

Machado e a marmelada
Sidney Chalhoub
Notas semanais: Machado de Assis
John Gledson e Lúcia Granja (orgs.)
EDITORA DA UNICAMP
278 p., R$ 38,00
Rio de Janeiro, 6 de agosto de 1878. Machado de Assis lia os jornais do dia. Vários, quiçá porque naquele tempo os diários tinham a virtude da brevidade. No “Jornal do Commercio”, deteve-se em notinha sobre a Ilha de Paquetá, mais precisamente a respeito do andamento do primeiro turno das eleições naquele lugar. O subdelegado havia pedido ao chefe de polícia que retirasse da ilha o reforço policial para lá enviado no intuito de garantir a ordem durante o pleito.
Na crônica de 11 de agosto, publicada em “O Cruzeiro”, série Notas semanais, Eleazar, o narrador ou autor ficcional dela, diz que Camões havia inventado uma ilha dos Amores, mas a verdadeira, a que existia mesmo, ficava em Paquetá. Descreve então a reunião dos votantes do lugar no adro da igreja matriz. Não obstante os diversos credos políticos, a manhã era linda, o mar sonolento, o céu azul, tudo fraternidade. Umbigos liberais e conservadores dançavam ao som da viola republicana. Lauto almoço, com ervas, frutas, ovos, leite, doces, pão. Cada votante, por cortesia, sufragava os candidatos do partido oposto, e vice-versa.
Na apuração, a mesma cousa. Os apuradores, “por efeito da mais honesta perfídia”, liam nas listas dos candidatos do seu partido os nomes dos candidatos do partido adversário. Desse modo, restabelecia-se a proporção anterior dos votos, pois que o segundo passo desfazia o primeiro, salvo pelo fato de que ninguém se conformou com o resultado, protestando que os eleitos haviam sido os outros. A solução foi organizar novo pleito, no qual os candidatos não o eram, elegendo-se o Barba-Roxa, Nostradamus, Gregório de Matos...
Machado de Assis escreveu crônicas por quase quatro décadas, mais de 600 peças. A série “Notas semanais” dá boa idéia da poeira de assuntos que suscitava comentário nesses textos. Além de eleições, diz-se de tudo lá, em desordem aparente: teatro lírico, desfalques no governo, política de mão de obra para a agricultura, touradas, homem que dá à luz, regatas, Rua do Ouvidor, câmara municipal, rinque de patinação, exibição de anão sem braço, proezas de homem-peixe, desafios de boxe...
Gênero literário escrito para a imprensa, boa parte da dificuldade em ler essas crônicas hoje em dia consiste no fato de que não conhecemos a maioria esmagadora dos acontecimentos, personagens e alusões culturais, políticas e literárias delas. Daí a importância de uma edição crítica como esta, baseada em vasta pesquisa nos jornais do período, repleta de notas que permitem ao leitor moderno degustar a graça de piadas de outro tempo. A fantasia sobre os amores eleitorais de Paquetá aparece no jornal ao lado de notícias copiosas sobre pleitos decididos no cacete, urnas roubadas, atas fraudadas, até assassinatos. Eleazar observara, na primeira crônica da série, que “a ciência política acha um limite na testa do capanga”, para concluir em seguida que o princípio social do Rio de Janeiro era “o doce de coco e a compota de marmelos” – isto é, a marmelada.
Estilo característico
A circunstância da crônica enquanto gênero ancorado mui diretamente em eventos do tempo traz o perigo de subestimá-la no que concerne à sua sofisticação e labor literários. Machado de Assis investia nesses textos, dedicava meses, às vezes anos, a cada série, inventava autores ficcionais delas – dotando tais narradores de um estilo característico, de um modo próprio de ver as cousas. Notas semanais apareceu no mesmo periódico, O Cruzeiro, em que Machado havia publicado Iaiá Garcia meses antes. É contemporânea das críticas dele a Eça de Queirós, logo foi escrita à época do que já se convencionou chamar de “a batalha do realismo no Brasil”. Em momento de engajamento político-literário, às vezes mal disfarçando a sua irritação, Machado chega a colocar na boca de Eleazar, fazendo dele seu ventríloquo, que “os realistas podem continuar na doce convicção de que a última palavra da estética é suprimi-la”.
Estávamos às vésperas de Memórias póstumas de Brás Cubas. Em geral, porém, em vez de diatribes anti-realistas, a massa de Eleazar é outra. A lógica de suas observações tende a explicitar a desconexão freqüente entre discurso e realidade. Às vezes, como na anedota das eleições em Paquetá, a realidade das pauladas e das fraudes parecia tão mirabolante que não havia “ciência política” apta a analisá-la, nem imaginação capaz de superá-la.
Eleazar diz isto mesmo, ao comentar que “nem Shakespeare era capaz de imaginar cousa análoga ao caso de Macaúbas”, na Bahia, onde o delegado de polícia local, inconformado com a derrota eleitoral dos conservadores, sitiara o município e comandava razias contra os adversários. Para lidar com o problema da instabilidade dos sentidos, Eleazar recorre à fantasia. Por motivos estéticos e políticos, não parecia promissor buscar na literatura a idéia de univocidade entre ficção e realidade.