

Ir aonde o povo está
IRENE CARDOSO
Um estudo sobre o passado recente da nossa sociedade, incitado por uma reflexão sobre o presente e marcado por uma posição interrogativa a respeito da reemergência de problemas pulsantes nos anos 60 e início dos 70: eis um eixo possível de leitura do livro de Marcelo Ridenti, autor de outros trabalhos relevantes sobre o período.
"Em Busca do Povo Brasileiro" é o expressivo título, mas também a questão que articula os diversos capítulos, suscitando indagações sobre seu sentido e pertinência, tanto no passado quanto hoje.
Tomando como objeto os "meios artísticos e intelectuais de esquerda" das classes médias e definindo, de modo amplo, "esquerda" como "forças políticas críticas da ordem capitalista estabelecida, identificadas com as lutas dos trabalhadores pela transformação social", o autor trabalha o conceito de "romantismo revolucionário" como "fio condutor" da análise, quer para acompanhar o "movimento contraditório" das diversificadas práticas políticas e culturais, quer para apreender o imaginário aí gestado. O tema do livro não é propriamente o "povo", mas os "meios artísticos e intelectuais que se queriam populares", que estariam, se pode dizer, em busca do povo brasileiro.
O conceito de "romantismo revolucionário" é construído a partir de Michael Löwy, Sayre e Elias Saliba, cujas posições teóricas servem de base àquela construção. O diálogo com outras análises permite ao autor, ainda, explicitar o conceito articulador de sua interpretação, ao se diferenciar dessas posturas, que considera críticas de "quaisquer perspectivas românticas", pois "abririam campo a práticas totalitárias, opressoras das individualidades". De modo diverso, Marcelo Ridenti, sem desconsiderar o "potencial autoritário da visão de mundo romântica", critica a unidirecionalidade dessas perspectivas teóricas que poderiam obscurecer o seu potencial libertário.
Norteada pelo romantismo revolucionário que, segundo o autor, não deve ser considerado como uma "camisa de força na diversidade dos problemas estudados", a obra invoca a "atmosfera cultural e política do período, impregnada pelas idéias de povo, libertação e identidade nacional". Embora tivesse havido "grupos mais românticos do que outros", aquelas idéias, já vigentes antes na cultura brasileira e apropriadas a partir dos anos 50 pela esquerda, pelos comunistas e trabalhistas, constituíam o clima criado e compartilhado por todos esses grupos.
Cada um dos capítulos aborda a especificidade das práticas políticas e culturais ligadas a grupos de esquerda e a manifestações artísticas. Embora o autor indique que os capítulos podem ser lidos na ordem que mais convier ao leitor, há, no entanto, um certo percurso construído que pode ser considerado a estrutura do livro, constituído primeiramente por um momento em que eram centrais as questões da "identidade nacional e política do povo brasileiro", da "busca de suas raízes", da "ruptura com o subdesenvolvimento", seguido por outro de uma "diluição" delas, após o término da ditadura. Nos anos 90, com a "mundialização da economia e da cultura", teria havido o ressurgimento de "velhas questões mal resolvidas sobre a identidade nacional do povo brasileiro", o que justificaria, no presente, o estudo sobre o passado recente.
O romantismo revolucionário florescente nos anos 60 e início dos 70 no teatro, no cinema, na literatura, nas artes plásticas, na música e em movimentos políticos e culturais de esquerda esteve referido a utopias anticapitalistas, progressistas, que, embora buscassem no passado as "raízes populares nacionais", tinham como meta uma "revolução nacional modernizante" projetada num futuro a ser construído.
Atento às especificidades das práticas políticas e culturais, mas retomando sempre seu fio condutor, o autor desenvolve os capítulos identificando a presença de traços do romantismo revolucionário: no setor cultural do Partido Comunista Brasileiro; nas várias organizações políticas de esquerda, de maneiras diferenciadas e de modo menos ou mais intenso; na obra de Chico Buarque, em "que diferentes romantismos se fundem"; no tropicalismo, interpretado não como uma ruptura radical com a cultura política do período, mas como "um de seus frutos diferenciados".
No último capítulo, o autor aborda o "refluxo e alguns desdobramentos da herança do romantismo revolucionário" a partir dos anos 70. No final dos anos 80 e na década de 90 ressurgem as "velhas" questões do povo, das raízes populares, da identidade nacional, do Estado-nação, vistas como "reação ao ímpeto transnacionalizante neoliberal", configurando uma retomada de traços de romantismo nas práticas políticas do Partido dos Trabalhadores, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, em alguns intelectuais e em artistas que se propõem "ir aonde o povo está".
O autor, ao final, deixa em aberto a questão do ressurgimento desses "velhos problemas" na atualidade, indagando se seria a expressão de "mera ideologia mistificadora" ou sintoma "de um problema de fundo" sobre a identidade nacional do povo brasileiro, "não-resolvida historicamente". Considera problemático "tanto ignorar as utopias do passado recente, como se mirar eternamente nelas (mesmo supondo não fazê-lo), sem propor novas alternativas".
Ao deixar em aberto questões que seriam, hoje, as do presente histórico da sociedade brasileira, apontando as dificuldades de uma "visão do caminho" e indagando, ao mesmo tempo, se ele existiria, o autor, em virtude de sua posição interrogativa, leva o leitor a outras perguntas possíveis. Dentre elas, talvez a que mais incomode é a questão das identidades. "Em Busca do Povo Brasileiro" parece deixar de enfatizar criticamente a dimensão propriamente imaginária das identidades de povo, de nação, de esquerda, de revolução, de militante e de artista engajado. Dimensão fortemente presente no período, foi se dilacerando quando brutalmente atingida a partir de 64. Referência imaginária de unidade, de completude nas experiências diversas, o seu dilaceramento implicou a ruptura daquelas identidades, abrindo um caminho penoso e um espaço vazio para a "esquerda", que não podem ser agora esquecidos.
Em Busca do Povo Brasileiro
Marcelo Ridenti
Record (Tel. 0/xx/21/585-2000)
462 págs., R$ 42,00
Irene Cardoso é professora de sociologia na USP.