

Lógica do sucesso
"Partículas Elementares" vendeu 300 mil exemplares na França |
LEDA TENÓRIO DA MOTTA
Que estilo... para que mundo? Essa é a pergunta a que toda boa literatura, de algum modo, necessariamente próprio, teria que responder. Em francês, aliás, "propre", além de próprio, é limpo. E é por isso que os bons escritores, na França de Michel Houellebecq, como em toda parte, não falam na língua de "Monsieur-Tout-le-Monde", mas assinam embaixo do que escrevem. O que não se poderia dizer que Houellebecq faz.
Kafka, que falava em sua própria língua, e não deixou romances acabados, é um mundo e um estilo. Borges, leitor de Kafka, que discursava em paradoxos e tampouco escreveu romances, é todo um outro mundo, saído de um outro certo estilo. Não havendo nem mundo nem estilo, não há como haver... literatura! Supondo-se que ainda haja romances.
Tome-se desse ponto de vista liminar e só aparentemente simples -pois nem o estilo, nem o mundo, nem o gênero romance são coisas fáceis de definir, o que não os impede de existir e de contar, ou de não contar mais- a literatura de Houellebecq. Isso que faz o jovem francês -cantor e poeta, como anunciam orgulhosamente os "releases", mas principalmente romancista e, como tal, subitamente projetado em escala planetária, graças à explosão de "Partículas Elementares", livro recentemente traduzido para 21 línguas, depois de vender 300 mil exemplares só na França -seria literatura?
E, nesse sentido, teria o francês razão de dizer de boca cheia, como acaba de fazer de passagem por São Paulo, a caminho da infinidade de noites de autógrafos que o esperam daqui por diante, que é o maior escândalo das letras francesas desde Céline? Seria ele, enfim, como suas palavras sugerem, comparável ao autor de "Morte a Crédito", que por sinal se considerava menos romancista que cronista e um dia ousou, com o senso de sua real grandeza, pela qual, diga-se de passagem, pagava bem mais caro, reivindicar a herança de Proust, dizendo-nos que a deslocava do faubourg Saint Honoré para Clichy?
E teríamos nós -leitores de Kafka, Borges, Céline e Proust, confundindo escândalo e "frisson", o preço a pagar e o preço a receber- que embarcar nessa comoção, vendo aí a literatura do próximo século, o grande niilismo celiniano, a grande invectiva inumanista e delirante do cronista das duas Grandes Guerras, agora em novo ambiente, o da engenharia genética e o do sexo farmacológico, como vem sustentando a mídia alvoroçada, onde ambas as coisas, por coincidência, são temas em cima do lance?
Nós, que sabemos que o caro leitor médio perdoa tudo, menos o gênio? Nós, que aprendemos com Valéry que todo o escândalo dos modernos estava em renunciar à lógica do sucesso, que é o sufrágio do número, e até mesmo à da crítica, cujo lugar os poetas tomaram de assalto, para serem eles mesmos, entre pares, os seus melhores comentadores? Nós, que ouvimos Francis Ponge dizer, com a tremenda insistência de que ele era capaz, ele que buscava obsessivamente um texto limpo e chamava a sua poesia de prosa, invertendo Lautréamont e enlouquecendo ainda mais a classificação dos gêneros, que aquilo que prospera na ordem do senso comum, aí incluídos os próprios recursos dos poetas estabelecidos, por isso mesmo não pode ser assunto para a literatura?
Todo o escândalo da literatura Houellebecq, por falar em senso comum, é armado dentro da mídia, onde ela começa e, muito provavelmente, está destinada a finar, tão rápido quanto aconteceu, a julgar pelo precedente da de Marie Darieusseq, que rima com Houellebecq e também vinha revolucionar tudo, há dois anos atrás, com o hoje esquecido "Truismes", aqui traduzido, muito apropriadamente, e salvo engano, por "Porcarias" (de "truie", a fêmea do porco).
Partículas Elementares Michel Houellebecq Tradução: Juremir Machado da Silva Sulina (Tel. 0/xx/51/228-1966) 340 págs., R$ 32,50 |
Mas se é num "faits divers" que se inspira, por exemplo, a intriga de "O Vermelho e o Negro", assim como é nos jornais que Balzac começa propondo o seu monumental mundo de papel, de dentro do qual vem nos falar, muitas vezes, do próprio mundo dos jornais, a que pertence Rubempré, há dois séculos que os bons escritores já se desalojaram da mídia. Desde que seus escândalos começaram a caber cada vez menos dentro dela, vejam-se, por exemplo, para só ficar na grande cultura francesa, os processos formais a "Madame Bovary" e às "Flores do Mal", e os informais, sob a forma da censura, ao "Spleen de Paris", que o último Baudelaire dificilmente conseguia encaixar em alguma redação, daí a homenagem agradecida a Arsène Houssaye, o diretor do "La Presse", na abertura.
O Céline do McDonald's
A pertinência midiática em toda a linha, desde a temática ou o tipo de imaginário em jogo, as utopias em que embarcaram nossos pais, os psicofármacos, o prolongamento da capacidade sexual pelas drogas de reposição, as mágicas do avanço da ciência, até o lugar da legitimação -também representado pela revista "Lire" de Bernard Pivot, o animador do "Bouillon de Culture" da TV a cabo-, põem as "Partículas Elementares" na linha oposta à de Céline, em que pese o fato de Houellebecq estar sendo dito "o Céline do McDonald's".
O que poderia prestar-se a ser entendido no positivo, como sinalizador de uma transfiguração ou sequestro genial do legado, que os ares de provocação do jovem escritor confirmam, e o que não é, sob ângulo nenhum, verdade. Já que Céline não apenas se desentende estrondosamente, em seu tempo, com a opinião pública, sendo, como disse alguém, bem ao contrário do oportunista, um especialista do contratempo, mas ainda dialoga com os pares, a começar pelo que assina "Qu'est-ce Que la Littérature? (O Que É a Literatura?)". Mestre que ele se permite chamar, no seu inimitável registro hiperbólico, vazado em gíria para melhor transtornar a bela língua francesa e nos introduzir com esse estilo no seu mundo, que é um "bas fond", de "agitado da cachola" ("agité du bocal").
Seria literatura, em suma -para voltar à velha pergunta de Sartre, que tanto bateu na tecla da responsabilidade do escritor e da língua estranha dos poetas-, uma história com "h", na ordem gentil dos acontecimentos, inconsciente do código romanesco que manipula, girando em torno de dois heróis tão mais polarizados quanto, no fundo, iguais, um, professor de literatura, o outro, pesquisador de ponta em biologia, postos diante da evidência de que o sexo nos governa, verdade de demonstração algo covarde no fim do século que foi freudiano, e, quando não estão se masturbando, às voltas com todas as supostas grandes questões do noticiário?
Se fosse, a decifração do código genético com que se envolve um dos heróis, o nobelizável, enquanto o outro faz a experiência de que o amor nunca dá certo na França, aconselharia menos alarido a Houllebecq, que dedica o seu livro ao homem, como quem se sente contribuindo para a espécie animal falante. Afinal, a cadeia sem fim do desejo e a suspeita desconcertante de que consistimos numa fórmula, quer dizer, somos falados, não são novidades no reino da boa literatura, que a sua apenas imita.
Elas estão ali desde a época em que se dizia que Adão vinha do barro, o pó da vida, a "partícula elementar", o que acabou pondo Borges cabalista, que dedica sua ficção curta à ironia, no encalço dos "aleph" e dos "golem".
Leda Tenório da Motta é professora de comunicação e semiótica da Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP) e autora de "Lições de Literatura Francesa" (Imago).