

Epifania negativa
Wander Melo Miranda
Amuleto
Roberto Bolaño
Tradução: Eduardo Brandão
COMPANHIA DAS LETRAS
136 p., R$ 33,00
Escondida por semanas num banheiro da Faculdade de Filosofia e Letras, na cidade do México, a artista uruguaia Auxilio Lacouture, “mãe da poesia mexicana”, assiste à invasão da universidade por tropas militares em setembro de 1968. Desse ponto privilegiado e inusitado de observação, delira, lembra, profetiza - narra: “Estiquemos o tempo como a pele de uma mulher desacordada na sala de operações de um cirurgião plástico”.
O episódio, retirado de Os detetives selvagens (1998), desdobra-se em Amuleto (1999) na forma de uma narrativa que se confunde com a história - “um conto curto de terror”. Por isso o livro sintetiza, como nenhum outro de Bolaño, a função principal que o escritor reivindica para sua obra, a de ser uma “uma carta de amor ou de despedida para própria geração”.
A demanda afetiva a esse outro familiar e estranho, ao mesmo tempo leitor e escritor, sempre foi uma tarefa recorrente dos narradores de Bolaño. Apelam para a condição de exílio e deslocamento das personagens que criam, seres geralmente meio marginais, meio poetas, em sintonia com a condição errante da escrita. O recurso à figura da comparação, acentuado em Amuleto, distende ou comprime a realidade da “intempérie latino-americana”, rumo a perspectivas e horizontes imagísticos inesperados.
Nesse processo, linguagem e ação, vida e obra, perdem seus limites, pois “não estar preso a lugar nenhum” é “fazer da nossa vida uma arte”. Ao contrário de Borges, de quem o escritor chileno era admirador confesso, não se trata de viver ou ver o mundo como uma biblioteca, mas de viver a biblioteca como um mundo alucinado, cujas leituras-experiências fogem a qualquer controle. Arturo Belano, alter-ego de Roberto Bolaño, pode então circular livremente pelas páginas de seus livros.
A meia-realidade que é a ficção, assim configurada, exige a busca de um texto novo, que possa dar conta do trânsito incessante, no tempo e espaço, que coube à geração de Bolaño experimentar, ora sob a égide das ditaduras da América Latina, ora sob o regime dos deslocamentos globais na passagem de um milênio ao outro.
Essa busca pode assumir a forma tanto da investigação do desaparecimento de Cesárea Tinajero, em Os detetives selvagens, quanto da procura pela pintora catalã Remédios Varo, em Amuleto. Ou então de homenagem à memória do poeta mexicano Mario Santiago Papasquiaro, a quem o livro é dedicado. Em todo caso, o que está em jogo é um modo oblíquo de tentar descobrir “onde foram parar os jovens do nosso continente”, de impor-se a tarefa de escrever a anti-epopéia das “façanhas heróicas de uma geração inteira de jovens latino-americanos”.
A novidade dos textos de Bolaño, bem como o interesse mundial que provocam, talvez se explique pela operação arriscada da escrita desse “épico”, a rigor impossível, através da tradução de nossa vida cotidiana por uma sorte de “epifania negativa”. Como se fosse a revelação, ao mesmo tempo desesperada e confortadora, de um fim ou final para a vida e a escrita, sem abstrações livrescas ou ilusão referencial. Ver e dar fé, até o impossível.
O interesse biográfico pelos romances e poemas do grande escritor, prematuramente desaparecido, pode também ser lido nessa chave, que eles mesmos colocam à disposição do leitor curioso e mórbido. Mais uma vez a vida - ou a morte - serve à obra que continua a “esticar” no tempo presente, passado e futuro os fios da linguagem.
O silêncio e a catástrofe conjuram-se, enfim, nos interstícios do canto-amuleto que luta por resistir ao desaparecimento da literatura e da vida. A polifonia de vozes narrativas espelha a convicção do papel salvífico da escrita na sociedade contemporânea. Mas nada disso consegue nem ao menos rasurar o acontecimento - irremediável - de que ler Roberto Bolaño é “como se a gente pulasse de olhos fechados numa piscina de fogo e depois abrisse os olhos”.