

Laura de Mello e Souza constrói em Cláudio Manuel da Costa uma instigante biografia do poeta-inconfidente. Sem cair nas armadilhas da ilusão biográfica – a vida encerrando uma lógica inexorável que tudo explica e concatena todos os fatos –, mesmo com a extensa e criteriosa pesquisa documental e a despeito toda a fama de que goza o personagem, a figura de Cláudio Manuel que emerge da obra continua incompleta e enigmática. Não se pretende, pois, que sua biografia seja capaz de abarcar, em sua plenitude, a multiplicidade de significados de sua vida, e ainda que muito se tenha pesquisado e escrito sobre ele, o leitor é logo advertido que detalhes de sua vida escapam ao historiador e muito frequentemente os que são conhecidos parecem se contradizer.
A narrativa escolhida acompanha a cronologia do biografado e abarca, em número de capítulos relativamente homogêneos, todos os períodos de sua vida – infância, juventude e maturidade. Talvez se ressintam os que cultuam a Inconfidência Mineira, mas uma das grandes virtudes (ou mazelas) dessa ordenação, resultante do cuidado da autora de que todos os períodos de sua vida recebam igual atenção, é que seu envolvimento no levante não ocupa mais do que dois dos 23 capítulos em que a obra se divide. O inconfidente não é capaz de eclipsar o menino, o estudante, o letrado, o poeta, o advogado, o homem maduro, o funcionário de governo, o ancião, ou mesmo o morto.
Homem dividido
Já os espaços geográficos em que o personagem transita são diversos, desde as proximidades do Ribeirão do Carmo, sua pátria de nascimento; o Rio de Janeiro, local dos primeiros estudos da juventude; passando por Coimbra, onde se dá sua formação universitária; para retornar às Minas, quando se estabelece em Vila Rica, mas também faz incursões aos rincões da capitania. Espaços que deixam marcas profundas em sua personalidade: as escarpas do Itacolomi da infância, as águas plácidas do Mondego em Coimbra que contrastavam com as barrosas do ribeirão do Carmo, o sertão agreste da capitania que percorreu como secretário de governo numa “viagem dilatada e aspérrima”.
É nesse trânsito entre o reino e as Minas Gerais, do jovem sonhador que vai e do homem que retorna para, pragmaticamente, se assentar e ganhar a vida, que emerge a grande parte da ambivalência que Laura de Mello e Souza identifica em Cláudio Manuel da Costa. É esse dilaceramento entre dois mundos o que marca a releitura que faz do personagem. O homem dividido está sempre presente, mas, eterno melancólico, os paradoxos com que Cláudio se defronta ao longo do tempo não são sempre os mesmos, mas estão sempre se alterando conforme as contingências com as quais se defronta: pátria X reino, rusticidade X civilização, cultura X barbárie, aldeia X urbe, paulistas X emboabas, heroísmo X traição.
Como salienta a própria autora, para além da documentação compulsada e de estudos já clássicos sobre o autor e sua poesia, o pano de fundo do tempo e dos espaços por onde o biografado transita é tributário de uma pujante historiografia mais recente, particularmente a afeita às Minas Gerais setecentistas, e também à plêiade de novos estudos literários sobre os árcades mineiros. Nesse aspecto, a trajetória de vida de Cláudio Manoel da Costa é reconstruída na interseção entre o relato individual e o do contexto histórico onde viveu. E o que nos conta Laura de Mello e Souza sobre Cláudio Manoel da Costa? De sua escrita, surge um personagem historicamente verossimilhante, naquilo que tinha em comum com outros homens de seu tempo e espaço, cujas trajetórias apresentam semelhantes resultantes das marcas de sua era, mas sem se esquecer o que lhe era único.
Educação esmerada
Nascido em Minas Gerais, era filho de uma paulista e de um português do norte de Portugal que, como muitos outros, emigrara em busca das oportunidades que a economia aurífera abria. Do casamento de seus pais, nascia sua primeira ambiguidade, pois juntara antigosaulistas X emboabas, igos paulistasles que granjearam fortunacarpas do Itacolomi da inf arqui-inimigos, os paulistas e os emboabas. Cláudio e seus irmãos estavam destinados a completar a ascensão familiar, conquistando a honra e a nobreza indispensáveis ao reconhecimento social daqueles que granjearam fortuna, a despeito do baixo nascimento. Assim, requisito indispensável para ocupar qualquer posto burocrático ou eclesiástico no Império Português, a educação esmerada que recebeu no Rio de Janeiro e em Coimbra lhe permitiu dar início à demanda por postos, como o de secretário de governo, e títulos, como a Ordem de Cristo, que permitiram sua promoção junto a uma nova nobreza de mérito que se constituía no império.
Ambiguidades
O Direito garantiu-lhe também substantivos ganhos pecuniários, mas desde que traçara as primeiras linhas de seus poemas, ainda na juventude, Cláudio almejava o ambiente das letras. Distante do reino, com sua polidez e sociabilidade de corte, o letrado da aldeia ressentia-se com a pequenez desse mundo, mais uma das ambiguidades com que se defrontou ao longo de sua vida. Outra foi a pátria a quem devia fidelidade. Ora tratava-se de Portugal, consubstanciada na monarquia e nos funcionários que a representavam no além-mar; ora tratava-se de seu local de nascimento. Pátrias que, por vezes, se consubstanciavam e, noutras, se chocavam, levando-o a aderir às ideias da Inconfidência Mineira.
Sua participação no projetado levante arrastou-o para o último de seus impasses que é analisado na obra de forma magistral. Preso, Cláudio Manuel da Costa falou e disse o que não devia. Implicou seus amigos, ridicularizou alguns deles, levantou suspeitas sobre outros mais. Ao buscar se defender, viu-se catapultado da posição de réu para a de delator, de quem fazia o pior dos julgamentos, o de serem “mais temíveis que os mesmos denunciados”. É nessa fala terrível, de autocondenação, que a autora encontra a chave para decifrar o enigma de sua morte. Sem se furtar da objetividade histórica, Laura de Mello e Souza assume seu ponto de vista num dos pontos mais polêmicos de sua biografia, e argumenta em favor do suicídio do inconfidente, enfrentando todos os riscos que tal afirmação encerra do ponto de vista da disciplina histórica. É o corpo do morto que se torna o documento a partir do qual a historiadora ouve a voz de Cláudio Manoel da Costa e dá sentido ao seu ato final, pois encerra uma vida marcada pelas ambiguidades.
JUNIA FERREIRA FURTADO é professora de história moderna na UFMG e autora de Homens de negócios: A interiorização da metrópole (Hucitec)