

Filosofia no mundo real
Mente, Linguagem e Sociedade
John Searle
Tradução: F. Rangel
Rocco (Tel. 0/xx/21/507-2000)
164 págs., R$ 22,00
PAULO ABRANTES
Este livro se dirige a um público de não-especialistas e não traz novidades para os que já conhecem os trabalhos anteriores de John Searle. Ele se propõe a fazer uma síntese da sua obra, tendo em vista capturar a unidade metafísica "subjacente" ao mundo natural, à mente e ao mundo da cultura.
Searle expõe-se ao fogo cruzado filosófico ao defender uma combinação de posições que o coloca em situação de relativo isolamento no cenário filosófico contemporâneo.
Aqueles que esperam ver nesse cenário traços "pós-modernos" serão surpreendidos por um modernismo iluminista fora de moda, que combina realismo, teoria da verdade como correspondência e otimismo quanto à progressividade das ciências. Os que consideram a mente como uma fronteira intransponível aos esforços de tornar o mundo inteligível encontrarão em Searle um filósofo que acredita no sucesso último de uma explicação neurofisiológica dos fenômenos mentais, incluindo seus "aspectos" de intencionalidade e qualitativos.
Aqueles que, do outro lado do campo filosófico, são afeitos a abordagens naturalistas e fisicalistas, avaliarão sua metafísica como "extravagante" (Daniel Dennett) e, em última instância, inconsistente e decepcionar-se-ão com o modo, no final das contas bastante tradicional, como Searle concebe as relações entre filosofia e ciência.
No esforço de síntese que empreende, a filosofia da mente é alçada a uma "filosofia primeira" e as discussões de temas nessa área ocupam a maior parte do livro, fato que se reflete nesta resenha. No que tange à "relação metafísica" entre a mente e o corpo, Searle defende o que denomina "naturalismo biológico", que enraíza a mente na natureza de organismos com uma constituição biológica particular, seus estados cerebrais causando estados mentais. Searle rejeita, contudo, o que denomina "materialismo", que entende como o programa de reduzir os estados mentais aos físicos, eliminando a consciência.
O termo "consciência" refere-se, ordinariamente, a diferentes capacidades. Mas há um crescente consenso, entre filósofos da mente, em considerar a "experiência qualitativa", em especial as qualidades ("qualia") associadas às nossas sensações, como o "problema difícil" (David Chalmers) no domínio da consciência. Thomas Nagel popularizou a expressão "what it is like to be X" -que poderíamos traduzir por "como é ser X"- referindo-se à experiência, frente ao mundo, de um indivíduo X, possuidor de uma estrutura cognitiva particular. A variável X pode ser substituída por um ente -um homem, um morcego (como prefere Nagel) ou um indivíduo de outra espécie- capaz de ter estados mentais conscientes.
Entro aqui nesses detalhes terminológicos para corrigir o erro de traduzir "it is like to be" por "modo de estar" (pág. 47). Isso torna ininteligível a discussão desse parágrafo e compromete, consequentemente, toda a discussão que faz Searle do problema da "consciência". "There is something that it is like to drink red wine..." (pág. 42, no original) é equivocadamente traduzido por "Existe um modo de beber vinho tinto" quando, na verdade, Searle está tentando dar exemplos das experiências qualitativas particulares de um indivíduo (supostamente da espécie humana) que prova um vinho ou ouve uma música. Nesse sentido, então, pode-se dizer que uma "casa" ou uma "árvore" (exemplos dados no mesmo parágrafo) não são "conscientes".
Um aspecto de particular interesse neste livro é um filósofo do quilate de Searle se propor a discorrer sobre o que considera específico no trabalho filosófico. Se ele, como vimos, considera-se um "naturalista" no plano ontológico, seguramente não o é no metodológico, apontando como uma das causas dos erros filosóficos a "aplicação dos métodos da ciência em áreas para as quais eles não são apropriados". Uma dessas áreas é, justamente, a dos fenômenos mentais.
Percebe-se uma tensão entre essa postura e, ao mesmo tempo, a defesa que faz de uma relação estreita da filosofia com as ciências. Searle afirma, efetivamente, que os objetivos da ciência e da filosofia são os mesmos: construir uma teoria "ao mesmo tempo verdadeira, explicativa e geral" dos fenômenos do mundo. Essa teoria deve ser adequada aos fatos. Os "fatos brutos" revelados pelos avanços no conhecimento científico, como por exemplo em neurofisiologia, podem exigir o abandono de "compromissos filosóficos".
Essa posição não é simpática para os que reivindicam uma total autonomia, ou mesmo uma precedência, da filosofia com respeito às ciências. Entretanto, os naturalistas mais convictos não ficam, tampouco, satisfeitos quando Searle restringe a tarefa da filosofia a mostrar, quando muito, por exemplo, que uma explicação neurofisiológica da consciência é "possível", aguardando que a ciência nos explique como estados neurofisiológicos causam "realmente" estados mentais conscientes. Para Searle, o trabalho filosófico é, sobretudo, o de analisar os pressupostos do "pano de fundo" ("background"), as "posições padrão" ("default positions") que precedem a reflexão, distinguindo as falsas das verdadeiras e, eventualmente, rejeitando as categorias mesmas nas quais estão formuladas.
As soluções filosóficas tradicionais para o problema mente-corpo, por exemplo, estariam marcadas por erros categoriais tão flagrantes que Searle se surpreende em como os seus pares, mesmo os mais ilustres, não o percebem, o que avalia como "um fato triste" da sua "profissão". Searle defende, surpreendentemente, as "posições padrão" associadas ao senso comum (como a posição realista, a posição que reconhece a existência da consciência etc.) -que considera em sua maioria verdadeiras- contra as posições defendidas por muitos filósofos. Quando lhe é conveniente, entretanto, como na sua crítica ao dualismo mente-corpo, ele se volta contra o senso comum. Searle abusa do qualificativo "óbvio" quando se trata de apresentar os seus pontos de vista e desautorizar os do adversário. O leitor deve saber que a solução que ele propõe para o problema mente-corpo (ou sua dissolução, como prefere) não é, contudo, nada "óbvia" para muitos especialistas na área, o que pode ser constatado nas discussões publicadas no livro de Searle "O Mistério da Consciência" (Paz e Terra, 1998).
Paulo Abrantes é professor do departamento de filosofia da Universidade de Brasília e autor de "Imagens de Natureza, Imagens de Ciência" (Papirus).