


Energia tem sido e continuará a ser o fiel da balança do desenvolvimento da vida no planeta. A questão é com que energia devemos seguir adiante, ou, numa formulação mais realista, que energia nos levará mais longe? Esse dilema, no Brasil, mais do que em qualquer outro país, passa pela controvérsia sobre os biocombustíveis.
Este livro colige, sem pré-juízos, posições variadas, mas nunca infundadas, sobre a situação atual e sobre o futuro dos biocombustíveis entre nós (e, obliquamente, no mundo), ajudando a dimensionar melhor o alcance e as implicações das decisões que o país vai tomando no campo da energia.
Os argumentos, contra e a favor, vão desde os conflitos por mercados e o protecionismo dos países ricos, até o tema da segurança alimentar, usados à boa e à má-fé por militantes ambientalistas, e as perspectivas de desenvolvimento tecnológico e social para países em desenvolvimento. Não faltam números, de parte a parte, para amparar os pontos de vista, e nem coerência argumentativa de seus defensores, o que deixa o leitor sem um critério claro pelo qual possa medir as promessas e perigos do projeto brasileiro de biocombustíveis e, assim, tomar partido no debate. Não é o que promete o organizador. Isso seria prematuro, é preciso admitir. Porém, não porque o tema seja novo para nós, mas porque a controvérsia madura, acadêmica e republicana de temas de interesse nacional ainda o é.

A lista dos entrevistados por Ricardo Arnt, jornalista com passagens por alguns dos principais meios de comunicação do país, não podia conter um poeta, menos ainda o poetinha, mas este poderia dar a pista para uma síntese do que, no íntimo e no longo prazo, pensam os economistas sobre sustentabilidade: manter como se infinito fosse, o que, por ser chama, é mortal. Economistas, porque tudo é mortal, não gostam do longo prazo. Arnt, porém, consegue, tanto quanto o debate sobre os rumos do desenvolvimento brasileiro nos últimos cinquenta anos tem de ser confrontado com os temas do meio ambiente, extrair-lhes algo.
As entrevistas, conduzidas sem um rol fixo de perguntas, mas à marcha espontânea da conversa, estão encimadas por pequena biografia, útil, sobretudo, para alguns detalhes, já que aqueles que se sentaram com o organizador do volume entre 2009 e 2010 são figuras conhecidas, a maior parte delas, públicas: representantes dos estratos mais altos da elite dos economistas brasileiros. Se não pelos projetos de longo prazo, que, como disse, não são do gosto de economistas, então o livro importa para quem quer compreender o Brasil de hoje sob a perspectiva das crescentes demandas ambientais e à luz da visão pessoal daqueles que traçaram as políticas econômicas da nação nas últimas cinco décadas e foram delas partidários ou detratores, mas, em qualquer caso, argutos analistas.

A economia política ganhou, no séc. XIX, sobretudo no âmbito das correntes de pensamento derivadas do marxismo, uma dimensão ética. A ética, entretanto, nunca veio em auxílio da disciplina quando se tratava de explicar o que lhe competia. Sem dúvida, isso conta entre as razões para que sua credibilidade acadêmica se veja hoje abalada. Outra razão, contudo, está na própria natureza iluminista e antropocêntrica de seu aporte ético, pouco sensível às demandas ambientalistas contemporâneas.
O livro de André Gorz, uma coletânea de artigos cobrindo mais de trinta anos de vida e militância do autor, encontra, na adição do elemento ecológico, a brecha adequada para cumprir, de modo aparentemente radical, a tarefa reformadora da economia política. Em vez de economia, Gorz nos oferece uma ecologia política. Os textos, dá-se conta o leitor em poucas páginas, valem-se da mesma matriz de análise da economia política marxista tradicional, agora com o verniz da ecologia, que é aplicado à análise como uma película adicional e atual de ética. O resultado é mais do mesmo, porém, mais verde. Vale a leitura como um registro de uma época, de uma geração; como o registro de um tipo de análise, cuja subserviência a um projeto político (e ético) maculou seu alcance explicativo, e que tentou, a partir da crise que culminou na queda do muro de Berlin, reencontrar, sem muita originalidade, seu lugar num mundo preocupado com as questões ambientais.