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Eneida Maria de Souza - 106 - Junho de 2016
Espelho de tinta
Romance recria clima sombrio de São Petesburgo
Foto do(a) autor(a) Eneida Maria de Souza

ENEIDA MARIA DE SOUZA

Espelho de tinta

Romance recria clima sombrio de São Petersburgo

 

O FILHO DA MÃE

Bernardo Carvalho

COMPANHIA DAS LETRAS

208 p., R$ 39,00 

 

 

Um dos traços marcantes da literatura contemporânea é o alto nível de deslocamento e de estranhamento do sujeito-escritor no discurso, traço que comprova a complexa sensibilidade literária de nosso tempo. O deslocamento literal e metafórico dos parâmetros modernos nacionalistas responde hoje por uma ficção politicamente engajada nos dramas sociais, situados aqui e além dos territórios e dos interesses locais.

O estranhamento é decorrência do estatuto de estrangeiro conferido ao escritor, ao se encontrar em constante processo de dessubjetivação. Diante da inevitável perda de identidade autoral, aliada ao esforço de entender o aspecto heterogêneo e mestiço das manifestações culturais, a literatura afasta-se das aventuras imaginárias do passado, pautadas pela nostalgia da origem.

 

Ser um autor brasileiro

 

O que, na realidade, significa ser um autor brasileiro hoje? Ou esta pergunta carece de sentido? Qual seria a aspiração de qualquer escritor que se preze, a de ser reconhecido apenas no país de origem ou no resto do mundo? Quais os tipos de linguagem e de abordagem temática são reservados para a conquista da notoriedade nacional e estrangeira, num momento em que as diferenças contextuais tendem a ser devoradas pelo apelo à padronização estética e cultural?

 Os títulos mais recentes de Bernardo Carvalho, incluindo O filho da mãe, confirmam a saída romanesca para outros lugares, como Mongólia e Rússia (Mongólia, 2003), passando pelo diálogo entre Brasil e Japão em O sol se põe em São Paulo (2007). A experiência do contato com o estrangeiro não se configura apenas enquanto ligada ao exterior e ao fora, mas por ser manifestação do outro, reflexo invertido do sujeito/escritor. A escrita autobiográfica, comparada ao “espelho de tinta” por Michel Beaujour, encontra ressonâncias na ficção de Carvalho, por manter o movimento paradoxal de proximidade e distanciamento entre literatura e vida, ficção e documento.

Como parte do projeto intitulado “Amores Expressos”, O filho da mãe se passa na cidade de São Petersburgo, com rápidas cenas em Moscou, no mar do Japão, no Oiapoque, e em outros lugares da Rússia. O tema da maternidade se articula com o da guerra, do amor e da morte, sentimentos contraditórios responsáveis por momentos de rara beleza na narrativa.

O estranhamento, que à primeira vista o livro provoca no leitor, deve-se à sua produção gráfica e ao sentido do título, sugerindo ambos uma publicação nos moldes de pulp fiction, ficção que explora temas menos nobres, de natureza popular e de massa. A capa do livro lembra a de um exemplar velho e usado, em diálogo com a acepção residual do título, xingamento que remete à bastardia, traço irônico atuante nos dramas centrais do romance.

Quem imagina São Petersburgo como a cidade literária por excelência, povoada de personagens que transitam nas ruas, como os funcionários de Gogol ou o próprio escritor Dostoiévki, se depara com os fantasmas que essa mesma literatura consagrou, graças ao clima sombrio e misterioso aí recriado por Carvalho. O cenário em construção das ruínas da cidade – em 2003, às vésperas da comemoração de seus 300 anos – constitui a alegoria deste romance: os resíduos do passado político e cultural do país presentificam-se no descompasso entre a liberdade revolucionária e a máquina ditatorial e corrupta do Estado. Envolvidos nesse clima sufocante, dois jovens “estrangeiros” encontram o amor e a morte como único recurso para ultrapassar as trezentas pontes de São Petersburgo.

Os protagonistas – Ruslan, nascido na Chechênia e Andrei, fruto da união de um exilado político brasileiro e uma russa, natural de uma cidade fronteiriça com a China – vêem-se em constante conflito com o tecido urbano, dotado de visibilidade e controle. Fogem, escondem-se e unem-se perigosamente nos prédios abandonados: “De alguma forma, Ruslan passou a associar o amor ao risco e à guerra, porque não conhecia outra coisa. Associou o sexo à trégua (o desejo deixava a realidade em suspenso) e o amor à iminência da perda. E daí em diante só conseguia amar entre ruínas”.

 

Pacto escritor/leitor

 

O enredo de O filho da mãe obedece aos malabarismos próprios da técnica parapolicial, pela inversão da ordem narrativa e a produção de suspense, um convite ao diálogo ficcional. Esse pacto entre escritor e leitor é uma das razões do sucesso editorial de Bernardo Carvalho, por ser a trama policialesca e investigativa uma das mais atraentes modalidades da literatura de nossos dias. Mas, além da construção engenhosa do enredo, o livro denuncia as ruínas do ambiente artístico, literário e político da cidade de São Petersburgo para encenar as contradições e os problemas existenciais causados pelos problemas multiculturais. A ausência de sentimento patriótico entre os jovens permite considerar os dramas sob os âmbitos local e global, entendendo-se essa articulação como justificativa para o abandono da postura nacionalista em literatura ou em outra manifestação artística.

Os amores expressos exibidos em O filho da mãe alternam-se entre o sentimento materno e o desamparo dos filhos em meio às crueldades da guerra e à relação amorosa entre os dois rapazes. O desfecho do romance metaforiza-se na formação do jogo especular entre a cena final envolvendo Andrei e a morte do bezerro recém-nascido – disforme e produto da mistura de dois embriões, portador de mau agouro, “o filho da mãe” –, e a passagem anterior referente à carta deixada por Ruslan e lida por Andrei, reportando um fato de infância presenciado nas montanhas. Trata-se do nascimento monstruoso de um potro, mais tarde por ele reconhecido como a versão aproximada da quimera, animal mítico composto pela mistura de vários animais. É ainda o título do segundo capítulo do livro.

A eliminação do diferente se realiza no romance nos planos animal e humano, por meio dos quais se apaga a imagem do duplo como espelho do sujeito e de seu outro. A união “monstruosa” e o conseqüente extermínio entre iguais se processa tanto no nível do enredo amoroso quanto no da proposta do livro, que é a de considerar a invenção de histórias em terras estranhas o espelho invertido de experiências pessoais.

A literatura como destino, este espelho de tinta, se realiza de forma admirável em O filho da mãe.

 

 

 

Eneida Maria de Souza é professora de literatura da UFMG.
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