

ENEIDA MARIA DE SOUZA
Espelho de tinta
Romance recria clima sombrio de São Petersburgo
O FILHO DA MÃE
Bernardo Carvalho
COMPANHIA DAS LETRAS
208 p., R$ 39,00
Um dos traços marcantes da literatura contemporânea é o alto nível de deslocamento e de estranhamento do sujeito-escritor no discurso, traço que comprova a complexa sensibilidade literária de nosso tempo. O deslocamento literal e metafórico dos parâmetros modernos nacionalistas responde hoje por uma ficção politicamente engajada nos dramas sociais, situados aqui e além dos territórios e dos interesses locais.
O estranhamento é decorrência do estatuto de estrangeiro conferido ao escritor, ao se encontrar em constante processo de dessubjetivação. Diante da inevitável perda de identidade autoral, aliada ao esforço de entender o aspecto heterogêneo e mestiço das manifestações culturais, a literatura afasta-se das aventuras imaginárias do passado, pautadas pela nostalgia da origem.
Ser um autor brasileiro
O que, na realidade, significa ser um autor brasileiro hoje? Ou esta pergunta carece de sentido? Qual seria a aspiração de qualquer escritor que se preze, a de ser reconhecido apenas no país de origem ou no resto do mundo? Quais os tipos de linguagem e de abordagem temática são reservados para a conquista da notoriedade nacional e estrangeira, num momento em que as diferenças contextuais tendem a ser devoradas pelo apelo à padronização estética e cultural?
Os títulos mais recentes de Bernardo Carvalho, incluindo O filho da mãe, confirmam a saída romanesca para outros lugares, como Mongólia e Rússia (Mongólia, 2003), passando pelo diálogo entre Brasil e Japão em O sol se põe em São Paulo (2007). A experiência do contato com o estrangeiro não se configura apenas enquanto ligada ao exterior e ao fora, mas por ser manifestação do outro, reflexo invertido do sujeito/escritor. A escrita autobiográfica, comparada ao “espelho de tinta” por Michel Beaujour, encontra ressonâncias na ficção de Carvalho, por manter o movimento paradoxal de proximidade e distanciamento entre literatura e vida, ficção e documento.
Como parte do projeto intitulado “Amores Expressos”, O filho da mãe se passa na cidade de São Petersburgo, com rápidas cenas em Moscou, no mar do Japão, no Oiapoque, e em outros lugares da Rússia. O tema da maternidade se articula com o da guerra, do amor e da morte, sentimentos contraditórios responsáveis por momentos de rara beleza na narrativa.
O estranhamento, que à primeira vista o livro provoca no leitor, deve-se à sua produção gráfica e ao sentido do título, sugerindo ambos uma publicação nos moldes de pulp fiction, ficção que explora temas menos nobres, de natureza popular e de massa. A capa do livro lembra a de um exemplar velho e usado, em diálogo com a acepção residual do título, xingamento que remete à bastardia, traço irônico atuante nos dramas centrais do romance.
Quem imagina São Petersburgo como a cidade literária por excelência, povoada de personagens que transitam nas ruas, como os funcionários de Gogol ou o próprio escritor Dostoiévki, se depara com os fantasmas que essa mesma literatura consagrou, graças ao clima sombrio e misterioso aí recriado por Carvalho. O cenário em construção das ruínas da cidade – em 2003, às vésperas da comemoração de seus 300 anos – constitui a alegoria deste romance: os resíduos do passado político e cultural do país presentificam-se no descompasso entre a liberdade revolucionária e a máquina ditatorial e corrupta do Estado. Envolvidos nesse clima sufocante, dois jovens “estrangeiros” encontram o amor e a morte como único recurso para ultrapassar as trezentas pontes de São Petersburgo.
Os protagonistas – Ruslan, nascido na Chechênia e Andrei, fruto da união de um exilado político brasileiro e uma russa, natural de uma cidade fronteiriça com a China – vêem-se em constante conflito com o tecido urbano, dotado de visibilidade e controle. Fogem, escondem-se e unem-se perigosamente nos prédios abandonados: “De alguma forma, Ruslan passou a associar o amor ao risco e à guerra, porque não conhecia outra coisa. Associou o sexo à trégua (o desejo deixava a realidade em suspenso) e o amor à iminência da perda. E daí em diante só conseguia amar entre ruínas”.
Pacto escritor/leitor
O enredo de O filho da mãe obedece aos malabarismos próprios da técnica parapolicial, pela inversão da ordem narrativa e a produção de suspense, um convite ao diálogo ficcional. Esse pacto entre escritor e leitor é uma das razões do sucesso editorial de Bernardo Carvalho, por ser a trama policialesca e investigativa uma das mais atraentes modalidades da literatura de nossos dias. Mas, além da construção engenhosa do enredo, o livro denuncia as ruínas do ambiente artístico, literário e político da cidade de São Petersburgo para encenar as contradições e os problemas existenciais causados pelos problemas multiculturais. A ausência de sentimento patriótico entre os jovens permite considerar os dramas sob os âmbitos local e global, entendendo-se essa articulação como justificativa para o abandono da postura nacionalista em literatura ou em outra manifestação artística.
Os amores expressos exibidos em O filho da mãe alternam-se entre o sentimento materno e o desamparo dos filhos em meio às crueldades da guerra e à relação amorosa entre os dois rapazes. O desfecho do romance metaforiza-se na formação do jogo especular entre a cena final envolvendo Andrei e a morte do bezerro recém-nascido – disforme e produto da mistura de dois embriões, portador de mau agouro, “o filho da mãe” –, e a passagem anterior referente à carta deixada por Ruslan e lida por Andrei, reportando um fato de infância presenciado nas montanhas. Trata-se do nascimento monstruoso de um potro, mais tarde por ele reconhecido como a versão aproximada da quimera, animal mítico composto pela mistura de vários animais. É ainda o título do segundo capítulo do livro.
A eliminação do diferente se realiza no romance nos planos animal e humano, por meio dos quais se apaga a imagem do duplo como espelho do sujeito e de seu outro. A união “monstruosa” e o conseqüente extermínio entre iguais se processa tanto no nível do enredo amoroso quanto no da proposta do livro, que é a de considerar a invenção de histórias em terras estranhas o espelho invertido de experiências pessoais.
A literatura como destino, este espelho de tinta, se realiza de forma admirável em O filho da mãe.