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Cícero Araújo - 76 - Julho de 2001
Imprensa e negócio
Foto do(a) autor(a) Cícero Araújo

Imprensa e negócio

Sobre Ética e Imprensa
Eugênio Bucci
Cia. das Letras (Tel.0/xx/11/3846-0801)
248 págs., R$ 23,00

Como fica a ética no jornalismo se tomarmos as empresas jornalísticas como elas são -um grande negócio- e os jornalistas como deveriam ser -profissionais a serviço do direito do público à informação? Trata-se, como analisa o autor, de um "conflito de interesses", que as melhores empresas no setor tradicionalmente resolveram mediante a separação entre igreja e Estado, segundo a fórmula do fundador da "Time", Henry Luce: o modo mais eficaz para a empresa promover seus negócios, aumentando anunciantes, é garantir a independência da redação. É assim que os bons veículos conseguiram obter um público crescente e fiel, e os bons jornalistas, zelar pela paz de suas consciências. Mas a fórmula, pensa Eugênio Bucci, esbarra hoje nas megafusões no campo das comunicações, entre outros acontecimentos, que tendem a fazer do jornalismo uma função subordinada ao negócio do entretenimento. Daí a questão mais angustiante do livro: como preservar, nestes novos tempos, a independência das redações, essencial para que a profissão cumpra seu dever moral e social?

A Saga dos Cães Perdidos
Ciro Marcondes Filho
Hacker (Tel. 0/xx/11/3735-7028)
176 págs., R$ 17,00

Os cães são os jornalistas, apud Mitterrand, após o suicídio de um ministro dele, em meio a um suposto escândalo. O autor faz uma história sintética do jornalismo, na qual distingue quatro momentos: o do jornalismo político-literário, o do comercial, o dos monopólios e o da era tecnológica. Esta última etapa corresponderia à "era da pós-história": "A técnica moderna põe abaixo todas as aspirações da modernidade, incorporadas pelo projeto iluminista, assim como as ilusões do humanismo, de privilégio do homem, de evolução e progresso da espécie...". É o que mostram o fim das ideologias, o teorema de Gödel, a teoria do caos etc. etc. Coerentemente, o autor trata de denunciar o "mito da transparência", sobre o qual jornalistas e empresas se apóiam para vender sua mercadoria. Do desvendamento das práticas e crenças do jornalismo contemporâneo, o livro parte para uma crítica simultânea ao "neoliberalismo, às novas tecnologias e à globalização". O que só tem sentido se pensarmos que "todos compõem o mesmo quadro".

Ética e Poder na Sociedade da Informação
Gilberto Dupas
Unesp (Tel. 0/xx/11/232-7171)
135 págs., R$ 17,00

Centrado nas possibilidades de uma ética na era do capitalismo global e do predomínio quase absoluto da técnica, o livro abunda em remissões a filósofos, de Platão a Foucault, frequentemente entremeadas por sentenças retumbantes que lembram esses libelos de fim de milênio. Para o autor, a pós-modernidade não é apenas uma invenção dos pós-modernos, mas um estado de espírito real, fruto de transformações muito objetivas. Daí que constate um "vazio ético no qual as referências tradicionais desaparecem e os fundamentos ontológicos, metafísicos e religiosos da ética se perderam". Contudo, e talvez por isso mesmo, é imperioso gestar "os novos valores da pós-modernidade". Eis que o autor se propõe a enunciar seus "primeiros princípios". Mas como, se "Deus está morto"? "Primeiros princípios", claro, é força de expressão: Gilberto Dupas quer apenas oferecer regras gerais de prudência para uma época em que a criatura se tornou também o criador e, portanto, a ética só pode ser uma autolimitação "razoável", não uma força com autoridade transcendente.

Indústria Cultural - Informação e Capitalismo
César Bolaño
Hucitec (Tel. 0/xx/11/240-9318)
282 págs., R$ 32,00

O autor se propõe a abordar os meios de comunicação de massa "em termos rigorosamente marxianos". Mas, em vez de tratá-los apenas como aparelhos ideológicos, como é costumeiro nessa tradição, procura situá-los na base do "sistema", isto é, como parte crucial da economia capitalista contemporânea. Sem deixar de prestar contas à ortodoxia, Bolaño incorpora à análise contribuições tão díspares como a da economia neoclássica e a da sociologia de Bordieu e então articula um robusto esquema conceitual para dar conta da indústria midiática. Para explicar como a mídia desempenha um papel específico na acumulação do capital, o livro combina a análise da concorrência entre as empresas em geral para consolidar e ampliar um público consumidor, com a análise da "cozinha" da indústria (a produção de bens culturais), a qual é ligada à concorrência entre as empresas do próprio setor para abocanhar o mercado de anunciantes. A construção teórica é um tanto eclética para quem pretendia algo "rigorosamente marxiano" e, contudo, original e bem-costurada.

CICERO ARAUJO 

Cícero Araújo é professor do departamento de ciência política da USP.
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