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Sofia I. A. Stein - 27 - Junho de 1997
Harmonia entre desiguais
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Harmonia entre desiguais

 

SOFIA I. A. STEIN

tendo como origem conferências apresentadas na Universidade de Girona, na Catalúnia, este último livro de Quine explora os muitos aspectos da epistemologia naturalizada que ele defende. Quine mostra o profundo enraizamento de seu pensamento na filosofia de Rudolf Carnap, tanto enquanto continuador quanto como crítico de suas idéias. Para Quine, "o 'Aufbau' ('Construção') de Carnap foi a culminância do fenomenalismo que se desenvolveu em Hobbes, Locke, Berkeley e Hume, e que teve suas raízes nas dúvidas de Descartes e na antiga perplexidade acerca do conhecimento e do erro".
Segundo Quine, a filosofia deve inserir-se no universo da ciência de forma humilde, pois embora possa servir a esta enquanto análise da estrutura do conhecimento, não tem um meio privilegiado de acesso ao funcionamento do conhecer: a ferramenta da filosofia é a própria ciência. Em busca dos fundamentos das evidências que servem à ciência no teste de suas teorias, Quine reescreve sua tese acerca dos "estímulos compartilhados" na comunicação intersubjetiva. Descobre na "harmonia preestabelecida de padrões de similaridade perceptiva" o conceito-chave que permite explicar a disposição dos falantes em concordarem com relação ao que observam, mesmo que de ângulos diversos.
No recente ensaio "Progress on Two Fronts" (1996), Quine reitera sua confiança no conceito de "harmonia de similaridade perceptiva", como aquele que preenche a lacuna deixada por sua teoria dos estímulos compartilhados em "Word and Object" (1960). Já em "Ontological Relativity" (1969) e "Roots of Reference" (1974), a noção de igualdade de "stimulus meaning" para dois falantes, baseada na igualdade de afecção das terminações nervosas, se mostrava problemática, em virtude da variação de terminações nervosas de um indivíduo para outro. A harmonia de similaridade perceptiva desenvolve-se, segundo Quine, por seleção natural. Tal seleção favorece a transmissão genética de padrões de similaridade perceptiva, cuja principal função seria a bem-sucedida adaptação ao meio ambiente.
As sentenças observacionais continuam sendo, para Quine, os tentáculos com os quais a linguagem toca a realidade. E é por elas que a atividade científica pode ambicionar o falseamento de teorias. Teorias científicas testáveis implicam os chamados "categóricos de observação", que são condicionais cujos antecedentes e consequentes são sentenças observacionais. A falsidade de categóricos de observação implicados por uma determinada teoria obrigam o cientista a reconsiderar um ou vários princípios dos quais foram deduzidos esses categóricos. A epistemologia normativa sobrevive, na visão de Quine, à conversão ao naturalismo e "a mais geral de suas normas é, quem sabe, o conservadorismo, ou a máxima da mínima mutilação, e a simplicidade, familiar nos contextos ontológicos como a navalha de Ockham".
Além do progresso com relação à visão anterior sobre a noção de igualdade de "stimulus meaning", por meio do conceito de harmonia de similaridade perceptiva, Quine também dá um passo adiante na sua caracterização das sentenças observacionais, afastando-se do "velho reducionismo fenomenalista". Ele não necessita mais afirmar a independência das sentenças observacionais em relação a qualquer aparato teórico. Basta que estas continuem sendo aquelas sentenças que permitem aos falantes de uma comunidade ou a um certo grupo de cientistas concordarem com respeito ao que estão observando. Ou seja, deve haver, em uma determinada comunidade, uma concordância com relação ao valor de verdade de uma sentença observacional, quando presente um determinado evento.
Revisando sua tese defendida em "Pursuit of Truth" (1990), de que as sentenças da matemática compartilham do conteúdo empírico do conjunto de sentenças que formam uma teoria científica, Quine agora aceita a visão de que as sentenças matemáticas não têm conteúdo empírico. Isso traz consigo uma série de interrogações acerca de sua posição com respeito à separação entre sentenças analíticas e sintéticas, ou sentenças verdadeiras somente devido à forma, e sentenças que são verdadeiras ou falsas devido aos fatos empíricos, ou, ainda, sentenças necessariamente verdadeiras e sentenças que podem ser verdadeiras ou falsas.
Conforme a definição escolhida de analítico e sintético, poderíamos dizer que Quine está admitindo a analiticidade das sentenças matemáticas. Entretanto não é isso o que ocorre. Quine nos apresenta três opções: 1) as sentenças em geral podem ser verdadeiras ou falsas por participarem ou não do aparato conceitual utilizado em uma teoria científica; 2) as sentenças em geral podem ser verdadeiras ou falsas devido à natureza descrita nos categóricos de observação; e 3) as sentenças, embora só possam ser verdadeiras ou falsas, podem ser para nós, menos por razões metafísicas ou transcendentais e mais por "questões de uso humano", indecidíveis. Tais sentenças seriam, assim, embora numa perspectiva distinta, um tanto "semelhantes à coisa-em-si de Kant". As sentenças da matemática poderiam enquadrar-se na primeira ou na terceira opção. Podem ser verdadeiras por fazerem parte de um aparato conceitual que auxilia na construção de uma teoria científica ou podem ser consideradas verdadeiras por motivos de uso humano, não especificáveis.
Quine preserva sua visão holista da linguagem significativa. Embora seja possível a concordância intersubjetiva com relação ao valor de verdade de sentenças observacionais, não se pode propriamente falar em significados isolados de sentenças. Segundo ele, a tarefa de comunicar, exercida pela linguagem, pode efetuar-se sem a determinação de significados, tal como expressos pela noção de "proposição". A possibilidade de comunicar tanto sentenças observacionais quanto sentenças altamente teóricas supõe que os falantes compartilhem de situações nas quais aprendem o uso correto de certas expressões e que, muitas vezes por analogia, aprendam a relacionar corretamente os termos entre si. Toda a filosofia de Quine está impregnada desta faceta altamente pragmática, que observa a linguagem e suas diversas funções como determinadas pelo uso necessário ao pleno funcionamento das atividades humanas, em vez de empreender a busca fantasiosa do que se esconde por trás das palavras.

Sofia Inês Albornoz Stein é professora do departamento de filosofia da Universidade Federal de Goiás. 

Sofia I. A. Stein é professora do departamento de filosofia da Universidade Federal de Goiás.
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