

RICARDO ANTUNES
Fibra da sociologia
Ensaios combatem ciência social da ordem e do mercado
POR UMA SOCIOLOGIA PÚBLICA
Michael Burawoy e Ruy Braga
ALAMEDA
284 p., R$ 44,00
Os leitores de Por uma sociologia pública estão diante de um livro inquieto, um “quase-manifesto” por uma sociologia crítica capitaneado por Michael Burawoy e Ruy Braga. O primeiro, conhecido sociólogo estudioso do trabalho e do operariado em tantas partes do globo, que deblatera contra os caminhos e descaminhos da sociologia dominante, com o olhar da sociologia norte-americana, mas querendo dialogar com as sociologias presentes na diversidade do mundo.
O segundo, que bem exemplifica a jovem geração de “sociólogos críticos” formados pela Unicamp, faz um balanço dos entendimentos e desentendimentos entre a sociologia e o marxismo. O resultado é um livro inquieto, um salutar mergulho no debate sociológico contemporâneo, propugnando uma renovação da “sociologia crítica” e do que os norte-americanos denominam “sociologia pública”.
Burawoy assina seis textos do livro, sendo “Por uma sociologia pública” e “Abrir as ciências sociais: para quem e para quê?” os que apresentam com mais densidade suas concepções sobre a “sociologia pública”. Sua tese mais central foi assim formulada: “Se o ponto de vista da economia é o mercado e sua expansão, e o ponto de vista da ciência política é o Estado e a garantia da estabilidade política, então o ponto de vista da sociologia é a sociedade civil e a defesa do social. Em tempos de tirania do mercado e de despotismo do Estado, a sociologia – em particular sua face pública – defende os interesses da humanidade”.
Ordem e mercado
Nas onze teses que conformam o primeiro ensaio, explora analiticamente os contornos da sua proposta: será mais pela disjuntiva entre as questões públicas e aquelas privadas que se poderá recuperar a “fibra moral da sociologia” e então realizar a “promessa e o desafio da sociologia pública, o complemento e não a negação da sociologia profissional”.
Procurando romper com o cerco da sociologia da ordem e do mercado, o autor afirma que a “sociologia pública” é composta e exercitada pelos sociólogos “orgânicos” que atuam nos sindicatos, associações de bairro, comunidades e grupos de imigrantes, organizações de direitos humanos etc, isto é, no seio da própria sociedade civil, tendo como desafio maior tornar “visível o invisível”, publicizando o espaço privado.
Para Burawoy há quatro tipos de conhecimento, quatro variantes sociológicas presentes na divisão do trabalho do sociólogo: a sociologia profissional, a crítica, a pública e aquela voltada para as políticas públicas. Estes quatro tipos de conhecimento representam não somente a “diferenciação funcional da sociologia”, mas contemplam também suas diferentes perspectivas.
O núcleo da polêmica desencadeada por Burawoy pode ser assim resumido: contra a privatização da sociologia, forte nos EUA, há uma sociologia pública que se expande globalmente, o que permite ao autor confrontar o núcleo dominante do pensamento social no Império. Se em tantos cantos do mundo a sociologia é predominantemente crítica, nos EUA essa vertente se converteu em uma pequena parcela da disciplina. E essa assertiva o faz sobrevalorizar a sociologia praticada em outras partes do mundo, vista como “crítica” em contraposição à sociologia da ordem norte-americana.
Áspera polêmica
O autor endereça, também, uma áspera polêmica contra Immanuel Wallerstein em sua crítica à divisão das disciplinas e sua conseqüente especialização, que limitaria as ciências sociais em direção à sua unificação (presentes no Relatório da Comissão Gulbenkian). Ao recusar a indagação central – conhecimento para quem? e conhecimento para quê? – e ao declarar a divisão das disciplinas como “produto arbitrário da história européia do século XIX”, Wallerstein acabaria, sempre segundo Burawoy, cometendo uma “falácia genética” e uma “fantasia positivista”, uma vez que a dissolução das fronteiras disciplinares e a unificação das ciências sociais “só poderia ser factível em um mundo totalitário”, onde inexistissem claras fronteiras entre Estado, mercado e sociedade civil.
O dissenso aqui é forte. Basta lembrar as indicações seminais de Lukács em direção à totalidade, bem como seu influxo ontológico acerca dos limites de uma sociologia separada da economia política e da teoria social, para que se perceba quão polêmicas são as formulações de Burawoy.
Ruy Braga assina quatro artigos na coletânea (dois em co-autoria). No excelente “O pêndulo de Marx...”, explora a tese de que há um campo fértil de aproximações entre a sociologia pública e o que denomina “marxismo aberto”. Dialogando em vasto espectro do marxismo contemporâneo, especialmente o francês (e em menor grau o anglo-saxônico), o autor busca os entendimentos e desentendimentos nas duas vertentes acima referidas. Localiza o campo maior de confluência tanto na crítica à naturalização e ao fetichismo, bem como na centralidade que ambos, sociologia pública e marxismo, atribuem à análise relacional dos processos e estruturas sociais.
Dialogando com as obras de Bourdieu, ancorado nas pistas de Gramsci e de E. P. Thompson, Ruy Braga encontra o espaço das consonâncias possíveis, não sem alertar onde reside o qui pro quo: a crítica de Bourdieu a uma dada concepção de “teleologização da classe operária” está atravessada pela dilemática da relação entre conhecimento científico e prática política.
De um lado, temos o discurso científico, uma “sociologia científica autêntica” sobre a sociedade civil e, de outro, um “conhecimento ordinário, cotidiano” dos sujeitos sociais. E essa disjuntiva, sempre recusada pelo melhor do marxismo desde Marx, é, então, estampada: a crítica científica da sociedade encontra-se refugiada do mundo real das classes subalternas.
E, acrescenta Braga, mesmo o último Bourdieu teve uma posição “ambígua” e mesmo “tensa” a esse respeito: o sociólogo francês criticou asperamente aqueles intelectuais que se pretendem separados da prática política, mas visualizava neste distanciamento o elemento necessário para que a crítica social não perdesse seu rigor científico. E é aqui que a formulação do sociólogo marxista Michael Burawoy entra como capaz de auxiliar, segundo Braga, na melhoria desta “ruidosa relação”.
A segunda parte do livro procura apontar alguns exercícios práticos de “sociologia crítica”, quer pelas possibilidades abertas com a introdução do ensino de sociologia no ensino médio, quer pelos estudos de trabalho e sindicalismo realizados nos EUA (Burawoy) e Brasil (Ruy Braga e Marco Aurélio Santana), quer ainda pelas indicações de Braga, Sylvia Garcia e Leonardo Mello Silva acerca da densa sociologia crítica de Florestan Fernandes e a emblemática teoria social de Francisco de Oliveira.
Estes comentários já bastam para mostrar onde se encontra o fulcro deste livro que persegue uma sociologia que recusa a neutralidade, pois, se assim não fosse, ela “teria tudo para tornar-se academicamente respeitável, mas ... irrelevante”, na síntese de Francisco de Oliveira.