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Rosangela Patriota - 70 - Janeiro de 2001
Fora do circuito comercial
Foto do(a) autor(a) Rosangela Patriota

Fora do circuito comercial 

Grupos Teatrais - Anos 70
Sílvia Fernandes
Ed. da Unicamp
(Tel. 0/xx/19/3788-1094)
272 págs., R$ 29,00


ROSANGELA PATRIOTA

Se a década de 60 fora a promessa de felicidade e transformações, os anos 70, como afirmou Herbert Marcuse, marcaram a vitória da "contra-revolução". As derrotas dos estudantes franceses no Maio de 68, da Primavera de Praga, do Partido dos Panteras Negras aliadas ao enfraquecimento do movimento hippie e da contracultura, redimensionaram as expectativas sociais e políticas na Europa e nos EUA. No Brasil, após a decretação do AI-5, assistiu-se ao desmantelamento da luta armada, à vitória do processo de modernização conservadora e ao exílio de artistas, intelectuais e políticos. Na cidade de São Paulo, em meio a essas perdas, o Teatro de Arena encerrou suas atividades em 1971 e o Teatro Oficina, com a prisão e auto-exílio de José Celso Martinez Corrêa, teve sua trajetória interrompida em 1974. Diante disso, quais caminhos estéticos, políticos e culturais restaram ao país?
Aqueles que permaneceram passaram a atuar nas "brechas" da legalidade, elaborando trabalhos que denunciavam o arbítrio e enfatizavam a construção de uma "resistência democrática". Foram encenados textos de Brecht, Guarnieri, Vianinha, Chico Buarque, Plínio Marcos, Dias Gomes, entre outros, sob a responsabilidade de diretores como Antunes Filho, Flávio Rangel, José Renato, Fernando Peixoto, Celso Nunes e Gianni Ratto. Ocorreram memoráveis festivais internacionais de teatro, organizados por Ruth Escobar. Criaram-se núcleos teatrais independentes que construíram suas sedes e desenvolveram atividades na periferia da cidade de São Paulo, isto é, fora do circuito comercial.
Esta situação fez surgir, ao mesmo tempo, grupos formados por jovens que traziam outros "olhares" para a cena brasileira: Pessoal do Victor, Vento Forte, Pod Minoga, Mambembe, Ornitorrinco e Asdrúbal Trouxe o Trombone. Essas "novas" tendências foram escolhidas como tema privilegiado do livro de Sílvia Fernandes, pois, para a autora, constituem-se numa "parcela significativa do teatro de minha geração e, como parece inevitável nas escolhas, refletem uma série de opções estéticas e vitais que são minhas".
Dentre essas opções, estão a pesquisa de linguagem, a escolha de temáticas cotidianas e a não-vinculação política que, associadas a produções cooperativadas, contribuíram para um processo de criação coletiva, compreendido como "diluição da divisão rígida entre funções artísticas" e "uma democrática repartição de tarefas práticas".
Esses procedimentos, porém, não se apresentaram de maneira homogênea nos grupos estudados. Por isso, conquanto haja uma descrição das atividades do Pod Minoga, Sílvia Fernandes privilegiou em sua análise o Asdrúbal Trouxe o Trombone, de Hamilton Vaz Pereira, Regina Casé e Luiz Fernando Guimarães. Como se trata de um "caso exemplar" dentro das premissas que nortearam a investigação, os espetáculos do Asdrúbal são minuciosamente discutidos, no que se refere à concepção cênica, aos figurinos, interpretação e dramaturgia.
Com essa perspectiva, a autora comenta a liberdade presente na composição das personagens, geralmente planas, a partir das características pessoais dos atores, dando origem a tipos estruturados por uma única idéia. A espontaneidade dos intérpretes em cena revela a ausência de uma formação profissional dos integrantes do Asdrúbal, o que, somada a uma postura antiintelectual, demonstra, sem dúvida, o firme propósito de construir caminhos "originais". Isso é particularmente importante se se considerar que a maioria dos artistas em atividade, naquele momento, ou eram oriundos de escolas de teatro, em especial da Escola de Arte Dramática (EAD), ou obtiveram respeitável formação em companhias que valorizavam a pesquisa e a reflexão (Arena, Oficina, Opinião, entre outras).
De forma menos abrangente, Fernandes expõe momentos significativos da trajetória do Ornitorrinco, criado nas dependências do curso de artes cênicas da Escola de Comunicação e Artes da USP por Luiz Roberto Galízia, Cacá Rosset e pela então professora de arte-educação Maria Alice Vergueiro. Ancorado em sólida formação intelectual e artística, o grupo desenvolveu pesquisas no campo da interpretação, dramaturgia e cenografia. Promoveu instigantes diálogos com as vanguardas estéticas, em busca de um conhecimento apurado, já que, para Galízia, "a atividade teatral é uma experiência científica também. Teatro experimental não é uma coisa de experimentar, experimentar, experimentar. Você só pode experimentar depois que você tem uma série de dados, e esses dados também são uma tradição do teatro".
Nesse sentido, embora a preocupação básica fosse discutir a criação coletiva, a pesquisa revela diferenças fundamentais no que tange às concepções de teatro que norteiam esses grupos.
Por outro lado, vale ressaltar que a opção da autora impediu que houvesse uma análise mais atenta da trajetória de Carlos Alberto Soffredini, tanto em seu trabalho com o Mambembe quanto em suas parcerias com o Pessoal do Victor, em particular na peça "Na Carrera do Divino", fruto de uma pesquisa iniciada a partir do livro "Os Parceiros do Rio Bonito", de Antonio Candido. São igualmente rápidas as considerações sobre os espetáculos de Ilo Krugli, bem como em relação ao diálogo deste diretor com a doutora Nise da Silveira.
Outro aspecto que apresenta possibilidades interpretativas não aprofundadas é a relação Ornitorrinco-Kurt Weill-Bertolt Brecht. Em todo caso, cada um desses tópicos poderia ser desdobrado em estudos particularizados, de modo a enfatizar matizes e nuanças.
Não obstante, cabe recordar que Sílvia Fernandes expõe, com clareza e pertinência, quais são suas escolhas e as motivações que as justificam. Outro dado de extrema importância diz respeito ao notável levantamento documental, resultante de 13 anos de trabalho junto à Equipe Técnica de Artes Cênicas do IDART, que confere consistência ao trabalho. Fundamentalmente, outros estudiosos poderão explorar potencialidades anunciadas no decorrer de suas reflexões, uma vez que a grandeza de uma obra revela-se, também, nas temáticas por ela suscitadas.


Rosangela Patriota é professora do Instituto de História da Universidade Federal de Uberlândia e autora de "Vianinha - Um Dramaturgo no Coração de Seu Tempo" (Hucitec).

Rosangela Patriota é professora do Instituto de História da Universidade Federal de Uberlândia.
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