

Especular sobre o futuro
JESUS DE PAULA ASSIS
Triste época em que não se pode mais falar do futuro. E mais triste ainda que a época seja justamente esta, em que um cientista com a experiência (e o texto, pois se trata de um bom escritor) de um Freeman Dyson não possa falar nada além do "é provável", "é pouco provável". Esse comedimento acaba sendo a grande virtude e a grande decepção de "Mundos Imaginados".
Dyson, um inglês radicado há meio século nos EUA, é professor em Princeton e conhecido divulgador de ciência. Neste livro, resultado de uma série de palestras dadas em 1995, seu propósito é especular um pouco sobre o futuro, baseando-se no que está disponível na ciência atual e seguindo a linha da ficção científica: "Descobri que a ficção científica é mais esclarecedora do que a ciência para compreender como a tecnologia é vista por pessoas situadas fora da elite tecnológica. A ciência proporciona o "input' técnico para a tecnologia; a ficção científica nos exibe o "output' humano".
Há pouco mais de cem anos, outro inglês especulava em termos puramente fictícios sobre como seria o futuro. H.G. Wells (1866-1946) escreveu "A Máquina do Tempo" como uma distopia admonitória: se o mundo prosseguisse na batida do modelo de industrialização inglês vitoriano, o resultado seria uma especiação da humanidade, com os ricos e ociosos tornando-se indolentes e fracos e os operários miseráveis tornando-se fortes e brutais. A radicalidade de Wells apresenta os miseráveis do futuro (os Morlocks) vivendo em subterrâneos e usando os Elois (os descendentes dos ociosos) como alimento.
Apesar de excepcionalmente influente, a imagem criada por Wells -com esse livro e outros que produziu entre 1895 e 1900- foi renegada pelo próprio autor que, em 1902, com seu "Anticipations", começou a pintar futuros mais aprazíveis, utopias científicas igualmente didáticas, só que com sinal trocado: em vez de educar pela exposição de consequências negras de atos do presente, é melhor, pesava Wells, mostrar o futuro que se pode ter, desde que a razão (científica) seja colocada como árbitro de todos os afazeres humanos.
Dyson usa justamente o autor de "A Máquina do Tempo" como guia e, quando se refere à ficção científica (na vertente informada e inteligente do termo), fala de Wells e de outro britânico menos conhecido, Olaf Stapledon (1886-1950). Mas, diferentemente desses, vive numa era em que todas as especulações se tornaram falsas. Da perspectiva de 1998, a poucos anos da passagem do milênio, está-se em um ponto privilegiado de observação. O ano 2000 (ou 2001) já não trará o transporte aéreo individual (uma certeza dos anos 40 e 50) nem a destruição nuclear do planeta nem a inteligência fria de HAL-9000 nem sequer o modestíssimo "bug do milênio", que já não assusta ninguém. Tudo o que se sabe é que toda previsão é mais que simplesmente arriscada: é quase certamente falsa.
A OBRA Mundos Imaginados Freeman Dyson Tradução: Cláudio Weber Abramo Companhia das Letras (Tel. 011/866-0801) 160 págs., R$ 19,00 |
A partir disso, e sendo um cientista temperado por uma saudável desconfiança com respeito à sua própria atividade -"o principal benefício social proporcionado pela ciência pura em terrenos esotéricos (isto é, bem afastados de aplicações práticas) é funcionar como programa de previdência para cientistas e engenheiros"-, Dyson oferece pouco mais que vistas de um século 21 dominado pela genética, mais que pela informática e pela pesquisa espacial não-tripulada, a qual, uma vez terminada a era da corrida espacial como afirmação nacional, mostra-se mais barata e igualmente eficiente em termos de obtenção de conhecimento.
O mundo imaginado do autor envereda por aspectos bem mais interessantes quando os "gadgets" são deixados de lado e certas tendências de longo alcance são examinadas. Nesse aspecto, a grande idéia para o século 21 é a descentralização da pesquisa relevante em ciência devido ao barateamento e à consequente acessibilidade dos produtos informatizados. Dyson dá dois exemplos: o CAD-CAM e a astronomia digital. Ambos têm em comum o fato de a microinformática ter tornado ferramentas profissionais acessíveis a um público mais amplo. Hoje, um projetista pode trabalhar em casa apenas com um micro e algum programa de CAD-CAM (softwares para desenho industrial) e ter seu próprio "escritório" de arquitetura. Na astronomia, os dispositivos de CCD (que transformam sinais luminosos em imagens digitais), antes caros e inacessíveis, estão hoje em qualquer câmera digital amadora e podem ser acoplados a telescópios. Astrônomos amadores, assim armados de ferramentas de alto nível, podem fornecer aos profissionais aquela massa de dados que seria impossível de se obter contando apenas com pessoal especializado e financiamento acadêmico.
Ao lado dessa democratização da ciência, estarão cada vez mais disponíveis as possibilidades abertas pela engenharia genética, desde o projeto de cães de estimação até o de bebês humanos. Os próximos anos trarão coisas que não podem ser previstas, mas, de qualquer forma, o passado ensinaria duas coisas: primeiro, que o homem resolve os problemas que cria e, segundo, que a literatura futurista sempre trilhou o caminho errado e, se quiser acompanhar o passo, precisa descobrir que, até hoje, "(fracassou) em dar crédito às pessoas comuns em sua resistência aos efeitos homogeneizadores da tecnologia moderna". Enfim, se o homem não vai se livrar de seus problemas, sabe pelo menos que os que enfrentará serão novos e que o "Grande Irmão" não deverá estar entre eles. Mas isso só vale se se acreditar em previsões, coisa em que Dyson, em grande medida, não acredita.
Jesus de Paula Assis é redator free-lance e editor.