

Jogo aberto
MILTON MEIRA DO NASCIMENTO
A RETÓRICA DE ROUSSEAU E OUTROS ENSAIOS
Bento Prado Jr.
Organização e apresentação: Franklin de Mattos
COSACNAIFY
456 p., R$ 69,00
Em expressões como “não conheço a arte de ser claro para quem não quer ser atento”, Rousseau alertou os leitores de que seus textos deveriam ser lidos com cuidado, com muita atenção para o sentido dos termos empregados. No entanto, a maioria continuou a fazer uma leitura apressada de sua obra e a julgá-la por falta de coerência, de consistência, resultado de uma personalidade doentia, paranóica e assim por diante.
Alguns não hesitaram em “dissipar os equívocos” e se puseram a tarefa de interpretá-la “tal como o autor deveria tê-la concebido”, outros, em “melhorar aquilo que o pensador não conseguiu realizar”. Não é a toa que, na filosofia política, Rousseau é um autor sobre o qual mais se escreve. Foi considerado revolucionário, anti-revolucionário, monarquista, liberal, socialista, comunista, libertário, precursor do nazismo, feminista, conservador, machista e outras coisas mais.
Nos anos 60, na França, a coletânea intitulada “O impensado de Jean-Jacques Rousseau” reuniu vários representantes da corrente estruturalista, dentre os quais Louis Althusser. No artigo “Sobre o Contrato Social”, aponta as lacunas do texto e o esforço do próprio Rousseau em superá-las. Sem solução possível para a sequência de rupturas, o autor do Contrato Social não terá outra escolha a não ser a evasão para a literatura. Althusser reconhece no Contrato Social um objeto teórico sui generis, mas não encontra ali nenhuma possibilidade de aplicação ou correspondência na prática política, precisando, então, de uma saída evasiva para a literatura. Como contraponto ao grupo do “Impensado”, outro, também formado por intelectuais de altíssimo nível, como Victor Goldschmidt, publicou o “Pensado de Rousseau” (“Pensée”, que também pode ser traduzido por Pensamento), numa tentativa de pôr fim à questão e dizer onde estava o verdadeiro Rousseau.
Bento Prado Jr. não se deixou levar pela corrente estruturalista e, no capítulo “Leitura de Rousseau”, que abre este livro, indica o fio condutor de sua leitura das obras do autor da Nova Heloisa. Polemiza com Althusser e mostra que há em Rousseau uma teoria geral da retórica, que domina todos os gêneros literários e os organiza na continuidade de um campo homogêneo. “A própria obra de Rousseau é comandada pelos princípios da retórica que ele propõe, e sua aparente excentricidade - falta de unidade ou de coerência - desaparece se a leitura é feita em torno de um eixo retórico. A Unidade do pensamento de Rousseau pode ser mostrada no próprio movimento de seus escritos, ou seja, segundo a estratégia da persuasão ou segundo a ordem da argumentação”.
Concede alguns pontos a Althusser, ao reconhecer que, como este, a possibilidade de múltiplas leituras da obra de Rousseau não está apenas na ilusão retrospectiva dos que lêem os autores do passado à luz de uma posição teórica ou ideológica assumida no presente, mas na própria obra de Rousseau. São, porém, os movimentos da retórica que desnorteiam os leitores esperançosos de que Rousseau seja este cúmplice de certas posições políticas ou ideológicas assumidas por eles como verdadeiras ou como as melhores.
No ensaio “Rousseau: filosofia política e revolução”, Bento Prado Jr. avança sua investigação para o terreno político com a análise do texto Jean-Jacques Rousseau, de B. Groethuysen. Segundo este, Rousseau não era partidário da revolução, mas sua obra sim e, por isso, ela teria antecipado a Revolução Francesa. Bento Prado Jr. apresenta a questão da revolução em Rousseau de outra maneira. A destruição do poder monárquico não instauraria necessariamente uma nova era de liberdade republicana. Mergulhados numa espécie de estado de natureza no qual impera a desordem e a violência, os homens não encontrariam amparo em nenhuma forma de governo e ,se pudessem sair desse estado, a nova ordem poderia inaugurar outro processo de dominação. A febre revolucionária não necessariamente evitaria a morte do doente. Os revolucionários de 89 e os defensores de Rousseau revolucionário ou criador de uma teoria revolucionária não escaparam da ilusão retrospectiva, armadilha na qual Bento Prado Jr. não caiu.
Se, para Rousseau, a retórica é decisiva para a vida política, em tempos de paz haverá sempre lugar para um jogo aberto num espaço livre de discussão daquilo que se considera mais adequado em determinadas circunstâncias, sem a exigência de nenhum modelo pré-estabelecido. Isto é, não existe o melhor regime em si mesmo. O melhor é o mais adequado a um determinado povo. Além disso, o discurso político não se confunde com pregação. Não adianta vociferar, gritar, usar de todos os recursos da eloqüência para conduzir os povos, de acordo com um princípio tomado como verdadeiro. Os oradores ficarão exaustos, como os pregadores religiosos que transpiram em seus púlpitos, e não obterão praticamente nenhum sucesso.
A ação política terá, portanto, resultados imprevisíveis, que serão sustentados pelo consentimento daqueles que se decidem conduzir de uma determinada maneira, pelo tempo que considerarem necessário. Tudo gira em torno da política, porque ela é o lugar da persuasão, cujo elemento central é qualquer cidadão livre, esteja onde estiver. Segundo o autor das Cartas escritas da montanha, se houver liberdade, e se o povo for soberano, tanto faz viver numa monarquia ou numa democracia.
Podemos agora entender um pouco melhor o Jean-Jacques escritor e a resposta à pergunta por que escrever. Ele escreve porque é cidadão, porque faz parte do soberano, sua fala sobre o que deve ser feito, isto é, sua ação política, só é possível porque se encontra num lugar privilegiado, que lhe permite juntar-se a outros discursos com os mesmos propósitos.
A originalidade da interpretação de Bento Prado Jr. é, para nós, um legado que não deixa nada a dever aos melhores intérpretes da obra do autor do Discurso sobre a origem da desigualdade.