

Integração desintegradora
RICARDO ANTUNES
Qual é o espaço do Brasil na nova divisão internacional do trabalho e do capital, comandada pela tríade EUA, Alemanha e Japão, sob a batuta dos primeiros?
Para José Luís Fiori o Brasil está no espaço, servil e descontrolado. Mas não está sem rumo, pois a alternativa em curso é resultado de uma escolha política baseada no ideário e na pragmática hoje dominantes, que segue em última instância aquilo que Margareth Thatcher costumava assim sintetizar: "There is no alternative!".
"Brasil no Espaço" é um libelo corajoso e ousado contra essa forma resignada de olhar o mundo atual e suas alternativas unívocas. Dando continuidade ao livro anterior, "Os Moedeiros Falsos" (Vozes), Fiori dá concretude a uma política que se molda e conforma ao chamado Consenso de Washington. Contra a maré dominante no espaço das letras acadêmicas, seu objetivo é "perturbar os espíritos e contribuir para a recepção de novas idéias".
Contra o economicismo (presente na ortodoxia liberal e em variantes do marxismo vulgar, onde tudo se resume às leis férreas da "economia") e o politicismo (que reduz o entendimento da política ao universo do institucional), Fiori faz um efetivo exercício crítico de economia política, buscando suas complexas relações com a "anatomia da sociedade civil".
Tudo isso concede a esse livro um sabor especial: ousado, mescla notas conjunturais e indicações analíticas de "longa duração", herdeiro que é das sutilezas de Braudel e Polanyi e dos achados magistrais de Marx. Leitor voraz da literatura dos nossos dias, Fiori navega com autonomia e vitalidade nesse universo. Na "crítica da economia política" do Brasil, espaço atualmente limitado a alguns núcleos (dado o avanço dos "Chicago boys" e seus professores-banqueiros), seus ensaios talvez encontrem um símile nos textos instigantes de Francisco de Oliveira, que também faz, como poucos, crítica da economia (e) política.
Crise global
Os temas de "Brasil no Espaço" são diversos: a crise econômica, a chamada nova ordem global, o papel do Estado, a "nova economia", o sentido estruturante e central do trabalho etc. O eixo temático, presente na maioria dos textos, artigos jornalísticos e entrevistas que compõem o livro, é dado pela busca dos elementos constitutivos da crise estrutural global do sistema do capital, na fase de sua financeirização.
Crises recorrentes, com epicentros vários, mas que encontram sua origem no "fenômeno da sobrevalorização patrimonial que vem se acumulando nesses mercados intercomunicados, movidos, numa ponta, pela instabilidade do "sistema de câmbio flexível" e, na outra, pelos derivativos e "hedges" que se acumulam a partir da necessidade de "securitizar" as operações privadas, dada a instabilidade desse mesmo sistema".
Num cenário marcado, desde o fim do padrão dólar, pela desregulamentação das finanças globais, as crises são mutantes quanto à dimensão espacial, mas recorrentes no que concerne a seus elementos causais. Isso permite a Fiori dizer que essas crises vieram "para ficar e vão se repetir de forma ainda mais frequente, porque já se transformaram em componente essencial da dinâmica da globalização financeira, sinônimo de uma quase completa "dolarização" da economia mundial, uma vez que 80% dos contratos no mundo dos negócios globais hoje são designados em dólar".
É a reiteração do "imperial system" norte-americano. As relações entre esse império e as outras partes da tríade são desenvolvidas no ensaio "Lições que vêm da Ásia". Recusando sempre a variante economicista, Fiori conclui alertando para o último paradoxo do século 20: a primeira das utopias dos modernos (a fisiocracia) está alcançando o seu momento totalitário com o neoliberalismo. A razão política do capital contribuiu para a efetivação das regras naturais do mercado.
Há outro eixo que perpassa o livro, a forma particular como essa crise estrutural afeta e atinge a América Latina. Análise extremamente atual, tendo em vista a mais recente crise argentina. Fiori mostra como essas políticas vêm devastando econômica e socialmente os povos da América Latina. Enquanto espaço de atuação do capital financeiro internacional, resta para a América Latina implementar "reformas", alterar sua geografia econômica, que está sendo "redesenhada, fazendo surgir aos poucos um novo mapa, onde algumas áreas isoladas aparecem cercadas por enormes zonas de estagnação econômica e desintegração social".
Fiori acrescenta: "Argentina, México e Brasil estão, de fato, se propondo a deixar a condição de "mercados emergentes", estimulados pelas propostas norte-americanas do Nafta e da Alca. A nova utopia das elites liberais e internacionalizantes passou a ser a de uma integração mais estreita e direta com a economia norte-americana, como forma de garantir inserção mais vantajosa no novo regime de acumulação, que assegure o fluxo constante de capitais indispensáveis à sustentação de sua política econômica interna".
Enquanto a média de crescimento no continente latino-americano foi de 5,5%, nas três décadas anteriores, "para o decênio liberal deve ficar em menos de 3%". Talvez pudéssemos acrescentar que se trata de uma "integração desintegradora". A recente crise argentina mostrou o servilismo e desastre dessa política. Os movimentos sociais e políticos, impulsionados pela forças do mundo do trabalho e dos desempregados têm, entretanto, se contraposto a isso de forma cada vez mais contundente. Em toda a América Latina, aliás.
Quando aborda o Brasil a pena de Fiori se torna ainda mais afiada: "Ao olhar com a maior objetividade possível o desempenho do governo Cardoso, não há como não concluir que se trata do governo mais antinacional da nossa história republicana e do mais antipopular da nossa história pós-Revolução de 30. Mais do que o governo Dutra". Para quem sonha e se espelha em Juscelino Kubitschek, convenhamos, não se trata de uma boa performance.
E quanto ao PSDB, arremata: "O partido nasceu, como se sabe, da união de um grupo de políticos saídos do PMDB com um pequeno grupo de tecnocratas e professores. O que chama a atenção hoje é a rapidez com que foi perdendo força e a forma como foi se decompondo". Hoje, dois grupos mantêm o PSDB: os "neo-sociais" e os "professores-banqueiros".
Os primeiros "dedicam-se a elaborar métodos cada vez mais rigorosos de entrega de sanduíches para miseráveis e famintos em estado puro, perfeitamente individualizados e registrados nos anuários do Banco Mundial, ou ocupam seu tempo escrevendo planos estratégicos, programas eleitorais, rigorosamente irrelevantes e inúteis. Os que mandam de fato e cada vez mais nesse governo são os professores-banqueiros, e todos os sinais externos são de que o presidente devota crescente desprezo intelectual pelos seus amigos "neo-sociais" e mostra subserviência cada vez maior em relação aos "neobanqueiros". E com razão, porque são eles que conectam e sustentam seu governo nas redes dos investidores externos e das burocracias multilaterais responsáveis pela gestão monetária da periferia capitalista".
Parece suficiente para provocar o leitor a ler este autor insubmisso, que não tem receio de procurar o "espaço do Brasil" nesta era de desespacialização e perda de sentido. E de encontrá-lo.
Ricardo Antunesé professor de sociologia na Universidade Estadual de Campinas e autor, entre outros livros, de "Os Sentidos do Trabalho" (Boitempo).
Brasil no Espaço
José Luís Fiori
Vozes (Tel. 0/xx/24/237-5112)
268 págs., R$ 21,00