

Geografias da crise ambiental
JULIO AMBROZIO
A AMAZONIA NO SÉCULO XXI
Violeta Refkalefsky Loureiro
EMPÓRIO DO LIVRO
280 p., R$ 54,90
A crise ambiental e tecnológica do carvão e do petróleo arrasta o Brasil, com sua biomassa, para o centro das tensões globais. Floresta, água, minérios e mega-biodiversidade transformam a Amazônia em fronteira viva do Brasil com o mundo. Debruçado sobre uma Amazônia contemporânea articulada ao mundo como produtora de commodities, imersa em biodiversidade e tendo a questão indígena por se resolver, este livro não apenas sopesa a história amazônica submetida a um processo de espoliação, que, sob diversas formas, permanece até hoje, como, a partir daí, procura gerar proposições para a superação dessa arraigada trajetória de destruição.
O fado da Amazônia é o destino do Brasil e vice-versa. Este livro, de indignada e delicada caligrafia, pode bem ser expressão dessa fortuna, pois muitas das questões que aponta podem ser avistadas como certa espécie de tradução regional e amazônica do estatuto colonial que cobre todo o território brasileiro. Sob esse viés, seu ponto de vista é o regional-nacional, quase ia dizendo amazonense-brasileiro.
Difícil, por fim, ler este livro sem lembrar do militar português Henrique João Wilkens e seu Muhuraida, de 1785, seis cantos heróicos que narram a pacificação espontânea do aguerrido povo Mura, velhos habitantes da margem direita do rio Madeira. Afinal, amazônidas e brasileiros carecem hoje de horizonte épico.
GOVERNANÇA DA ÁGUA NO BRASIL
Wagner Costa Ribeiro (org.)
ANNABLUME
380 p., R$ 56,00
Reunião de textos sobre as políticas, valendo governança pública, que levam em conta a gestão compartilhada dos recursos hídricos do Brasil. Variados artigos debruçados sobre as águas brasileiras. Águas superficiais, águas subterrâneas, águas costeiras, enxergadas desde o seu aspecto simbólico nas populações tradicionais brasileiras e até em sua contextura jurídica. Interessante o artigo de Norma Felicidade, debruçado diretamente sobre a dúvida real com respeito à participação social na governança dessas águas, chamando a atenção para a desigualdade no seu uso. É de se notar os artigos sobre o Aqüífero Guarani, que contém 95% de toda a água doce da Terra, impressionante reserva subterrânea e transfronteiriça, cuja parte brasileira corresponde a 70%. O artigo de Christian G. Caubet, em alguns parágrafos, arranha um aspecto pouco avistado neste livro, embora não tenha sido este o seu objeto. Refiro-me ao viés geopolítico, visto que a crise ambiental traz à tona o papel estratégico que as águas doces abundantes do país teriam em relação ao núcleo de interesses do centro orgânico do capital. As águas também deslocam o Brasil para o centro das tensões mundiais.
PAISAGEM, ESPAÇO E SUSTENTABILIDADES: UMA PERSPECTIVA MULTIDIMENSIONAL DA GEOGRAFIA
João Rua (org.)
EDITORA PUC-RIO
330 p., R$ 35,00
Nove textos enquadrados em duas linhas: (a) Transformação da paisagem e (b) Espaço e sustentabilidades. Próxima da paisagem de Milton Santos, por conseguinte distante da simples forma enquadrada pelo olhar, a primeira parte, debruçada sobre a Mata Atlântica, enxerga essa floresta como paisagem ou forma coeva herdeira de sucessivas, seriadas e classificadas relações entre o homem e a natureza, bioma amalgamado à própria história do país. Desnecessário dizer do metodológico quinhão da História Ambiental. Chama a atenção, como trabalho síntese desta primeira linha o artigo de Rogério Ribeiro de Oliveira.
A segunda parte, parece nucleada no artigo de João Rua, que procura recuperar a história do conceito de desenvolvimento para então sugerir, instilado especialmente por Ignacy Sachs, outro conceito anexado à noção plural de sustentabilidade. Pluralidade, aliás, que acentuaria o seu viés espacial, avistado como arraigado e autóctone território no qual cada sociedade teria a possibilidade de estabelecer os seus padrões de desenvolvimento sustentável. Vale a pena o último artigo, de Regina Célia de Mattos, enxergando o capitalismo como sistema-mundo, já que texto debruçado sobre a ubíqua elevação da composição orgânica do capital e a exploração do velho trabalho doméstico sob novíssima e vistosa fardagem. No meio da arena produtiva e reprodutiva do espaço percebido, do espaço concebido e do espaço vivido.