

Entre os bens e o sangue
ROBERTO SAID
Romance descreve as contradições da modernização brasileira
Heranças
Silviano Santiago
ROCCO
400 p., R$ 46,00
“Não sou definitivamente uma pessoa do bem”. A confissão cínica e desabusada assinala a inflexão que atravessa e costura as tramas narradas em Heranças – romance que ocupa um lugar especial no quadro da ficção brasileira contemporânea. O narrador, um velho e inescrupuloso empresário, enriquecido e doente, lança-se em empreendimento de escrita “em busca de lucidez para se despedir dos homens e do mundo”.
Diante da morte e da “imensidão infinita do horizonte atlântico”, entrevistas do alto de seu confortável apartamento na Avenida Vieira Souto, ele deseja encontrar um herdeiro e, por conseguinte, um sentido para a vida, entabulada entre o acúmulo e o desperdício de capital. Resolve, então, trocar os remédios pelas palavras, entregando-se ao “tribunal da consciência”, a fim de acertar as contas com suas dolorosas recordações.
Ao colocar em marcha sua genealogia individual e familiar, voltando-se para o passado vivido na capital mineira, o narrador tece uma autobiografia pautada por bandalheiras econômicas, morais e afetivas. Criado sob “as graças do mando sustentadas pelo dinheiro”, ele cresceu – como uma espécie de Brás Cubas atualizado pelo capitalismo pós-industrial – sem apego ao trabalho e ao estudo. “Preparava-me para o nada”, reconhece o narrador, ao se lembrar da juventude animada e próspera, garantida pelos privilégios reservados ao filhinho de papai da ascendente burguesia belorizontina.
Egocêntrico e despudorado, levou a vida valendo-se de um torpe sistema de compensações financeiras, do qual resulta uma lista de amantes tão extensa quanto a de atrocidades cometidas. Como devoto de Midas, rei pouco sábio, mas cujo toque transformava tudo em ouro, multiplicou a herança paterna, recebida graças à morte da irmã, da qual é potencialmente o culpado.
Demônios do passado
Entretanto, o desejo de redenção, almejado pelo narrador em sua empreitada memorialística, não se consuma plenamente. Suas memórias, embaralhadas em antinomias, não exorcizam os demônios do passado, nem tampouco expurgam os sentimentos culposos. O tom de certeza com o qual deseja passar a limpo sua existência vazia choca-se com a incompreensão do vivido. O périplo da escrita não lhe assegura uma penitência catártica, à maneira confessional, nem tampouco lhe garante auto e mútua absolvição. Ao contrário, o que se configura é um conflituoso espaço de embates e negociação, para o qual o leitor é convocado.
De sua ambígua condição de réu e de juiz, o narrador oscila, ora declarando-se vítima das circunstâncias, ora criminoso confesso. Seu discurso abre diferentes redes de causalidades, constrói e desconstrói explicações, sem encontrar, contudo, uma versão satisfatória para os fatos que o atormentam, nem mesmo um auto-retrato apaziguador: “Sempre fui um, agora me apresento como dois ou três.” Para o bem-sucedido empreendedor imobiliário, o tempo do vivido apresenta-se como terreno baldio onde não pode encontrar senão o informe da vida.
Seu dispositivo de memória aciona o jogo de desfaçatez infinitamente suplementado pela escrita: “Se for o culpado, todos o são. Se não for o culpado, ninguém o é”. Embora não alcance o ponto de entremeio capaz de reunir as duas partes do tecido da vida, a incursão pela memória engendra paradoxalmente complexa e arguta mirada realista. Como em Graciliano Ramos – autor caro à trajetória crítica e ficcional de Silviano Santiago –, um agenciamento de escrita realista é deflagrado no curso da experiência subjetiva do sujeito em prospecção.
No tempo e no espaço da vida narrada, que decorre “das colinas do bairro de Lourdes” à cobertura a beira-mar, o que se vê é uma engenhosa história do capital e da modernização anárquica da metrópole mineira, a qual “crescia a passos de miséria e riqueza” na segunda metade do século 20. A obra cifra, com rara inteligência, o “processo civilizatório” que erige uma cidade moderna, mas na qual sobrevivem capatazes, mucamas e serviçais.
Pode-se dizer que o romance de Silviano Santiago, a par das heranças de Machado de Assis, Graciliano Ramos e Carlos Drummond de Andrade, toma a memória como signo intercessor para elaborar uma sorte de realismo-filosófico voltado às intrincadas relações entre capital e subjetividade no Brasil contemporâneo.
Vale notar que o narrador de Heranças, formado no balcão do lucrativo armarinho paterno, conduz seu texto no ritmo dos pontos e das intrigas das costureiras. Sofisticada, sua linguagem experimenta uma espécie de arranjo moderno (posterior à pós-modernidade) descortinando, com notável originalidade, novos canais de diálogo com a tradição literária brasileira. Afinal, toda herança mobiliza um modo específico de leitura, já que herdeiro não é apenas quem recebe, mas também quem escolhe e interpreta seu legado, dando-lhe novo curso. Nesses termos, o romance, tal como o próprio narrador, torna-se responsável pelo que herda, pelo legado escolhido, mas também pelo que ainda está por vir, inventando novos legatários, novos leitores-herdeiros.