

JOSÉ GERALDO COUTO
Impasses do nosso futebol
Intersecções entre futebol, mídia e sociedade
HISTÓRIA DO LANCE! – PROJETO E PRÁTICA DO JORNALISMO ESPORTIVO
Mauricio Stycer
ALAMEDA
324 p., R$ 46,00
Quando chegou às bancas, em outubro de 1997, o jornal Lance! era o primeiro diário esportivo a surgir no país desde os anos 1930, quando foram criados os pioneiros Jornal dos sports, no Rio de Janeiro, e a Gazeta esportiva, em São Paulo. Chamado a participar da implantação do novo diário e do comando de sua jovem equipe, o jornalista Mauricio Stycer logo percebeu o alcance histórico da experiência e viu nela a oportunidade de lançar uma luz singular sobre a imprensa, o esporte (em especial o futebol) e, mais modestamente, sobre o quadro social brasileiro no final do século XX.
É na intersecção entre essas três esferas – a imprensa, o futebol e a sociedade como um todo – que se concentram a pesquisa e a reflexão de Stycer, convertidas em dissertação de mestrado e, posteriormente, em livro.
Dado que o Lance! despontou – no discurso de seu criador, o jovem empresário Walter de Mattos Júnior – como um projeto modernizador, de ruptura com a tradição da imprensa esportiva nacional, a primeira parte do livro se dedica a traçar um breve, mas consistente histórico dessa imprensa, destacando a atuação de seus principais artífices, os jornalistas Mario Filho (do Jornal dos sports), Casper Líbero e Thomaz Mazzoni (ambos da Gazeta esportiva).
A idéia de Stycer era, primeiro, situar o surgimento do Lance! no contexto das publicações esportivas, para depois poder avaliar o que havia de ruptura e de continuidade no projeto e na prática do jornal.
Discurso modernizador
Na segunda parte do livro é exposto e esmiuçado o discurso modernizador de Mattos Júnior, bem como os percalços por que passou em sua tentativa de abrir espaço num mercado de mídia em rápida transformação, mas ainda dominado em grande parte pelas velhas empresas familiares (as organizações Globo dos Marinho, O Estado de S. Paulo dos Mesquita, a Folha de S. Paulo dos Frias, a editora Abril dos Civita etc.).
Ironicamente, Mattos Júnior, economista e empresário que enriquecera no ramo naval, batia-se contra a tradição oligárquica e familiar da nossa mídia, mas tivera sua única experiência importante na imprensa ao reestruturar o jornal popular carioca O Dia, de propriedade de seu então sogro, Ary Carvalho.
Uma das apostas de Mattos Júnior, ao se lançar na aventura do Lance!, era a da iminente abertura do mercado de mídia brasileiro aos investidores independentes e, sobretudo, à participação do capital estrangeiro, coisa que demorou mais do que o previsto para ocorrer, e mesmo assim de forma limitada (a 30% do capital das empresas).
Outro pressuposto do empresário era o de que o futebol brasileiro seguiria rapidamente os passos do europeu ocidental, que evoluíra nas décadas anteriores para o chamado futebol-empresa, abrindo novos horizontes para o marketing esportivo, a publicidade e a mídia. Também essa “revolução” se mostrou problemática entre nós, com avanços e recuos ditados pelas forças políticas em jogo, sobretudo os velhos dirigentes esportivos representados no Parlamento pela chamada “bancada da bola”.
A terceira parte do livro se concentra na experiência concreta da realização diária do Lance!, processo do qual Stycer participou ativamente, como o segundo homem na hierarquia do jornal, ao longo de sete meses. Consciente desde o início da importância daquele momento, o autor coletou todo o material que lhe chegava às mãos na redação, de memorandos internos a e-mails de colegas, de cartas de leitores a atas de reunião.
A observação desse dia-a-dia do jornal e de sua interação com os leitores, esse “conhecer por dentro”, está no cerne do estudo de Stycer e transcende o viés meramente memorialístico graças à contextualização histórica citada anteriormente e ao influxo teórico aportado pela bibliografia sociológica (Érik Neveu, Pierre Bourdieu, Eric Dunning) e histórica (Peter Burke, Hilário Franco Júnior etc.).
Nas dificuldades miúdas do cotidiano do jornal, mostra-nos Stycer, refletem-se impasses conjunturais e estruturais do nosso futebol, da nossa mídia e, em última análise, da nossa formação social, econômica e política. É esse trânsito entre o detalhe e a visão de conjunto, entre o micro e o macro, que faz de História do Lance! um livro relevante e necessário, de leitura agradável e proveitosa.
Um último aspecto abordado pelo livro, o viés esmagadoramente masculino do jornal em questão e da imprensa esportiva em geral, parece não render tanto quanto o autor esperava. Resta como uma coda um tanto desajeitada (em termos narrativos, um anticlímax), que pode ser lida, entretanto, como uma indicação para futuros estudos das questões de gênero no esporte e na imprensa.