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Jaime de Almeida - 100 - Outubro de 2003
Invenção de tradições
Foto do(a) autor(a) Jaime de Almeida

Invenção de tradições

JAIME DE ALMEIDA

Este trabalho, realizado quando Serge Gruzinski participava do seminário de história das mentalidades do Instituto Nacional de Antropologia e História, convida a reavaliar distâncias usualmente apontadas entre a história das mentalidades, a nova história cultural e os estudos culturais.
O autor procurou nos códices anteriores à conquista as convenções associadas ao tempo, espaço e movimento para seguir os passos daqueles índios que precisaram compreender e agir sobre o novo mundo a ser criado entre os escombros da conquista. Focaliza inicialmente os pintores índios, cuja competência foi reconhecida pelos missionários e pelos demais índios em suas demandas às autoridades coloniais. Num curto espaço de tempo, esses intermediários culturais reelaboraram a representação indígena do passado.
Entre 1578 e 1585, as autoridades indígenas recebem um longo questionário elaborado pelo cosmógrafo do imperador, produzindo 168 "Relaciones Geográficas de Nueva España", que recobrem 415 "pueblos". É o testemunho da última geração nascida antes de 1520, abalada pela guerra e pelas epidemias, pela amputação de sua rede de parentesco, perda de autoridade, ascensão social de subalternos. Essa memória cíclica e aristocrática idealiza o passado imemorial e a experiência recente das linhagens mais aculturadas, numa apropriação erudita das coordenadas ocidentais da realidade que revela a persistência indiscutível do imaginário pré-hispânico nas representações da "paisagem" envolvente.
Os "Títulos Primordiales" são uma nova releitura do passado, três ou quatro gerações mais tarde, em meio às epidemias (logo os índios serão apenas 730 mil, ou 3% da população de 1520). Em contrapartida, o clero católico se expande vertiginosamente. O novo relato, impregnado de oralidade, enfatiza a adesão de cada vilarejo ao cristianismo. A Conquista é lembrada como um pacto ancestral entre os anciãos e o imperador ou seu representante e sobretudo com o santo padroeiro. A comunidade é o sujeito ativo, espelhando-se na experiência já internalizada das festas barrocas. São documentos ingênuos, comparados àqueles das famílias aristocráticas, empenhados na defesa de seus direitos e privilégios ameaçados.
Ao contrário de homogeneizar, a apropriação da escrita pelos índios redistribuídos no espaço colonial cristaliza novas identidades numa impressionante circulação de empréstimos e inovações: "invenção de tradições" que, em certos casos, ainda persistem. Os escribas locais reorganizam o passado em razão do futuro: "Dou-vos a forma para poderdes saber falar e responder na defesa de vossas terras".
Mas tais formas de expressão escrita alcançam apenas a memória dos índios letrados. Para chegar até a massa indígena heterogênea e cambiante, Gruzinski recorre às investigações dos padres Ruiz de Alarcón (1629) e Jacinto de la Serna (1656), tentando extirpar a "idolatria" (a Inquisição não se aplicava aos índios). O conceito de idolatria dispensa cotejar "religiões" e evita especulações sobre "visões de mundo", "mentalidades", sistemas intelectuais ou estruturas simbólicas. Os gestos, rituais e invocações registrados por Alarcón e La Serna permitem perguntar pelas práticas, as expressões materiais e afetivas intrínsecas à percepção indígena do real, rede densa e coerente de práticas e de saberes em que se inscreve e flui a totalidade do cotidiano.
A cristianização do espaço e do tempo em torno da igreja e do cemitério é evidente, mas certas práticas autóctones, como a bebedeira coletiva, persistem nos espaços públicos. Já o espaço doméstico, as atividades tradicionais de trabalho, os cuidados do corpo, os afetos e as doenças imergem na "idolatria", que, lidando com estados afetivos e reações psicológicas, orienta a estruturação emocional do vivido. Fenômeno da afetividade, e não da mitologia, a idolatria fixa modos de sentir e de reagir. Os novos intermediários culturais são "mestres itinerantes de idolatria" analfabetos que recolhem saberes e práticas abandonados pela nobreza: vendedores ambulantes, parteiras, curandeiros. Esses conjuradores redirecionam o dinamismo vital do mundo indígena, prendem na sua rede imagens cristãs para religar as forças, os seres e as coisas, costurando enormes vazios deixados pelo esquecimento.
Desde o início, aparições e milagres haviam escapado ao controle clerical. O culto mariano (Guadalupe) floresceu entre os índios; o sagrado e o sobrenatural dos brancos enraizaram-se na paisagem, rodeando os centros urbanos onde se encontram índios, brancos, negros, mestiços. Os jesuítas estimularam as multidões indígenas ao êxtase, estandardizando os modos de percepção da imagística cristã, fundamentalmente dualista. E, em meados do século 17, entre os 400 mil brancos, negros e mestiços (quase metade da população total), circulam práticas mágicas coloniais, amálgama de tradições ibéricas, mediterrâneas, africanas...
A microanálise de casos relatados por Alarcón e La Serna mostra a plasticidade da idolatria indígena, capaz de capturar feixes inteiros do catolicismo e da magia. A embriaguez coletiva e o consumo de alucinógenos, liberados dos controles ancestrais, expandem-se entre índios que, em seus delírios, dialogam com imagens católicas: o sobrenatural cristão se familiariza e se integra ao cotidiano indígena. A partir de 1650, quando as comunidades começam a crescer (dobrando em 50 anos), um cristianismo indígena original e criativo começa a deslocar a idolatria, sem qualquer impulso clerical.
Na década de 1740, os índios já são 1,5 milhão (serão 2,5 milhões em 1810), enquanto o clero deixa de crescer e se distancia. Gruzinski busca nos testamentos as novas representações do passado e encontra as redes tecidas a partir do culto às imagens pelas confrarias e irmandades, o teatro, as capelanias, o controle das igrejas: o catolicismo indígena legitima agora a posse imemorial dos santos e da terra.
Este livro é leitura a ser feita na Funai ou numa ONG indigenista, trocando a cada parágrafo olhares com antropólogos, burocratas, algum índio de terno e gravata, índios urbanos comerciando artesanato, índios de primeira, segunda ou enésima viagem entre a aldeia e a cidade...


Jaime de Almeida é professor de história na Universidade de Brasília.

A Colonização do Imaginário. Sociedades Indígenas e Ocidentalização no México Espanhol, Séculos 16-18
Serge Gruzinski
Tradução: Beatriz Perrone-Moisés
Companhia das Letras (Tel. 0/xx/ 11/3707-3500)
488 págs., R$ 51,00

Jaime de Almeida é professor de história da UnB.
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