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Davi Arrigucci Jr. - 7 - Outubro de 1995
Ismael e Murilo: entre amigos
Foto do(a) autor(a) Davi Arrigucci Jr.

Ismael e Murilo: entre amigos

 

DAVID ARRIGUCCI JR.

DAVI ARRIGUCCI JR.

Recordações de Ismael Nery
Murilo Mendes
Edusp, 152 págs.
R$ 15,00

Este livro singular é o depoimento sobre uma rara e fervorosa amizade entre dois artistas (1). O clima de amorosa exaltação que se cria desde as primeiras linhas poderia parecer esquisito, não se tratasse de Murilo Mendes escrevendo sobre Ismael Nery. Entre eles, o insólito vira regra. E Murilo talvez pudesse justificar-se com as simples palavras de Montaigne diante do inexplicável numa grande amizade, como a que o ligou a La Boétie: porque era ele; porque era eu (2).
Seria um equívoco pensar que o profundo vínculo que uniu esses dois seres extraordinários -um grande poeta e a promessa de um grande pintor, quebrada pela morte prematura- se tenha reduzido, nos 13 anos que durou, de 1921 a 1934, apenas à esfera das paixões ou dos afetos individuais. O testemunho que nos legou o poeta vai muito além da mera apologia do amigo, cuja personalidade ímpar parecia dotada de talento incomum em múltiplos campos: a pintura, o desenho, a arquitetura, a poesia, a dança, a filosofia, a teologia. Na verdade vale como documento do poder transformador da amizade, não só na formação de dois jovens artistas, mas sobretudo como instrumento poderoso de humanização no sentido mais amplo. A amizade como um sentimento capaz de ampliar as zonas da experiência e do saber, de incentivar o sonho e a imaginação e, ao mesmo tempo, de animar o desejo de realização pelo trabalho construtivo comum.
Assim, além de traçar o retrato memorável de um homem de tantos dons naturais, que sabia passar da mais cinzenta teoria à manifestação mais pura e ardente do simples desejo de viver, que não quis ser apenas pintor, ou poeta, ou filósofo, o livro permite avaliar a força construtiva da amizade, do ponto de vista social -o auge de perfeição da vida em sociedade, na visão de Montaigne. Por fim, nos abre, com generosidade, uma janela para a alma do autor, que é também a de um homem de grande nobreza espiritual.
É este decerto o principal documento que nos ficou sobre o modo de ser de Ismael Nery, apesar da ênfase, por vezes excessiva, nos traços de realce do retratado. A verdade é que ele aí está de corpo inteiro, em vibrante evocação: desde seu tipo físico até sua impressionante cara na morte; desde seu caráter e inclinações momentâneas, no dia-a-dia, até o fundo sem fundo de sua complexa espiritualidade.
Mas, esta breve história de uma amizade acaba sendo também um documento inestimável sobre Murilo Mendes, sobre alguns aspectos decisivos de sua formação, intimamente ligada à trajetória do companheiro de todas as horas. Foi Ismael que lhe revelou a dimensão religiosa de seu próprio espírito, ao mesmo tempo que o marcou com a paixão pelo conhecimento, com seus olhos de verruma", em permanente estado de pesquisa". É que, às perenes inquietações com o destino do homem e sua vocação para a transcendência", juntava o minucioso reconhecimento do mundo, estudando com a maior devoção a natureza e os fenômenos da existência, como se fosse um catalisador de grandes questões espirituais, mas apegado à terra dos homens, repensando altos problemas no chão do cotidiano, em que os compartilhava fraternalmente com o amigo.
Com ele, Murilo teria aprendido a ver, e por mais que aqueça suas palavras o fervor do entusiasmo, não se pode duvidar da profundidade da influência que essa afinidade eletiva terá exercido sobre o olhar do poeta. Não é preciso crer com Murilo que Ismael fosse um iluminado pelo Espírito Santo", para se reconhecer e tentar compreender a importância desse encontro e a profundidade da identificação. O poeta muda, de fato, a partir dele, e não é à toa que começa a perceber, como diz a certa altura, as afinidades entre o mundo físico e o moral, a interpenetração e fusão das formas, as diferenças entre forma e fôrma". Partilhavam perplexidades e o mesmo estranhamento diante do mundo. E assim: As coisas passavam a apresentar aspectos dantes apenas pressentidos". Entende-se como Ismael contribui para despertar ou estimular o visionário em Murilo, tornando-se essa amizade uma alavanca de mudança espiritual.
Realmente, estas Recordações" permitem seguir os passos de uma amizade no quadro histórico dos anos 20 e princípio da década de 30 no Brasil, como um índice importante da renovação de mentalidades que então se processava entre nós. Há uma reconstrução íntima do contexto externo, da chegada da modernidade, do movimento modernista e das contradições acirradas que vêm com o avanço do capitalismo e o desejo de atualização de certos setores da burguesia brasileira, posta diante dos tempos modernos, com os começos da industrialização e a emergência do movimento operário. É o momento histórico em que atuam poderosas tensões ideológicas, entre cosmopolitismo e nacionalismo, entre esquerda e direita, entre comunistas e fascistas (que eram antes verde-amarelamente integralistas). É o momento em que brotam as sementes de renovação católica a que iriam aderir intelectuais até então quase nunca religiosos, como foi o caso exemplar de Alceu Amoroso Lima (Tristão de Ataíde), cuja conversão se dá pela amizade com Jackson de Figueiredo, fundador da revista A Ordem" (1921) e do Centro D. Vital (1922), demonstrando que a renovação cristã nem sempre se fazia pelo lado libertário de Ismael Nery. É quando vem à tona da consciência crítica a realidade brasileira, encarada como problema, ao mesmo tempo que os espíritos se deixam siderar pelas novas correntes de pensamento vindas de fora e pelas vanguardas artísticas internacionais, como se dá com os intelectuais ligados ao modernismo, empenhados no grande movimento de transformação da inteligência brasileira, que tem à frente a lucidez crítica de Mário de Andrade.
Quando Murilo descobre Ismael -um belo dia vê um moço elegante e bem vestido que entrara para desenhista da seção de arquitetura e topografia na Diretoria do Patrimônio Nacional, onde trabalhava em 1921- o futuro amigo acabava de chegar da Europa com a cabeça cheia de exposições, museus e novas idéias sobre o conceito de artista. É interessante acompanhar o fascínio da descoberta do novo que se revela para Murilo desde esse primeiro encontro e parece itinerante, que aí começa e, de certo modo, não cessa nem sequer com a morte de Ismael, aos 33 anos, em 1934, pois seus ecos continuam a repercurtir nos passos e na obra de Murilo.
Esse diálogo não é de forma alguma um fato isolado naquele momento, contra o pano de fundo do movimento modernista que valorizou muito a vida de relação e o debate intelectual, mas é, sem dúvida, um diálogo cercado por uma atmosfera muito peculiar. É que parece vincado pela tensão espiritual e também pelo entrecruzamento fantasioso de emoções e desejos, de modo que no espaço em que se realiza se cria um clima diferente, estranho, no qual paira de vez em quando a figura velada e enigmática da poeta Adalgisa Nery, mulher de Ismael. E esse clima volta por vezes ao texto destas memórias. Parece natural que, ao evocar-se o pintor, venham também à lembrança imagens de seus quadros, onde a imaginação reina de mãos dadas com uma sexualidade bastante livre, exasperada na exaltação carnal dos nus e dos órgãos sexuais, na graciosa plástica das figuras femininas, ambígua na confusão dos sexos e na perseguição de andróginos esvoaçantes, mas propícia aos abraços concretos, aos encontros insólitos e aos enlaces abstratos do pensamento, a uma busca intelectual constante pela aproximação e identificação das mesmas figuras recorrentes. Nos quadros ou nos debates intelectuais, a meditação filosófica ou religiosa não se apartava da sexualidade, nesse católico ímpar.
Até onde se pode avaliar da perspectiva de hoje, a troca de idéias do grupo de Ismael se deu, assim, num ambiente bem diverso de outros da mesma época, como foram, segundo se sabe, o da casa de Mário de Andrade, na rua Lopes Chaves, em São Paulo, ou o da casa de Aníbal Machado, um dos centros importantes da vida literária carioca desse tempo.
O fato é que uma roda ampla de outros amigos no Rio participa também da conversa, e parte da preocupação do autor destas Recordações" consiste em ressaltar as relações de Ismael com o grupo, reunido muitas vezes na pequena casa de Botafogo: Jorge Burlamaqui, Antonio Costa, Mário Pedrosa, Antônio Bento, Guignard e o próprio Murilo eram os mais fiéis. Mas a roda era muito maior e instável, pois a mesma singularidade do dono da casa que atraía as pessoas mais diversas -médicos, poetas, homens de teatro, amadores de filosofia e teologia-, pela capacidade de interlocução agradável nos terrenos mais variados, também as afastava pela tensão constante de espírito que exigia.
Um dos pontos principais da conversa entre os amigos girava em torno da filosofia de Ismael, batizada pelo próprio Murilo como essencialismo", pela abstração do tempo e do espaço que propunha como método de investigação filosófica das coisas essenciais. Consideravam-no uma preparação para o catolicismo, em cuja transformação se achava profundamente empenhado Ismael. Até hoje é difícil saber com precisão em que consistia esse sistema" filosófico tão falado, apesar das tentativas de resumo e dos depoimentos que há sobre ele. Mais relevantes parecem ser as repercussões ou as franjas dessa questão filosófica para a vida prática e espiritual dos dois amigos, sobretudo para a visão poética muriliana (e não apenas para os poemas essencialistas de Ismael ou de Murilo), qualquer que seja a importância em si mesma do essencialismo, quem sabe, para seu próprio bem, levado por vagas nuvens passageiras ou resumido e secretamente sepultado nas páginas da revista A Ordem", de onde nunca ressuscitou.
Murilo vê o pensamento do amigo, antes de mais nada, como uma filosofia para ser vivida, voltada para a existência concreta de cada dia, formando corpo com um catolicismo do contra, alimentado de cristianismo primitivo, impelido pela revolta diante do mundo dado, seus desencontros e injustiças. Confiante na divindade de Cristo e na atualidade viva de seus ensinamentos, Ismael exaltava também a verdade da encarnação e da humanidade de Cristo, tomando-o como modelo supremo de filósofos, poetas e artistas. Em consequência, se regia por fundo sentimento humanitário, que o levava a aderir religiosamente aos problemas do cotidiano, buscando portas para todo desejo de libertação.
Atraído pela feição libertária dessa religião renovada, que não via incompatibilidade alguma entre sexo e espírito religioso, a ética anarquista de Murilo, seu inconformismo, seu espírito de revolta desde cedo muito vivo, acabou por casar-se à fé inabalável do amigo, que ao mesmo tempo conduzia a todos os caminhos aparentemente desimpedidos, abertos pelo momento histórico: aspectos que lhe pareciam justos no comunismo e, sobretudo, o surrealismo -Ismael vai a Paris em 1927 e entra em contato com Marc Chagall-, considerado por ambos como o evangelho da nova era, a ponte da libertação".
Essa mistura inusitada de cristianismo com surrealismo, movimento que sabidamente se opunha ao espírito cristão com a mesma força com que atacava a razão instrumental do espírito burguês, talvez tenha encontrado terreno propício na pecularidade do catolicismo de que se nutriam aqueles amigos inseparáveis e inquietos. E vicejou com a força do desejo, a que sempre foram tão fiéis os surrealistas.
A idéia do cristão como um ser estranho no mundo parece afim à concepção poética de modo geral e, em particular, à surrealista. Nela pode muito bem radicar-se a percepção das discórdias e contradições que ferem a sensibilidade do poeta, assim como dela pode brotar a busca da harmonia do universo, mediante a concordância do discorde, a reunião do disperso, a analogia, enfim, fonte perene da imagem poética, que está no centro da visão surrealista, como aspiração à síntese da totalidade ou a uma realidade digna do nome.
Por outro lado, o sentimento cristão de que Murilo se embebeu através de Ismael é também um modo de lidar concretamente com o desconcerto do mundo, com o atrito das idéias e das coisas, e por isso, embora marcado pela busca da transcendência, não perde de vista o chão histórico e o senso crítico. Por isso ainda, se enlaça facilmente a uma inspiração poética estimulada pela visão do contraditório e a uma concepção do poema como agente da conciliação de contrários (3). Assim, tampouco se afasta de uma poesia que a todo momento converte em concreto o abstrato, ao mesmo tempo que é capaz de permanecer atenta a todo apelo do transcendente ou de banhar-se em clima visionário, muito próximo sempre da atmosfera insólita dos encontros surrealistas. Uma poderosa mescla dessa forma se processa, e parece impossível compreender-se adequadamente o poeta (ou o pintor) sem levá-la em conta.
As Recordações" contêm, portanto, o mapa de um percurso que levou à fusão doutrinária, à descoberta espiritual e à profunda identificação pessoal, predispondo os dois amigos para os encontros mais inesperados. E pode valer como um precioso elemento de auxílio no reconhecimento crítico do pintor Ismael e do poeta Murilo, pois a ambos ilumina separada e mutuamente, enquanto homens e artistas.
Embora o livro contenha elementos próximos de um gênero ficcional como a confissão, a prosa não tem aqui a força literária de outros momentos de Murilo: A Idade do Serrote" ou Poliedro", por exemplo, feitos com garra poética, naquele estilo condensado, de curtos-circuitos, elipses e explosões imagéticas irradiantes. Não consegue tampouco a percuciência e a límpida elegância de escrita dos textos críticos ou dos retratos-relâmpago", que se medem pela precisão. Apesar da tensão espiritual que demonstram em largas passagens, estas páginas carecem do brio e da agudeza das demais obras em prosa; falta-lhes a chispa do desconcerto muriliano. Mas não chegam a desapontar em sua agradável fluência; apenas a soltura jornalística torna-as transparentes, para realce do assunto. Murilo talvez as retrabalhasse, se a elas tivesse podido voltar.
Mais importante aqui do que a qualidade da prosa, é o teor do documento, que adquire valor literário, por assim dizer obliquamente. É que uma literatura não vive sem textos como este, pois depende deles até para que se possa compreender o que em determinado momento se concebe por literatura, como foi o caso no período modernista. O livro ganha força à medida que entendemos o relevo que adquiriram então as relações entre as pessoas que participavam do cenário cultural, a ponto de constituírem não apenas uma vida literária densa e enriquecedora para todos, mas matéria mesma de literatura e fator de incentivo para a produção das grandes obras.
O diálogo, o debate intelectual, a ampliação da experiência e do conhecimento, a discussão crítica, o intercâmbio de idéias, a expansão da vida do espírito, tudo aponta para a maior espessura e complexidade do meio cultural brasileiro, de que esse livro é resultado e indício. É nesse quadro de intensas e intrincadas trocas entre o plano literário e o da experiência pessoal, que se transformam o próprio conceito e as convenções da literatura, sofrendo o espaço literário uma considerável expansão, pelas novas relações do recesso da intimidade com a esfera pública do escritor, ganhando-se um território novo, antes não organizado artisticamente, nem do ponto vista temático nem do ponto de vista técnico. Há uma nítida ampliação da esfera da experiência literária, que deixa o terreno seguro dos grandes temas universais para adentrar-se na privacidade da vida de relação particular, com que passa a alimentar as novas obras, inclusive pela descoberta de novas técnicas de expressão, profunda e organicamente articuladas ao processo de descobrimento dos novos temas.
A literatura tende a se aproximar da matéria bruta do mundo vivido, da linguagem oral, da experiência do cotidiano. É nesse contexto que se desenvolvem o verso livre, a montagem, o monólogo e o discurso indireto livre na ficção, a desintegração do princípio de causalidade do enredo tradicional, as posições mais ambíguas do narrador, minadas pela dissolução no relativismo da subjetividade. A esse novo quadro, configurado pela entrada das formas do mundo moderno, pertence também o realce dos documentos pessoais -cartas, memórias, depoimentos, literatura de testemunho-, nos quais transparecem as mudanças da vida de relação e da experiência, a que se prendem muitas das novas emoções e convenções da literatura. A esse quadro, pertencem assim também as grandes amizades, como a de Murilo Mendes e Ismael Nery.
Peculiaridades à parte, ela lembra outras, como a que ligou, com o mesmo fervor, mais crítica e com admirável senso de igualdade e de liberdade, Mário de Andrade e Manuel Bandeira. Do fundo desses seres idos e vividos, chega até nós um legado de experiência e moralidade. E dão idéia do que poderia ser a vida civilizada no Brasil, se anuladas as desigualdades e criada uma verdadeira fraternidade como essa, entre amigos. Talvez por isso, caladas há tanto tempo, essas grandes amizades renasçam pela força da memória transmitida em textos como este: daí ainda nos falam, como toda a vivacidade, ao espírito.

NOTAS
1. Originalmente publicado, sob a forma de uma série de artigos, em O Estado de S. Paulo" e em Letras e Artes", em 1948
2. Cf. Montaigne, Michel de, De l'Amitié", em seus Essais". Ed. de A. Thibaudet, Paris, Nouvelle Revue Française (1939), cap. 28, pág. 197
3. Veja-se, nesse sentido, o notável artigo A Poesia e o Nosso Tempo", que Murilo publicou no Suplemento Dominical" do Jornal do Brasil", em 25/7/1959, reproduzido em: Candido, A. e Castello, J.A., Presença da Literatura Brasileira", 3ª ed. rev., São Paulo, Difusão Européia do Livro, 1968, vol. 3, págs. 179-184

DAVI ARRIGUCCI JR. é professor de teoria literária na USP e autor, entre outros, de O Escorpião Encalacrado". O texto acima, que o Jornal de Resenhas publica com exclusividade, é o prefácio do livro a ser lançado pela Edusp 

Davi Arrigucci Jr. É crítico, ensaísta e professor de literatura da USP.
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