma estratégia compensatória, na qual a ficção "corrigiria" a realidade, deve ser aventada com precaução, pois ao preconceito biográfico soma-se outro, mais grave, que é o ideológico.
Publicado em 1958, "O Gattopardo" foi alvo de fortes ataques da crítica italiana de esquerda, cujos paradigmas estéticos ainda estavam atrelados ao neo-realismo nacional do pós-guerra. Embora seu imediato sucesso de público já anunciasse a superação desse modelo, o romance de Lampedusa ficou conhecido como "visão reacionária da história". Moravia chegou a apresentá-lo como "sucesso da direita", contribuindo para a consolidação de um preconceito que acabou se instalando na própria língua: com o livro, surgiram as palavras "gattopardismo" e "gattopardesco", sinônimos de conservadorismo.
Por certo, não se pode negar o caráter conservador do romance. Mas o adjetivo, aqui, só ganha força se deslocado da política para a história -entendendo-se essa história como versão particular de acontecimentos vividos, tecida no limiar do não-vivido. Se, como gênero, "O Gattopardo" situa-se entre o romance histórico e o psicológico, deve-se sublinhar que sua matéria-prima provém de lembranças estritamente pessoais do autor. Daí um certo tom memorialístico que percorre todo o livro, a evocar vestígios de uma tradição desaparecida, só conservada como memória de família. É nesse sentido que as biografias de dom Fabrizio e de Lampedusa se cruzam, uma ecoando a outra, mas na condição de fantasmas.
Nesse jogo de ressonâncias o que prevalece é uma intensa elaboração da memória, para dar conta do que foi perdido e só retorna como vestígio. Em outras palavras: "O Gattopardo" pode ser lido como registro de um trabalho de luto que se estende do individual ao coletivo. Tudo, no livro, evoca a perda. Dom Fabrizio, que conservava "no fundo da alma um resíduo de luto", compõe às vezes uma figura tão solene e sombria "que era como se acompanhasse um invisível coche fúnebre". O promissor casamento de Tancredi e Angélica revela-se um fracasso, sucumbindo ao "inevitável fundo de sofrimento".
Até mesmo os "deuses sorridentes e inexoráveis" que pairavam no afresco de um salão palaciano perdem a suposta imortalidade: "Acreditavam-se eternos: uma bomba fabricada em Pittsburgh, Penn., iria, em 1943, provar-lhes o contrário". Que essa bomba tenha sido a principal responsável pelos infortúnios do próprio Lampedusa -seu maior trauma, relatado em "Ricordi d'Infanzia", foi o bombardeamento da casa familiar de Palermo-, isso só prova que não há escapatória para o irremediável trabalho da morte que preside toda existência, ainda mais numa época voltada para a destruição. Nada cessa o movimento dos "grãozinhos que se comprimem e deslizam um a um, sem pressa e sem descanso, diante do estreito orifício da ampulheta". Dizendo de outro modo, nada permanece como está.
No final das contas, o romance desmente a famosa frase de Tancredi -"se quisermos que tudo permaneça como está, tudo deve mudar"- que rendeu ao autor a reputação de conservador. E o faz de tal forma que nem mesmo o cachorro empalhado, ao qual a eternidade parecia assegurada, escapa ao fluxo contínuo das mudanças impostas pelo tempo: lançado pela janela, sua carcaça velha e empoeirada se decompõe por completo no ar. Reduzido a um "montinho de pó", o cão torna-se apenas um vestígio, um nada, um quase nada -vale dizer, matéria de ficção.


Eliane Robert Moraes é professora de estética e literatura na Pontifícia Universidade Católica (SP) e autora, dentre outros, de "Sade - A Felicidade Libertina" (Imago).

O Gattopardo
Giuseppe Tomaso di Lampedusa
Tradução e prefácio: Marina Colasanti
Record (Tel. 0/xx/21/585-2000)
304 págs., R$ 34,00

Eliane Robert de Moraes é professora de estética e literatura da PUC-SP.
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