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Nuno Ramos - 31 - Outubro de 1997
Estrela oculta
Foto do(a) autor(a) Nuno Ramos

Estrela oculta

 

NUNO RAMOS

É dura a profissão de comentarista, e não é difícil entender por quê. O futebol é o esporte em que o placar e o andamento do jogo mais se separam. Os gols são relativamente raros, e a riqueza extraordinária do jogo vem, justamente, desta assimetria, enraizada na própria vida, entre significado e quantificação. Talvez por isso permita a projeção de conteúdos tão complexos e sofisticados, chegando às vezes às raias da tragédia. O que se passa em campo quase nunca está perfeitamente expresso no placar. Todo grande jogo, no fundo, é um jogo injusto, um jogo que poderia ter sido diferente. Acho que o futebol é o único esporte no qual o arco do possível pesa tão severamente sobre a partida já concluída e é esta injustiça constitutiva que o comentário e a discussão procuram reparar, por meio da degustação lenta e verborrágica do que poderia ter sido e não foi.
O papel essencial do comentarista de rádio ou TV, no fundo, é fazer coincidir jogo e placar, canalizar a energia indecisa e contraditória, a promessa de tantas jogadas (em algum outro esporte a "jogada", independentemente do ponto, vale tanto?), para o despertar prosaico de um 0 x 0 ou 2 x 1. Este é, também, seu ponto cego, expresso quase comicamente no indefectível "nós dizíamos" ou "nós vínhamos alertando" que tantas vezes abre o comentário logo depois do gol. Em geral, o comentarista está ali para pacificar o espectador ou o ouvinte, para mostrar a ele que o placar tem razão, cimentando seu caminho de volta à efetividade do apito final.
Durante a Copa de 1994, Eduardo Gonçalves, o Tostão, iniciou sua carreira de comentarista, depois de 21 anos dedicados à medicina. Quem assistiu à Copa pela TV Bandeirantes logo se deu conta da diferença. Não era tanto o fato de enxergar melhor o jogo que chamava a atenção, mas o enfoque distanciado, procurando encontrar as linhas de força que organizavam a partida, sempre fugindo à tirania do placar. Para avaliar a justiça do resultado, por exemplo, Tostão enfatiza o critério de chances de gol, em que o possível recobra um pouco dos seus direitos. A meta de seus comentários parece ser essa região difícil de definir, onde jogar bem e ganhar, ou jogar mal e perder, se encontram, ou seja: onde o jogo faz, ou não faz, "sentido". Talvez Tostão seja o primeiro comentador que não justifica o jogo, mas realmente o interpreta, considerando o placar como um de seus aspectos e, consequentemente, o futebol como problema.
O livro que agora publica fornece algumas pistas para a constituição deste ponto de vista, além de um acesso curioso à personalidade de um de nossos maiores jogadores em qualquer tempo e, talvez, o mais inteligente entre eles. Pois, antes de mais nada, o futebol para Tostão é de fato um "problema", um destino parcial que parece tê-lo tomado por inteiro, e de forma quase mística, apenas na campanha de 70.
Tostão passou grande parte de sua vida circunscrevendo seu enorme talento, dando-lhe proporção e finitude, dividido entre o gosto pelo reconhecimento e o sonho de uma casa numa praia deserta, analisando os próprios defeitos, imaginando-se um homem comum, antecipando o encerramento da carreira. Antecipar, antever, estar lá antes, constituem o mote recorrente e quase obsessivo do livro. "O craque é aquele que antevê a jogada, pensa antes dos outros" (pág. 112); "Eu me destacava (...) principalmente pela capacidade de antever a jogada" (pág. 26); "O artilheiro (...) sabe antes dos outros onde a bola vai chegar" (pág. 18); "O grande marcador é aquele que antevê o passe" (pág. 107); "Jean Claude Killy, famoso esquiador francês, treinava mentalmente usando o cronômetro e conseguia quase o mesmo tempo que no salto real" (pág. 29). O gosto pelo treinamento, inclusive depois do horário normal, ou a aplicação nos estudos durante a carreira de medicina, têm este mesmo sentido de prevenção e antecipação, cujo reboco é o autoconhecimento.
O "conhece-te a ti mesmo" de Eduardo Gonçalves, no entanto, não se restringiu ao futebol de Tostão. Daí o esforço constante, melancólico e algo obsessivo, de ombrear o futebol com as demais atividades da vida, de vê-lo apenas como circunstância e "lazer responsável". "Aos 18 anos, optei pelo futebol. (...) Suspendi temporariamente o sonho juvenil de ter uma profissão liberal, adquirir cultura e salvar o mundo" (pág. 22). O futebol, sonho não-realizado de milhões de torcedores, aparece, a quem o realizou por inteiro (foi o único contemporâneo, além de Garrincha, a ser efetivamente comparado a Pelé), como o adiamento de um sonho.
Este enorme esforço de contenção e medida, que beira muitas vezes a melancolia ("tenho também uma melancolia intermitente, que não me deixa correr mais rápido atrás dos meus sonhos", pág. 104) e parece acompanhá-lo desde pequeno, é responsável pelas inúmeras qualidades do livro e também por seus defeitos. Na verdade, tudo o que é excessivamente individuado escapa à visão de mundo de Eduardo Gonçalves, e talvez o artilheiro do Mineirão (na verdade, fez um a menos que Reinaldo, mas sua média por jogo é maior), assim como artilheiro também das eliminatórias de 69 (10 gols de um total de 23), tenham ficado um pouco de lado (afinal, nada é mais egóico do que fazer um gol).
Sua enorme generosidade na avaliação de terceiros, a ausência de qualquer ressentimento, a justeza da crítica, lembram o grande "passador" que foi Tostão. É visível, no livro, sua preferência pelo passe. Talvez o momento mais belo seja a descrição de dois passes seus contra o Uruguai, aquele por trás da zaga que Clodoaldo concluiu, empatando o jogo e, principalmente, aquele milimétrico, no calcanhar do zagueiro, quase derrubando-o e deixando Jair na cara do gol para fechar o placar. Mesmo os dribles antológicos, como a sequência contra a Inglaterra, um deles pelo meio das pernas de Bobby Moore, que abriram a defesa para nosso único gol, ficam em segundo plano, já que o passe (perfeito) para Pelé não foi propriamente calculado, antecipado, mas contou com uma boa dose de acaso e de sorte.
Este é também um livro de memórias, no entanto, e talvez porque seja difícil antecipar-se às próprias lembranças, é aí que suas dificuldades realmente aparecem. Uma espécie de bruma fria recobre as histórias, sempre contadas de modo excessivamente impessoal e genérico, dispostas em parágrafos descosidos. Há uma enorme dificuldade de encontrar o detalhe que desperta o sentido, resultado, talvez, da indefinição entre primeira e terceira pessoa.
O narrador parece ter pouca cumplicidade com aquilo que relembra e talvez por isto surja às vezes uma voz adulta e intelectualizada, pondo ordem na casa e fazendo comentários genéricos, além de um tanto óbvios. A respeito das tabelas com Pelé, um dos capítulos mais altos da história do futebol brasileiro, conclui: "A comunicação analógica, corporal, não-verbal, inconsciente é muito mais rica que a comunicação digital, consciente, por meio da palavra" (pág. 75). Seu pai, que o incentivou desde pequeno, distribuía bananas para o time inteiro. "A banana tem vitaminas e é riquíssima em potássio, elemento vital, que se perde muito com o esforço. Sua falta é uma das razões da cãibra muscular" (pág. 15).
No entanto, como naquela cena famosa após a final contra a Itália, em que o público foi tirando sua roupa peça por peça, o livro tem muito de um desnudamento. Mas será que quem lembra é o mesmo que viveu? "Eu tinha de viver outras vidas" (pág. 102); "(...) no meio do caminho existe a vida" (pág. 111). No fundo, talvez a vida que o futebol lhe deu seja, para Eduardo Gonçalves, uma estrela oculta, já sem brilho próprio, mas de massa escura suficientemente poderosa para reger ainda o seu destino. Daí sua dificuldade para achar o tom e a distância, ao contrário do comentarista Tostão que, ao vivo, diante da efetividade do jogo, consegue interpretá-lo com facilidade, encontrando o seu sentido para além do resultado. Eduardo Gonçalves, no entanto, com sua natureza amadora, sua compreensão de que a vida poderia ter sido diferente, seu apreço pelos aspectos menos sensacionais do dia-a-dia, sua separação rigorosa entre o íntimo e o público, seu interesse pelas carreiras que não se completaram, talvez procure coisa semelhante: o sentido de sua vida para além do Tostão. 

Nuno Ramos é artista plástico.
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