

Florestan jornalista
CELSO FREDERICO
A biblioteca e o acervo pertencentes a Florestan Fernandes estão hoje guardados na Universidade Federal de São Carlos. Pesquisando esse material, o sociólogo João Roberto Martins Filho, que já realizou importantes estudos sobre o regime militar, fez um levantamento das intervenções jornalísticas de Florestan. Dos quase 500 artigos, publicados na Folha da Manhã e Folha, selecionou cerca de 80, usando como critério os momentos que permitiam mostrar "como o sociólogo emprega suas categorias de análises para decifrar o cotidiano" e, também, "como o militante observa o desenrolar da história para pôr à prova suas teses".
Foram muitos os assuntos enfocados na atividade do publicista Florestan: a questão racial, a educação, a herança colonial, os movimentos sociais, a desagregação do "socialismo real", a violência no campo, os resquícios da ditadura militar na Nova República, a Constituição de 1988 etc.
Todos esses temas têm como pano de fundo uma concepção articulada da formação da sociedade brasileira, exposta detalhadamente em "A Revolução Burguesa no Brasil", de 1975, que serviu de referência teórica para as incursões do autor no jornalismo político. Trata-se, em poucas palavras, da forma como se realizou a objetivação do capitalismo numa sociedade colonial. Florestan encampa, a seu modo, a tese da "via prussiana" para explicar as vicissitudes da revolução burguesa no Brasil.
Nesse registro, os acontecimentos históricos refletem a dinâmica de uma transição feita pelo alto mediante a conciliação das elites e a exclusão do povo. A Independência, conduzida por um príncipe português, se realizou sem o confronto armado. A Abolição, marcando a passagem do trabalho escravo para o livre, foi uma revolução feita pelo alto, deixando os ex-escravos à sua própria sorte como "um simples bagaço do antigo sistema de produção" -aqui, segundo Florestan, se situam ao mesmo tempo a origem da discriminação social dos negros e o mito da democracia racial. A Revolução de 30 foi outro momento desse processo de composição pelo alto, de modernização sem rupturas, de revolução sem revolução. "Se o Brasil tivesse um passado feudal, essa evolução teria sido mais rápida", adverte o autor para explicar as diferenças do Brasil em relação à vertente clássica do desenvolvimento capitalista.
A peculiaridade da formação social brasileira deixou de herança "uma sociedade civil não civilizada", uma burguesia débil, incapaz de propor um projeto nacional e ampliar a democracia. O modelo clássico de revolução burguesa foi substituído pela acomodação da classe dominante com o imperialismo e a manutenção de uma "democracia restrita" com todos os seus subprodutos (patrimonialismo, mandonismo, paternalismo, clientelismo e fisiologismo político).
Dessa maneira, as classes sociais se configuraram como "equivalentes históricos e sociológicos das castas e dos estamentos". O contraponto ao mandonismo burguês é a massa de subempregados e uma classe operária frágil que só no final dos anos 70 fez sua reaparição ruidosa no cenário político.
A OBRA A Força do Argumento Florestan Fernandes Organizador: João Roberto Martins Filho Editora da Universidade Federal de São Carlos (Tel. 016/260-8137) 254 págs. R$ 25,40 |
E foi justamente nesse momento histórico que o sociólogo se elegeu deputado federal. O minucioso e pacato pesquisador funcionalista transformou-se então no aguerrido tribuno socialista. Se a burguesia mostrou-se incapaz de realizar "a revolução dentro da ordem", as classes subalternas são convocadas à tarefa inadiável de iniciá-la, transformando-a, no momento seguinte, numa "revolução contra a ordem".
A aceitação da "via prussiana" (tema caro a autores como Lênin e Lukács) como característica básica da formação social brasileira era defendida, na época, por algumas correntes da esquerda e, em especial, pelo PCB. Segundo a estratégia desses grupos, a herança da "via prussiana" exigia da esquerda um período de acumulação de forças visando a fortalecer a sociedade civil. Daí a difusão das teses gramscianas sobre a "guerra de posições" e a necessidade da "política de alianças" para retirar o movimento operário do isolamento social.
Florestan pensava de forma radicalmente diversa: o movimento popular deveria manter a sua autonomia, para, assim, impulsionar o processo revolucionário, transformando a etapa democrática em revolução socialista, numa versão estratégica assemelhada à "revolução permanente" de Trotsky.
Com essa visão, Florestan confronta-se com a Nova República, radicalizando ao máximo suas críticas. A eleição de Tancredo Neves, para ele, significou apenas um capítulo a mais na composição pelo alto das elites brasileiras. O governo Sarney deu continuação à "prolongada transição, tão maldita quanto a ditadura". A Constituição de 88 foi prevista como uma peça de "lantejoulas", uma "vitrine" (depois de pronta e sob a ameaça da revisão constitucional, Florestan, numa autocrítica dissimulada, reviu seus prognósticos e passou a defendê-la). O governo Collor lançou o país numa "anomia institucional extrema", e a expressiva votação do PT colocou a opção: "Ou a mudança social estrutural vem por bem ou terá que surgir regada a sangue, por uma guerra civil, que deixou de ser potencial".
A possibilidade da "revolução social, armada e sangrenta" era uma constante nos artigos de Florestan, que observava na sociedade brasileira sinais de "desobediência civil", "ira", "ondas de raiva", "compulsão larvar da rebelião coletiva", "rancor das massas populares", "ranger de dentes da maioria oprimida" etc.
Nos últimos artigos, a eleição de seu discípulo FHC deixou-o numa incômoda situação: de um lado, os laços fraternos de uma antiga amizade permaneceram; de outro, a "decepção imprevista", ao ver o amigo "conformar-se com o bloco político de sustentação da ditadura e dos paladinos da reação". Paralelamente, Florestan criticava a "social-democratização" do PT e a cristalização de uma pesada burocracia partidária.
Esse conjunto de artigos serve como um referencial a mais para se conhecer o perfil intelectual de Florestan, tarefa já iniciada pelos estudos de Maria Arminda Arruda, Sylvia Garcia, Carlos A.N. Paiva, José Paulo Netto, Octávio Ianni e Gabriel Cohn, entre outros.
Florestan é autor difícil: definindo-se sempre como "sociólogo" e "socialista", deixou uma vasta obra que vem desafiando os seus intérpretes.
Como sociólogo, Florestan praticava "o ecletismo bem temperado", fato despercebido por alguns intérpretes que quiseram transformá-lo post mortem em "teórico marxista". Em seus escritos, Weber e Durkheim conviviam amigavelmente com Marx (que ele considerava "um clássico da sociologia alemã", e não o criador do materialismo histórico). Por isso, as classes sociais e a formação da "ordem social competitiva" são vistas em termos weberianos, tendo como referência a "situação de mercado" e não, como queria Marx, o modo de produção. Já o capitalismo dependente, interpretado como sistema, é trabalhado numa perspectiva próxima do estruturo-funcionalismo.
Por outro lado, o socialista Florestan apoiava-se basicamente em Lênin. Mas o Lênin assimilado por Florestan é prioritariamente o autor dos textos escritos nos momentos de máxima tensão revolucionária; as reflexões sobre a ação política nos momentos de calmaria ou refluxo não comparecem com a mesma assiduidade.
Esse imbricamento de ecletismo teórico e exasperação revolucionária produziu um resultado perturbador: a convivência da rigidez e imutabilidade das estruturas, funções e papéis, com o voluntarismo político. Com isso, a práxis política permaneceu subestimada. A luta pela democratização do país parece de nada ter servido, já que não nos livrou da herança colonial. A mesma coisa vale para a Constituinte ou qualquer outro acontecimento "institucional".
Perante as estruturas imutáveis, porém, Florestan não se curvou: o eticismo e a indignação alimentaram sua impaciência revolucionária. É um caso raro de intelectual brasileiro que nunca se reconciliou com a nossa miserável realidade. Os erros e acertos de sua intervenção jornalística, reunidos nesse livro, certamente ajudarão a compreender melhor uma obra tão rigorosa e desconcertante como a deixada por Florestan Fernandes.
Celso Frederico é professor da Escola de Comunicações e Artes da USP e autor de "Lukács, um Clássico do Século 20" (Moderna).