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Augusto Massi - 63 - Junho de 2000
Memorável Mastroianni
Foto do(a) autor(a) Augusto Massi

Memorável Mastroianni

Eu me Lembro, Sim, Eu me Lembro
Marcello Mastroianni
Tradução de Therezinha Monteiro Deustsch
DBA (Tel. 0/xx/11/ 852-1643)
192 págs., R$ 25,00

AUGUSTO MASSI

Este livro encantador, "Eu me Lembro, Sim, Eu me Lembro", de Marcello Mastroianni, nasceu de um documentário, dirigido em 1996, por sua mulher, a cineasta Anna Maria Tatò. Talvez, por causa desse vínculo visceral com o cinema, esta seja uma obra tão diferente da indústria das biografias, das memórias maquiadas, das fofocas autorizadas por atores famosos que abarrotam as livrarias. Algo do método de composição cinematográfica foi preservado na montagem do livro, cuja construção fragmentária pode ser resgatada na moviola da leitura.
A primeira impressão é que Mastroianni sabe manipular como ninguém a máscara do narrador. Às vezes, visualizamos a expressão do seu rosto, imaginamos seus gestos, tal a proximidade que estabelece. Outras, sua imagem desaparece por completo e, na sala escura da memória, resta apenas sua voz, em "off", a nos comover. Vamos conhecendo desde informações tradicionais -nasceu em 1924, em Fontana Liri, e morreu aos 72 anos- até as lembranças mais alumbradas no imaginário: "Eu me lembro de uma viagem de trem durante a guerra. O trem entra num túnel. Faz-se uma tremenda escuridão. E aí, no silêncio, uma desconhecida me beija na boca".
O livro é delicadamente marcado por uma série de recusas. É impressionante como um ator reconhecido mundialmente desmerece a face pública em favor das lembranças do núcleo familiar: a mãe, o pai, o irmão Ruggero. Foi ao lado deles que, sem qualquer tom dramático, partilhou a experiência da guerra, da fome, das festas de Natal. Os movimentos da memória, ao mesmo tempo que configuram relações familiares, resvalam sempre em reminiscências profundamente sensoriais: "Eu me lembro da oficina de meu avô e de meu pai. Meu avô consertava uma cadeira. Eu me lembro do cheiro da madeira, o cheiro da madeira!".
É fundamental insistir nesse ponto, porque, a meu ver, o depoimento de Mastroianni expande esse sentimento de filiação até o ambiente cinematográfico, cuja satisfação é poder trabalhar como se todos formassem uma imensa família: Vittorio de Sica, Federico Fellini, Michelangelo Antonioni, Ettore Scola, Marco Ferreri e os irmãos Taviani. Dessa perspectiva, é um herdeiro do neo-realismo: recusa o glamour dos atores profissionais, o cinema de estúdio e revela um enorme interesse pela vida do homem comum.
Outra recusa radical, combater o ridículo rótulo de "latin lover": "Sempre me deu prazer ironizar meu aspecto físico. Se possível quase anulá-lo". Para escapar do estereótipo, encarnou o impotente de "O Belo Antônio" (1960), de Mauro Bolognini, o cornudo de "Divórcio à Italiana" (1961), de Pietro Germi, o marido grávido de "Um Homem em Estado Interessante" (1973), de Jacques Demy, e o homossexual de "Um Dia Especial" (1977), de Ettore Scola.
Num plano mais abrangente, podemos dizer que Mastroianni faz uma defesa do cinema europeu contra o americano. Desconfia de certos clichês de grandes astros que discorrem sobre o "sofrimento para entrar no personagem". Prefere o termo francês "jouer", que significa tanto "representar" quanto "brincar". Tampouco aguenta atores americanos premiados por representar personagens deficientes. Mas tudo isso é dito sem o menor preconceito, misturado a uma profunda admiração pela leveza elegante de Fred Astaire, pelo silêncio que tomou conta do "Chez Maxim's" quando Gary Cooper entrou de smoking branco, pela arquitetura de Nova York.
Pouco a pouco, sublinha a importância de sua formação teatral, que teve início na companhia de Luchino Visconti. Dessa época tirou lições simples e precisas: "No cinema, o que tem importância é o olho, ao passo que, no teatro, é a voz". Mas prefere o caldeirão mágico do cinema ao templo disciplinado do teatro. Ao longo do livro, esse aprendizado adquire um caráter mais reflexivo, como nas passagens em que discute a questão do ator, comentando detidamente "Le Paradoxe sur le Comédien", de Diderot: "Acredito que sempre deva existir um distanciamento entre o ator e a personagem que ele interpreta. Mais ainda, é preciso que haja sempre um olho que pisque, irônico, como que dizendo: "Ah, não leve isso tão a sério, lembre-se de que está representando, e não vivendo, essa personagem'".
Outro ponto alto é sua declaração de amor à primeira vista por Tchecov: "Suas personagens e suas histórias correspondem melhor a minha natureza de homem e também a minha natureza de ator. Gosto daquele mundinho acanhado, feito de personagens perdedoras, sempre, e cheias de entusiasmo, sonhos, ilusões. "Moscou! Moscou!, para onde nunca irão. (...)" Há drama, claro que há, mas é um drama que beira o ridículo, que chega a fazer rir. E acredito que resida aí a grandeza desse autor humilde. Shakespeare é grande, mas, pelo menos para mim, os meios-tons de Tchecov são mais emocionantes".
Mastroianni estrelou alguns dos principais filmes dos últimos 50 anos. Seu rosto é capaz de acolher tanto a perplexidade do tipo mais popular quanto a angústia de um intelectual. O propalado "dolce far niente" de sua doce vida foi uma longa conquista. A sensação final é que Mastroianni interpreta muito bem a si mesmo. É memorável.


Augusto Massi é poeta, autor de "Negativo" (Cia das Letras) e professor de literatura brasileira na USP.

Augusto Massi é poeta e professor de literatura brasileira na USP.
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