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Joaquim Alves de Aguiar - 67 - Outubro de 2000
Memórias de bambas
Dois volumes e 25 CDs contam a história da MPB
Foto do(a) autor(a) Joaquim Alves de Aguiar

Dois volumes e 25 CDS contam a história da MPB
Memórias de bambas

JOAQUIM ALVES DE AGUIAR

Os leitores deste jornal certamente conhecem o programa "Ensaio", da TV Cultura de São Paulo, e seu diretor, Fernando Faro, profissional respeitado nos meios musicais brasileiros. É uma das melhores realizações da nossa televisão. É o mais antigo musical da TV -data de 1969- e é um programa diferente, de câmara, silencioso, mesmo sendo um musical.
As canções ali são apresentadas sem alarde, como se realmente estivessem sendo executadas num ensaio de espetáculo. É isso: "Ensaio" funciona como uma ante-sala ou vestíbulo, bastidores onde intérpretes aquecem suas vozes, e músicos, os seus instrumentos. Não deixa de lembrar, também, aqueles encontros informais em que os artistas se juntam para tocar e cantar. Uma mistura de roda de samba com sessões de bossa nova, daquelas famosas, que se davam em apartamentos, no início dos anos 60, pode explicar parte da fisionomia do programa.
Além disso, "Ensaio" tem uma vocação para o documento. Cada edição se apresenta como peça de um precioso arquivo da música popular e da própria televisão. Essa vocação se cristaliza agora na forma de livro. Os dois volumes que acompanham os 25 CDs, com as músicas apresentadas no "Ensaio", têm existência própria e constituem um lançamento editorial valioso para quem acompanha a história da MPB, reproduzindo com fidelidade o programa da televisão.
Para começar, foi mantida a oralidade das falas dos artistas, que funcionam como uma espécie de "monólogo dialogado", pois as perguntas do entrevistador se escondem nos asteriscos que dividem as vozes em blocos. No lugar das canções (disponíveis nos CDs), temos as letras. Algumas rubricas, como num texto teatral, explicam o que se passou durante a gravação. Para reforço da configuração do programa em livro, os músicos são apresentados por pequenos textos de caráter biográfico-musical, escritos por alguns especialistas. A maioria das apresentações é assinada por Arley Pereira, mas há textos de Tárik de Sousa, Alberto Helena Jr. e outros.
O material que temos em mãos constitui a metade do projeto. Estão previstos mais dois volumes e outros 25 Cds. De qualquer modo, a parte já editada é um acontecimento, uma contribuição inestimável para o resgate da memória da canção popular. Sem exagero, a presente edição se equipara à coleção "História da MPB", da Editora Abril, editada nos anos 70; à "Enciclopédia da Música Brasileira", da Art Editora; aos discos da "Collectors"; aos "Songbooks" de Almir Chediak, aos ensaios de José Ramos Tinhorão, o nosso mais eminente crítico musical.

Histórias e canções
Embora haja exceções, a tônica do programa é a de ouvir histórias e canções de artistas, como se diz, em fim de carreira. João Pacífico, Joubert de Carvalho, Paraguassu, Roberto Martins e Roberto Silva deram seus depoimentos quando já haviam ultrapassado a casa dos 70 anos. Adoniran Barbosa, Mário Lago, Copinha, Geraldo Filme, Cartola e João de Barro eram sexagenários quando compareceram ao "Ensaio". Carlos Lyra, Jackson do Pandeiro, Baden Powell, Roberto Paiva, Nora Ney (a única mulher a constar dos volumes), Billy Blanco, João do Vale, Tonico e Tinoco, Zé Keti, Ciro Monteiro e Lupicínio Rodrigues aparecem como os caçulas da turma: quarentões (Billy e João do Vale) e cinquentões (os demais). Aos nomes aqui citados acrescenta-se o do conjunto "Época de Ouro", formado por "chorões" maduros, incluindo César Farias, pai de Paulinho da Viola.
Evidentemente não é tanto o peso da idade quanto o da experiência acumulada por essas pessoas o que mais interessa. Aquela vocação para o documento se confirma em outro aspecto, num detalhe que não escapa ao leitor dos textos que introduzem os depoimentos dos artistas. Ciro Monteiro e Lupicínio Rodrigues, figuras de proa do nosso cancioneiro, gravaram o programa, respectivamente em 1972 e 1973, um ano antes de morrerem, aos 60 anos. Preservar programas inteiros com artistas do porte de Ciro e Lupicínio, de Adoniran, João do Vale, Cartola, Joubert de Carvalho e outros que já se encontram "deitados, dormindo profundamente", nos mostra o tamanho do tesouro guardado nos arquivos da TV Cultura.
Deixo para os ouvintes dos CDs a tarefa de avaliar a qualidade das gravações. Aqui, me interessam os livros. Observar as letras das canções é ir, muitas vezes, ao encontro de obras-primas. Impossível não cantarolar várias delas, tão bem gravadas se encontram em nossa memória. A lembrança pode fundir as coisas num só tempo, de modo que, se numa página cantarolamos "Taí" (Joubert de Carvalho), lançada por Carmen Miranda em 1930, noutra ensaiamos "Amélia" (Mário Lago e Ataulfo Alves), dos anos 40; e noutra "Ninguém me Ama" (Fernando Lobo e Antonio Maria), gravada por Nora Ney na década de 50; e ainda "Trem das Onze" (Adoniran Barbosa), sucesso dos Demônios da Garoa nos meados dos anos 60. Os exemplos seriam inumeráveis. Todas essas canções estão vivas, como se fossem novinhas em folha. Em se tratando de gente vivida e experiente, as histórias contadas acabam competindo com as canções apresentadas. Por exemplo: uma coisa é sabermos que a maioria dos artistas provém das camadas sociais inferiores, outra é ouvirmos suas próprias vozes narrando as dificuldades que encontraram para se profissionalizar. Nesse sentido, a trajetória de João do Vale é exemplar, pois resume a de muitos outros que se engalfinharam na luta pela vida, com o objetivo nem sempre alcançado de ter o seu lugar ao sol.

Peregrinação de nordestino
Nascido em Pedreiras, cidadezinha do interior maranhense, de família numerosa, o genial compositor de "Carcará" (parceria com João Cândido), vai, mocinho, rolando Brasil abaixo, em direção ao Rio, numa autêntica peregrinação de migrante nordestino: do Maranhão ao Piauí, do Piauí ao Ceará, do Ceará a Pernambuco, de Pernambuco à Bahia, da Bahia a Minas, até aportar na meca do "show business". O entrevistador pergunta "quando" João chegou ao Rio. Mas ele responde: "Eu vim trabalhando". A data, como se vê, não interessa tanto ao compositor quanto o processo sofrido a que precisou se submeter para chegar a seu destino.
Uma vez na cidade grande, João trabalha como ajudante de pedreiro. É na labuta de uma construção, carregando massa, que o "negão" troncudo acaba ouvindo Marlene, estrela daqueles longínquos anos 50, cantando no rádio uma música de sua autoria. Não era o bastante. O reconhecimento só viria anos depois, na década de 60, no palco do "Opinião", para onde João teve o privilégio de ser alçado, graças a contatos feitos no restaurante "Zicartola", tradicional ponto de encontro dos artistas no Rio. Integrado ao elenco do espetáculo que marcou época, João podia dizer: "Agora sou um artista". Mas não bastou. Passada a onda, morreria, quase no anonimato, pobre e doente, na cidade natal, em 1996, aos 62 anos.
Adoniran Barbosa, naquela altura já o compositor consagrado de "Saudosa Maloca", "Samba do Arnesto", "Bom Dia Tristeza" (parceria com Vinícius de Moraes) e outros sucessos, dizia a Fernando Faro, em 1972: "Eu moro aqui na Cidade Ademar" (bairro proletário da periferia paulistana), "na minha rua não tem luz, não tem água, é poço se quiser e fossa se quiser". A violência já o obrigava a "ir pra casa cedinho por causa dos assartante".
Poderíamos argumentar, não sem certa dose de cinismo, que compositor é assim mesmo, que vive na corda bamba, sobretudo quando se trata da velha-guarda, sem espaço na TV, onde o dinheiro rola mais solto. Mas há o outro lado, o daqueles mais bem-nascidos, que não encontraram tantos obstáculos na carreira, e em geral não têm do que se queixar.
Quase tudo é festa no depoimento de um Mário Lago, que poderia ter sido diplomata. Convertido em respeitável ator da TV e do cinema, figura das mais adoráveis, o compositor se detém em fatos pitorescos testemunhados por ele no Café Nice, reduto da boêmia carioca nos anos 30 e 40. É num tom semelhante, de crônica amena, que também falam do seu passado Joubert de Carvalho, médico de carreira; Carlos Lyra, que ia ser arquiteto; e Billy Blanco, arquiteto de formação. A fala é de Nora Ney, cuja consagração no rádio se deu da noite para o dia: "Desde 1958, todos os anos vou à Europa, fico cinco ou seis meses e volto". À busca de platéias internacionais para o seu sofisticado canto de "diseuse" se junta, sem dúvida, a sofisticação da moça bem-nascida, como ela própria se define, criada numa fazenda mineira.

Crônica amena
Não se quer dizer, com os poucos dados reproduzidos acima, que os depoimentos dos artistas se dividem em grupos de pobres, remediados e ricos. Todavia um dado é inegável: o mercado costuma ser mais perverso com os menos favorecidos. A prova de que é impossível falar da MPB feita neste século sem tocar nos mecanismos da indústria cultural e nos tradicionais casos de espoliação expostos nos depoimentos: vendas de música a preço de banana, cachês miseráveis, direitos autorais surrupiados etc. Não é à toa que informações desse naipe sejam predominantes nos testemunhos de compositores de origem modesta.
Mas nem tudo é drama na conversa fiada e saborosa desses músicos notáveis. Aspectos pitorescos atenuam o peso de mágoas e lamentações pela falta de reconhecimento, divertem e não raro informam o leitor. Vão aí alguns exemplos.
No fim da década de 20, o rádio ainda em seu alvorecer, "Mágoas", de Paraguassu, chegou a provocar o suicídio de várias criaturas apaixonadas, provavelmente levadas de roldão já pelo primeiro verso da cantiga, realmente premonitório: "Nunca mais um verso meu terás". Paraguassu nos informa que, naquela época, os seresteiros paulistas gostavam de tocar em casas de imigrantes italianos, pois estes abriam suas portas aos músicos e lhes ofereciam frango, macarronada e vinho. Já Tonico e Tinoco recebiam leitoas como pagamento, quando tocavam, no interior, para moças, atendendo a encomendas de rapazes enamorados.
Joubert de Carvalho, que devia ter a música no sangue, para formar-se em medicina, escreveu uma tese intitulada "Sopros Musicais do Coração"! É ainda Joubert que, tentando orientar Carmen Miranda na interpretação de "Taí", acaba ouvindo da espevitada cantora: "Não precisa ensinar. Na hora da bossa, eu entro com a boçalidade". Essa outra pérola é de Carlos Lyra: "Vinícius sempre disse que o uísque é o melhor amigo do homem, que uísque é o cachorro engarrafado". Encerrando, ouçamos um golpe poético de Adoniran Barbosa, comentando sua pronunciada emotividade: "Eu não posso chorar muito, porque sou muito "cuidado: frágil'".
Haveria muito mais a ser dito sobre os depoimentos. Mas é preciso encerrar e, para tanto, gostaria de falar um pouco de certos aspectos linguísticos dessas vozes, reproduzidas, na sua oralidade plena. Adoniran, por exemplo, é a encarnação do sotaque amalandrado, ítalo-paulistano: diz "assartante" no lugar de assaltante, "gaita" em vez de dinheiro, "chorar na rampa" por sofrer. Mário Lago menciona várias gírias cariocas, criadas no Café Nice. Uma delas é "vai-da-valsa", que significa prosseguir mansamente, sem complicação, e que extrapolou as fronteiras linguísticas do Rio. Billy Blanco refere-se a "pano legal", gaiatíssima, usada para identificar roupa fina, que acabou consagrada num de seus sambas mais conhecidos: "Se soubesse também como era o ambiente/ decente/ jogava um pano legal/ por cima de mim". Copinha recordará o bonde "Caradura", destinado aos passageiros com pouco dinheiro: era aberto e como tal exposto a chuvas e trovoadas. Recordará, também, a palavra "tebas" -"Fulano é um tebas" -, utilizada para qualificar pessoas de muitos talentos. Roberto Martins ensina que "pedir manteiga" era eufemismo de pedir cachaça em botequim. Roberto Paiva diz que comprar um "gasparino" era adquirir uma fração de bilhete de loteria.
Como se vê, há muito o que aprender com esses artistas. Mais que cantores ou compositores, são cronistas de um tempo, cuja memória corre o risco de se perder num país desmemoriado e numa época de poucas delicadezas. Acho que falei bastante desse lançamento imperdível (pena que o preço do pacote contendo livros e discos seja pesado demais para leitores e ouvintes de bolsos murchos, como andam os da classe média interessada). De qualquer maneira, o mais fica por conta de olhos e ouvidos mais apurados que os meus. A fonte é inesgotável.



A Música Brasileira Deste Século por seus Autores e Intérpretes
Organização: João Carlos Botezelli Serviço Social do Comércio - SESC (Tel. 0/xx/ 11/ 3871-7759) 2 vols., 224 e 256 págs 25 CDs, R$ 220



Joaquim Alves de Aguiar é professor de teoria literária da USP e autor de "Espaços da Memória -Um Estudo Sobre Pedro Nava" (Edusp).

Joaquim Alves de Aguiar é professor de departamento de teoria literária da USP.
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