

Língua da memória viva
JERUSA PIRES FERREIRA
o livro traz no título um jogo, alusão a uma chave mítica, o judeu errante, síntese de uma experiência cultural. O tema é abordado em perspectiva empática, enfocando uma língua, seus falantes dispersos, na concretude de aventuras e desventuras da condição judaica, que inclui a diáspora, o êxodo, o extermínio.
Por isso, não está ausente do título e da proposta uma certa ironia amarga, mas, ao mesmo tempo, corajosa e construtiva, que coloca no centro da cena o iídiche, esse grande texto cultural. Por um lado, conservando uma poderosa tradição, por outro, aberto para ir aproveitando as possibilidades de criação, em registros adaptadores, que o vão trazendo ao encontro de outras tantas culturas. Teríamos assim a realização do que se chama de "movência", a própria dimensão heteroglóssica da comunicação humana, para pensar com Bakhtin.
Escrever sobre o iídiche, como se se tratasse de um personagem, como o fez Jacó Guinsburg, seguindo percursos e razões que vão do arraigado e "estável" universo da cidadezinha judaica (o "steitel") às muitas encruzilhadas da contradição e da tormenta, das práticas cotidianas ao complexo universo da arte, é trazer muitos fios para toda essa trama e é ser, no mínimo, original. Em todo o percurso, contamos com os registros da oralidade, no território da variação, da deslocação e do movimento. Mover-se, deslocar-se é, desde sempre, ampliar-se, criando poderosas transformações. Nada mais moderno e apropriado do que um enfoque como este.
Em "Storia del Ebreo Errante", Ricardo Galimani procura reconstruir todo um passado judeu em torno da noção de "errância" como uma verdadeira unidade, vendo-se no exílio a condição de existência, diante de sucessivas perseguições e de impasses, guardando-se porém a força e riqueza que emanam das comunidades coesas.
Aliás, no prefácio do belo livro de Greimas, "De Deuses e Homens" (1), escrito originalmente em lituano, para dar conta dos elementos e relações mais profundas desta cultura, trata-se o exílio como a experiência existencial mais intensa do século 20, situando-nos diante de memórias que são capazes de reter e transmitir verdadeiras "mitologias" culturais. No caso do iídiche e da condição judaica, sabe-se que se trata de um longo exílio e do acúmulo de experiências sem limites. Neste século, entre destruição, memória e reconstrução, para além de ser uma língua confinada e cotidiana, assume o iídiche a mobilidade que lhe permite re-signar culturas, assentando em seus fundamentos dinâmicos a garantia de sobrevivência. Note-se que uns consideram o prestígio dessa língua vulgar como uma contraparte ao papel do hebraico, e forte suficientemente como marca de identidade, para enfrentar as línguas majoritárias. Outros tratam de considerar o ídiche como uma espécie de "jargão inferior", contrário à modernização judaica na diáspora. O livro "Aventuras de uma Língua Errante" vem trazer esclarecimentos e intuições, e nos situar como parceiros de percepções sobre o assunto.
Enfrentar uma reflexão sobre o iídiche é também situar-se diante de muitos preconceitos que, por vários motivos, atropelam o interesse pelas línguas ou culturas de forte transmissão oral. Em muitas ocasiões, encontramos o desprezo pelo jargão do gueto e da rua, pelo "jargão híbrido", dialeto corrompido ou como se queira chamar. Aliás, este tipo de desqualificação ocorre, com regularidade, quando tratamos das culturas populares ou culturas em posição assimétrica ao prestígio monopolizador. A razão inversa desse desprezo é a afetividade que faz detonar interesses e depois o render-se à conquista dos grandes escritores que vão criar, apoiados na variedade, emoção e dimensão existencial e humana, todo um espaço de legitimação.
Quanto à permanência do iídiche, hoje, defende Jacó a tese de que uma estrutura moderna responde por isso. Quer dizer que este instrumento linguístico, de grande maleabilidade e capacidade de adaptação, é aglutinador e dinâmico, carregando em si as referências cotidianas, o sagrado e o profano, os detalhes mais minuciosos de uma condição de existir. Eu não diria que sobrevive apenas por isso, mas porque consegue passar por uma escala transmissiva que vem de tempos passados, apontando sempre para a reconstrução intencional e deliberada de uma "tradição". Pode-se também falar da energia de uma memória viva. E assim se firma, não apenas como língua de mulheres e das camadas mais humildes e menos letradas, espécie de jargão cotidiano das comunidades "askenazi", mas cumprindo, como nos diz Guinsburg, com muita propriedade, o papel de esteio do oral/escrito.
Ao tratar do iídiche, para além da condição existencial e emocional que instala uma razão dinâmica e corporal, instaura-se a adesão profunda à condição judaica e suas vicissitudes, à vitalidade de uma comunicação oral, oralizada e eficaz, como toda expressão que se constrói, nos espaços subalternos e não controlados por um poder centralizador.
Mas o que faz Jacó Guinsburg em seu livro que, afinal, é trabalho e dedicação de toda uma vida? Uma abordagem pessoal que une a história de uma cultura a um trajeto concretamente palmilhado. Realiza uma pontuação que se assenta numa poética existencial, seguindo cena e letra do que denomina "os palcos da dispersão".
No primeiro capítulo, trata o iídiche como língua-passaporte, evocando os enfrentamentos, fugas, obstáculos das populações que a levaram pelo mundo. Constrói então uma espécie de narrativa que nos permite seguir, com facilidade, um roteiro que se faz uma espécie de panorama histórico, iniciando os leitores numa aventura. Trata também da periodização desta língua/cultura, num conjunto de informações que traz materiais de vária proveniência. Chama a atenção para a organização de sequências, que nos mostram como séries culturais se organizam em séries históricas, e o interessante é que o autor se permite a perceber com intimidade a "mecânica das relações sociais na arquitetura da língua".
No capítulo "Origens da Literatura Iídiche", nos traz pequenos textos informativos que se ligam a enfoques teóricos. Vai oferecendo ao leitor e ao possível futuro pesquisador um caleidoscópio de temas, apontando para itens de muita importância, como é o caso da transmissão por mulheres. Resgata de "fontes" consagradas uma introdução aos textos medievais, às moralidades e às disputas: do universo profano aos textos sagrados, do escrito ao oral, à textualidade da "agadá" (tradição oral).
Portanto, nada mais oportuno para judeus e não-judeus do que a leitura desse livro, síntese, roteiro, poética, construção que traz uma contiguidade metonímica ao próprio objeto. Na tentativa de reconstrução informativo-afetiva, um dos pontos a ser destacado é o ir e vir, o assentamento de alguns princípios, a avaliação da diversidade regional e da unidade conseguida e um lastro que permite discutir uma língua como um texto de cultura, e como inscrição no futuro.
Nota:
1. Greimas, J. A., "Of Gods and Men", Bloomington, 1992. Cf. prefácio de Dan ben Amos e Alessandro Falessi.