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Lísias Nogueira Negrão - 70 - Janeiro de 2001
Homens da espera
Foto do(a) autor(a) Lísias Nogueira Negrão

Homens da espera 

Dicionário de Messianismos e Milenarismos
Henri Desroche (com a colaboração de M. Letendre, M.R. Mayeux, J. Guiart, Maria Isaura Pereira de Queiroz)
Tradução: Odair Pedroso Mateus
Universidade Metodista de São Paulo (Tel. 0/xx/11/4366-5559)
504 págs., R$ 50,00

LÍSIAS NOGUEIRA NEGRÃO

Justificam este lançamento não apenas a passagem ao terceiro milênio do cristianismo, com a evocação de toda uma carga simbólica, mas a qualidade e atualidade da obra, não obstante ter sido publicada originalmente há 31 anos, após permanecer longo tempo à espera da decisão de "editores hesitantes".
De um lado, os méritos de um longo e exaustivo trabalho de equipe, que produziu uma obra de referência indispensável aos estudiosos do assunto, com um repertório de mais de mil verbetes sobre os "homens da espera". De outro, os méritos do autor, que, em sua introdução "Deuses de Homens -Contribuição a uma Sociologia da Espera", tece finas análises a respeito dos fenômenos messiânico-milenaristas até hoje não superadas no contexto da sociologia da religião.
O "repertório da espera" constitui um trabalho inicial, de cunho sociográfico (Desroche cita Les Bras: "Contar tudo o que pode ser contado") exaustivo e preliminar à analise, que não deve ser visto como um capítulo da teratologia social, mas como fenômeno central do cristianismo, se não do fenômeno religioso em geral, "enquanto sentimento vivido e ato efervescente que se abre -ainda que por arrombamento- enquanto sobressalto de vida, ou rejeição da morte, de um grupo social". Embora exaustivo, coloca seu limite: o cristianismo. Não que desconsidere a possibilidade da emergência de tais movimentos fora da área abraâmica, mas adia tal pesquisa para um trabalho posterior que não veio a ser realizado.
Nas análises efetivadas na introdução, o autor esclarece as relações e diferenciações entre messianismo e milenarismo, elabora tipologias dos personagens e agrupamentos messiânicos, estabelece os seus ciclos e disseca o seu imaginário. Conclui com uma brilhante discussão sobre "A Dialética dos Messianismos e a Categoria do Fracasso".
Numa interessante comparação entre messianismo e cultos de possessão, Desroche considera ambos como o sagrado em estado selvagem, em que o "tremendum" predomina sobre o "fascinans" -em referência à análise de Rudolf Otto, em "O Sagrado" (também publicado pela Imprensa Metodista, São Bernardo do Campo, 1985), mas em que o primeiro, à diferença do segundo, "dura no tempo". "Ele dura com o tempo. Ele conta com o tempo, leva tempo. Pois se ele é obra de uma humanidade que espera, o messianismo é também, complementarmente, obra de uma humanidade esperada e, num e noutro casos, essa humanidade é a humanidade de um homem montado pelo deus. O tempo, nessa configuração, é nada mais que esse espaço entre o que espera e o esperado: espaço de uma criação, espaço de um ciclo não repetitivo, espaço do milênio limitado e ilimitado que é , talvez, o arquétipo de um tempo em que as coisas não somente duram, mas entram em evolução e em revolução."
O messias é, portanto, o personagem do movimento sociorreligioso em busca do milênio; sua diferença em relação ao profeta está em sua proximidade maior com o Deus, ao qual está ligado por um vínculo nativo e não apenas eletivo, como este último. "Não que o homem cesse de sê-lo para se tornar deus. Antes, o deus deixa de ser o deus dos aléns do homem para ungir o homem, sua terra e seus reinos desde agora e aqui. "Heavens on Earth". Que o deus venha. Que o deus nos venha. E que ele seja um deus de homens."
Por ater-se especificamente ao caráter religioso do fenômeno messiânico e, em consequência, aprofundar o conhecimento de sua vertente simbólica, Desroche explora de maneira muito mais instigante que outros autores a matriz messiânica, demonstrando suas contradições e, ao mesmo tempo, desvelando seus significados. Na última parte de sua introdução, Desroche parte da questão bastidiana do messianismo malogrado chegando à conclusão de que sucesso e fracasso são duas faces coexistentes do messianismo, pois que este se constituiria basicamente em um humanismo triunfalista.
Assim, o próprio sucesso que o conduziria à sua institucionalização, enquanto igreja saída de um movimento religioso ou Estado político saído de uma revolução de caráter religioso, implicaria no seu fracasso, pois "a sobre-sociedade a que estes cultos ou fenômenos dariam acesso não pode ser uma sociedade de todos os dias". Mas, ao mesmo tempo, tornaria possível "os ressurgimentos messiânicos em nome da distância entre a intenção do projeto e o resultado da operação". Por outro lado, tal como demonstrara Festinger ("When Prophecy Fails", Quando a Profecia Falha, Minneapolis, EUA, 1956) para o caso dos anabatistas, a não-confirmação do esperado segundo advento aprofundou a convicção e ativou a atividade proselitista. Essa dialética dos messianismos, tal como concebida pelo autor, reproduz, no plano religioso, a "dialética da vida" de Georg Simmel -enquanto uma "dialética sem conciliação".
Uma outra questão importante, para a qual a contribuição de Desroche não foi ainda superada, é a da relação entre a consciência messiânica pessoal e a consciência milenarista coletiva. O messias surge quando o milênio já se prefigura; nesse momento em que a essência messiânica é mais forte do que a existência física do messias, dá-se a sua gestação. Mesmo que socialmente construído, não será por essa razão um taumaturgo menos bem-sucedido que aquele que, desde o início e antes de ser reclamado, se apresenta como tal para uma audiência que não o reconhece. É mediante tal interlocução que se dá a definição final da qual emerge a figura messiânica.
Não se trata, portanto, da simples imposição da época, seja da crise que propicia sua emergência, tal como postulou Maria Isaura Pereira de Queiroz ("O Messianismo no Brasil e no Mundo", Dominus/ Edusp, 1965), seja da excepcionalidade social, tal como reivindicou Bourdieu ("Gênese e Estrutura do Campo Religioso" em: "A Economia das Trocas Simbólicas", ed. Perspectiva, 1974) em sua criticável crítica à teoria do carisma de Weber. Trata-se antes de dialética entre o social e o personagem que simples determinação do primeiro sobre o segundo.


Lísias Nogueira Negrão é professor de sociologia na USP e autor de "Entre a Cruz e a Encruzilhada" (Edusp).

Lísias Nogueira Negrão é professor de sociologia da USP.
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