

AFRÂNIO CATANI
No ambiente escolar
Dilemas dos procedimentos de ensino e de avaliação
ENTRE OS MUROS DA ESCOLA
François Bégaudeau
Tradução: Mariana Ribeiro Leite
MARTINS
260 p., R$ 29,90
Os docentes e membros da administração escolar se chamam Luc, Gilles, Claude, Daniele, Élise, Chantal, Martin, Serge, Marie, Valérie, Sylvie, Léopold. Aluno(a)s têm prenomes como Mohammed, Amar, Souleymane, Alyssa, Hadia, Djibril, Hinda, Mariama, Gibran, Mezut, Line, Ming, Liquiao, Jiajia, Youssouf, Dico, Dianka. O cenário é uma escola pública da periferia de Paris, com jovens de 13 a 15 anos, franceses, antilhanos, chineses, malineses, marroquinos. A escola é organizada, os professores têm bons salários e a exigência escolar é de alto nível.
A edição francesa deu origem ao filme de Laurent Cantet, laureado em Cannes (2008). Nas palavras de Bégaudeau – professor em escolas públicas, autor de romances e de biografia dos Rolling Stones –, seu livro “não procura mostrar tensões étnicas, mas, antes de tudo, os mal-entendidos entre um adulto e um adolescente em um ambiente escolar”.
No sistema de ensino francês o professor e a escola são absolutos e ai dos alunos que não se adaptarem às categorias do juízo professoral: serão alvo de sarcasmos e de correções por vezes humilhantes. Na impossibilidade de políticas educacionais que considerem diferenças étnicas e culturais, o sistema se estrutura em torno de rigorosas avaliações e pesada carga disciplinar. Os professores, às vezes, parecem à beira de um ataque de nervos, na impossibilidade de gerir os conflitos e disfunções que emergem na escola, mas são produtos da sociedade.
A ESCOLA E A LETRA
Flávio Aguiar e Og Dória (orgs.)
BOITEMPO
216 p., R$ 49,00
A antologia contém textos da literatura brasileira de distintas épocas, tendo por tema a escola e os processos de ensino e aprendizagem em nossa sociedade. Divide-se em quatro grandes partes que abarcam desde os povos nativos antes da chegada dos europeus à atualidade. A escola e a letra está editado em formato de grande revista, com cada texto dotado de cor e diagramação próprias, segundo projeto gráfico de Ricardo Ohtake.
O conto e a crônica dão o tom, mas há partes de romances, trechos de memórias, poemas e cenas de dramaturgia, além de textos sobre o processo de ensino/aprendizagem fora da escola: nas ruas, nos bares, nas academias de ginástica, na guerra. Ao final de cada excerto aparecem breves notas sobre o autor e a obra selecionada, procurando situar o leitor no emaranhado das filiações e influências literárias.
Há escritos de quase cinco dezenas de escritores, a maioria deles quase sempre presentes em coletâneas sobre literatura brasileira – casos de, entre outros, Antônio Vieira, Gregório de Matos, Castro Alves, Machado de Assis, Mário de Andrade, Drummond, Jorge Amado, Graciliano Ramos, Clarice Lispector. Mas há novidades, algumas inesperadas: Ivan Ângelo, Luiz Vilela e, em especial, o pouco conhecido Meir Kucinski (1904-1976), que se expressava em iídiche, com o conto “Neurose”.
AVALIAR PARA APRENDER: FUNDAMENTOS, PRÁTICAS E POLÍTICAS
Domingos Fernandes
EDITORA UNESP
234 p., R$ 35,00
Domingos Fernandes discute o papel da escola no processo de formação dos cidadãos a partir dos atuais modelos de avaliação educacional. Um dos desafios do sistema educacional é conseguir que os alunos tenham acesso a uma educação que possibilite sua integração na sociedade. Prevalecem modelos que dão ênfase ao ensino de procedimentos rotineiros que pouco mais exigem dos alunos do que a reprodução de informação previamente transmitida; critérios de avaliação pouco integrados ao ensino e à aprendizagem e orientados, sobretudo, para atribuir classificações. Não é por outra razão que dezenas de milhares de alunos são reprovados, já a partir de seis ou sete anos.
Para o autor uma nova concepção de avaliação, enriquecida por “teorias de aprendizagem”, vem contestando muitas crenças tradicionais. As neurociências, a psicologia cognitiva, as abordagens culturalistas, dentre outras, tendem a transformar a situação.
O livro não é apenas um texto a mais: com seu atualizado estado da arte enuncia medidas simples que têm possibilidades de ser concretizadas com meios relativamente modestos, procurando escapar a conhecidos versos de seu compatriota Miguel Torga: “tudo lembra/ a inútil persistência/ de um rio a correr pro mar:/ o mar nunca fica doce”.