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Renato da Silva Queiroz - 24 - Março de 1997
Lucy in the sky
Foto do(a) autor(a) Renato da Silva Queiroz

Lucy in the sky

 

RENATO DA S. QUEIROZ

manhã do dia 30 de novembro de 1974. O paleantropólogo norte-americano Donald Johanson, supersticioso, acordou com o pressentimento de que aquele dia lhe traria sorte -"um daqueles dias em que algo formidável pode acontecer". Ainda pela manhã, deixou o acampamento de pesquisa instalado em Hadar, no escaldante deserto de Afar, Etiópia, e foi caminhar pela superfície rochosa do local nomeado 162, a seis quilômetros da base de pesquisa.
Johanson estava de fato com sorte: algum tempo depois encontraria Lucy, ou melhor, cerca de 40% do esqueleto fossilizado de um único indivíduo, os restos de um hominídeo assim batizado porque, à noite, já no acampamento, ouvia-se uma gravação de "Lucy in the Sky with Diamonds", a famosa canção dos Beatles.
Análises posteriores revelaram tratar-se de um achado extraordinário. Jamais se havia encontrado antes um esqueleto fossilizado tão completo quanto antigo de um hominídeo, visto que datações cuidadosas determinariam que Lucy vivera há cerca de 3,5 milhões de anos. Ademais, um conjunto de outras evidências -formato da pélvis, dentes do siso já despontados e desgastados etc.- apontavam para os restos de uma fêmea adulta, com pouco mais de um metro de altura, morta na juventude dos seus 25 ou no máximo 30 anos. Deram-lhe mais tarde um apropriado nome científico, Australopithecus afarensis, pois Lucy estava predestinada a alterar profundamente o que até então se sabia a respeito dos caminhos evolutivos trilhados pela humanidade.
Minuciosos estudos anatômicos revelariam que Lucy era um espécime de primata que caminhava ereto, e tal característica fez com que passasse a ocupar o devido lugar entre os ancestrais extintos do homem. O seu esqueleto pós-craniano assemelhava-se bastante ao do homem moderno, mas as dimensões do crânio diziam não ter ele abrigado um cérebro muito maior que o dos macacos.
O ingresso de Lucy e de outros fósseis de Hadar no cenário das origens humanas estimulou Don Johanson e seu colaborador Tim White a publicarem um artigo descrevendo uma nova espécie de hominídeo, Australopithecus afarensis. Surgia também o redesenho da árvore genealógica que resume as etapas da evolução humana, reservando-se ao A. afarensis a posição de ancestral não apenas do A. africanus e do A. robustus, como também de espécies classificadas no próprio gênero Homo, que teria tido início com a emergência do H. habilis, passando pelo H. erectus até evoluir, finalmente, para o H. sapiens. Como era previsto, o trabalho de Johanson e White desencadeou intensas polêmicas no seio da comunidade científica especializada, envolvendo sobretudo Mary e Richard Leakey.
Johanson e Edey também dedicam longas páginas do livro às primeiras descobertas paleantropológicas, ocorridas na segunda metade do século 19, e especialmente às crenças então em vigor (que em alguma medida se prolongam pelas primeiras décadas do 20), segundo as quais o incremento do volume cerebral teria precedido o advento do bipedismo. O que se esperava, portanto, era encontrar fósseis que confirmassem a convicção de que um cérebro praticamente humano comandasse um corpo simiesco. Explica-se assim o descrédito enfrentado pelos pioneiros da paleantropologia, à medida que passaram a desenterrar fósseis hominídeos cujos traços sugeriam exatamente o contrário.
Ainda de acordo com Johanson e Edey, a década de 1967 a 1977 constitui a fase dourada da paleantropologia. Em três grandes áreas de pesquisa, situadas no Quênia, Tanzânia e Etiópia, todas no continente africano, foram feitas, naquele período, dramáticas descobertas de fósseis hominídeos e outros achados, tais como instrumentos de pedra e pegadas de primatas que se locomoviam sobre dois pés, deixadas impressas no solo recoberto por cinza vulcânica solidificada há uns 3,5 milhões de anos. Olduvai, Laetoli, Omo, Hadar, entre outros, são nomes que hoje designam famosos locais de pesquisa paleantropológicas, responsáveis pela notoriedade internacional conferida a vários estudiosos, entre eles o afortunado Don Johanson.
Tantos foram esses progressos que se tem agora como certo -aliás, como Darwin vislumbrara- que essa vasta região situada na África Oriental constitui o berço da humanidade. Ao que tudo indica, surgiram, evoluíram e desapareceram ali os primeiros hominídeos, ancestrais diretos ou parentes colaterais do homem, todos já extintos, com exceção dos contemporâneos representantes do Homo sapiens. Nesse sentido, talvez o segmento mais atraente do livro em pauta seja aquele devotado a fornecer uma explicação para o advento da locomoção bípede, capítulo nomeado "Por que Lucy andava ereta?".
Johanson e Edey incorporam nesta parte do livro a teoria proposta por C. Owen Lovejoy, para quem, sendo o bipedismo uma forma ineficiente de locomoção, deve ser compreendido como uma adaptação que, liberando as mãos, permitiu o transporte de objetos. Lovejoy descartava na época -convém lembrar que a primeira edição do livro é de 1981- algumas explicações para a emergência do bipedismo.
Segundo ele, o advento da postura ereta nos nossos ancestrais mais antigos não decorreria da necessidade de se olhar por cima do capim alto das savanas, nem de correr dos predadores. Também não resultaria do fato de terem sido os primeiros hominídeos usuários de artefatos ou tampouco porque em nossa trajetória evolutiva tivéssemos passado por uma fase intermediária, locomovendo-nos sobre os nós dos dedos, como fazem os gorilas.
Simplificando o requintado raciocínio de Lovejoy, poder-se-ia dizer que a vantagem adaptativa do bipedismo estaria associada a uma estratégia social e reprodutiva: a formação de pares duradouros, desestimulando a competição entre os machos pelo acesso às fêmeas, os teria liberado para perambular à procura de alimentos. A locomoção bípede dos machos permitiu-lhes transportar mais alimentos para as suas fêmeas -que se tornaram mais sedentárias- e prole, ao passo que o bipedismo e o sedentarismo das fêmeas teriam favorecido os cuidados dispensados aos filhos. Por outro lado, o macho estaria seguro de estar alimentando a fêmea certa, ou seja, a que estaria produzindo a sua prole. Em suma, a locomoção bípede teria incrementado a taxa reprodutiva dos hominídeos, conferindo aos bípedes uma vantagem competitiva sobre os outros macacos.
Embora sedutora, essa teoria tem merecido reparos. Richard Leakey (1994), por exemplo, observou que Lovejoy pode ter operado por meio de categorias tipicamente ocidentais, pois são minoritários os povos tecnologicamente primitivos que adotam a monogamia. Ademais, enfatiza Leakey, os machos das espécies humanas ancestrais conhecidas apresentavam cerca do dobro do tamanho das fêmeas, fenômeno conhecido por dimorfismo e que se correlaciona, em todos os tipos de primatas estudados, à poliginia ou à competição entre machos pelo acesso às fêmeas, não sendo registrado acentuado dimorfismo em espécies monogâmicas.
Para finalizar, é justo dizer que "Lucy: Os Primórdios da Humanidade" carece de algumas atualizações, mas ainda é um livro estimulante e acessível ao leitor comum, sendo bem escrito e ricamente ilustrado. Apresenta também o mérito de não sonegar informações sobre as dificuldades que se apresentam ao pesquisador de campo, sobretudo quando a pesquisa é realizada em países politicamente instáveis, como tem sido o caso da Etiópia.

Renato da Silva Queiroz é professor do departamento de antropologia da USP e autor, entre outros, de "Não Vi e Não Gostei: O Fenômeno do Preconceito" (Moderna). 

Renato da Silva Queiroz é professor do departamento de antropologia da USP.
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