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Fernanda Arêas Peixoto - 105 - Junho de 2009
Indianismo plural
Foto do(a) autor(a) Fernanda Arêas Peixoto

Indianismo plural

FERNANDA PEIXOTO

 

Construção de mitologia nacional indianista é paralela à desintegração das sociedades indígenas

 

Exilados, aliados, rebeldes. O movimento indianista, a política indigenista e o Estado-nação imperial

David Treece

Tradução: Fábio Fonseca de Melo

NANKIM/EDUSP

351 p., R$ 54,00

 

Associados à pureza primitiva, às práticas guerreiras ou ao canibalismo, os índios desde sempre povoam a imaginação social e artística brasileira, mostram os estudiosos, incansáveis no exame dessas representações. A despeito dos méritos das análises disponíveis sobre as figurações literárias e plásticas dos índios, elas parecem contornar sistematicamente os índios “de carne e osso”, como se nenhuma relação houvesse entre o “índio narrado” e o “índio real”.

Esta é uma das maiores virtudes do trabalho do crítico literário inglês David Treece: a compreensão do indianismo literário dos séculos 18 e 19, de seu ponto de vista, é impensável sem a consideração detida das políticas indigenistas e dos debates sobre a construção da nação (a integração nacional, a escravidão indígena e africana, a mestiçagem etc.), dos quais os escritores participam ativamente.

O estudo minucioso do contexto histórico lança o analista diante de um paradoxo fundamental: ao mesmo tempo em que é protagonista de romances, poemas e peças teatrais (“lamentado ou celebrado como exilado, aliado ou rebelde”), o índio é dizimado, catequizado, escravizado e confinado em aldeamentos. Assim, a construção de uma mitologia nacional integracionista anda de mãos dadas com a desintegração das sociedades indígenas.

 

Faro de pesquisador

 

A redefinição dos contornos do objeto está informada por nova perspectiva analítica, na qual se combinam análise literária, história intelectual e social. Desse ângulo, o indianismo revela-se como movimento cultural mais amplo, o que obriga a interpretação das obras literárias no interior de tramas discursivas alargadas, da qual fazem parte textos históricos, etnográficos e políticos.

À vitalidade analítico-interpretativa, o autor agrega apurado faro de pesquisador, capaz de tirar dos bastidores nomes como os de Ladislau dos Santos Titara, Rodrigues Silva, Lourenço da Silva Araújo Amazonas, Gomes de Amorim, entre outros, contribuindo para a compreensão do indianismo na diversidade de suas expressões e tendências, e afastando-o assim das trilhas correntes e dos lugares-comuns.

O estudo percorre arco temporal extenso, recuando à tradição jesuítica primeira, fonte da literatura subseqüente. Os épicos do século 18 recebem atenção detida no capítulo inicial, lidos não como precursores do indianismo do 19, mas como expressão de circunstâncias históricas específicas, definidas pela questão da escravidão indígena e pelas disputas entre poderes eclesiásticos e seculares.

Às análises dos conhecidos Uraguai, de Basílio da Gama, e Caramuru, de Santa Rita Durão, David Treece acrescenta a Muhraida, de Henrique João Wilkens, texto ignorado pelos comentadores, com honrosas exceções (lembremos a tese da antropóloga Marta Amoroso, Guerra mura no século 18: versos e versões, 1991).  O movimento indianista do século 19, por sua vez, é interpretado em três momentos. O primeiro, de 1835 a 1850 - fase pós-independência, marcada por conflitos e duras políticas em relação aos índios -, conhece a consolidação do indianismo como movimento autoconsciente, para o qual a criação do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (1838) e o patronato de D. Pedro jogam papel fundamental.

Tingida por um “ethos trágico”, a literatura dessa fase afasta-se da celebração nacionalista do período anterior. O caráter dramático da poesia de Gonçalves Dias, especialmente, revela sua consciência aguda da sociedade imperial e da opressão escravista, ao mesmo tempo em que permite entrever as ambigüidades inscritas em sua posição social: crítico contumaz e dependente do establishment.

 

Mitologia conservadora

 

José de Alencar é a expressão maior do segundo período, que se inicia em meados da década de 50, e que traz consigo nova atmosfera política traduzida em linguagem de tolerância e conciliação, como indicam as posições liberais sobre a abolição e política indigenista veiculadas pela revista Guanabara, de Araújo Porto-Alegre, Gonçalves Dias e Joaquim Manuel de Macedo. A despeito do tom liberalizante geral - endossado pela pregação indigenista de José Bonifácio -, posições conservadoras ecoam em obras como as de Varnhagen (Sumé, 1855) e Gonçalves de Magalhães (A confederação dos tamoios, 1856).

Em um Segundo Reinado atravessado por tentativas de acomodação social e política, a literatura de Alencar será responsável pela construção de uma poderosa “mitologia conservadora”, da qual fazem parte os temas da miscigenação, do auto-sacrifício e da conciliação entre brancos e índios, exemplarmente expressos no casamento entre Ceci e Peri, “sonho de reconciliação e regeneração para o Estado-nação imperial”. A análise empreendida das motivações ideológicas e das “façanhas retóricas” de Alencar é complementada por aproximações, iluminadoras, entre a sua obra e as de Victor Hugo, Balzac e Walter Scott.

A terceira fase do movimento (1870-1888), por sua vez, coincide com tempos de abolicionismo, republicanismo e imigração, contexto no qual o mito indianista da miscigenação entre brancos e índios não é mais plausível. Têm lugar aí as conhecidas críticas (anti-indianistas) de Nabuco a Alencar, as contribuições de Couto de Magalhães ao debate sobre o índio e a nação, assim como a visão crítica e satírica de Bernardo de Guimarães sobre todo o movimento, colocando em primeiro plano a sexualidade e violência.

Nesse contexto ainda o autor chama a atenção para as investidas indianistas de Machado de Assis (Americanas, 1875) e, fundamentalmente, para a obra de Sousândrade, que seguindo trilha aberta por Gonçalves Dias, retoma o tema épico do exílio a partir de olhar afiado sobre o mundo moderno (O guesa, 1866).

Do panorama dos escritos indianistas, construído por Treece a partir das diversas perspectivas ideológicas em jogo, e das diferentes posições sociais e políticas de intelectuais e escritores, emerge um indianismo plural, configuração multifacetada envolvendo expressões literárias e mitologias nacionais. Para a compreensão da dinâmica das idéias, o intérprete envereda ainda pelas fontes dos autores indianistas, sobretudo as literaturas inglesas e francesas, escapando da lógica elementar da importação de modelos, mas pensando a teia complexa de imagens e repertórios originária dos intercruzamentos entre fontes adventícias e debates nacionais. 

O livro de David Treece é leitura obrigatória, não apenas para estudiosos da literatura, mas para todos os interessados na vida intelectual brasileira. Um leitor da área das ciências sociais sente falta apenas da incorporação de uma bibliografia mais recente sobre a política indigenista no Brasil e mesmo sobre os intelectuais no século 19, matéria de diversos estudos que, nos últimos tempos, esquadrinham, de outros ângulos, muitos dos debates referidos no livro. Tal ausência se deve seguramente ao fato de a tese de doutorado do autor (base da obra) datar de 1987. Lamentemos, então, a demora dessa edição e aproveitemos o muito que ela tem a nos ensinar.

 

Fernanda Arêas Peixoto É professora de antropologia da USP
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