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Samuel Titan Jr. - 17 - Agosto de 1996
Enredo para o romantismo
Foto do(a) autor(a) Samuel Titan Jr.

Enredo para o romantismo

 

SAMUEL TITAN JR.

O caráter errático da indústria livreira nacional tem seu lado curioso: em meio a certa febre de atualização bibliográfica, vez por outra surge um livro um tanto "fora de hora", com jeito de estar perdido em meio à lista de novidades editoriais. Não que haja aí qualquer demérito: é o que prova o estudo de Mario Praz que a editora da Unicamp agora publica, "A Carne, A Morte e o Diabo na Literatura Romântica". O livro está longe de ser recente, já que a primeira edição italiana é de 1930; também não é desconhecido entre nós: muitas teses universitárias foram colher em Praz e Albert Béguin ("L'Âme Romantique et le Rêve") um pouco de informação criteriosa sobre o romantismo europeu (1).
Por outro lado, o livro de Praz também já não pode oferecer os atrativos da novidade: no curso de seis décadas, muitas das formulações então originais tornaram-se parte da matéria comum e anônima que povoa tantos manuais de literatura, ao mesmo passo que boa parte da literatura ainda escandalosa em 1930 perdeu muito de seu "frisson". Quem se escandalizaria hoje com Sade, D'Annunzio ou Wilde? E o que falar de uma velharia como Péladan?
Digamos então que o tempo se encarregou de transformar o que já foi um ensaio polêmico numa ótima obra de referência. E é como tal que se pode ainda ler com proveito esta longa monografia. Praz é excelente historiador, com largo domínio do material primário, e olho fino tanto para a "longue durée" literária quanto para a inflexão individual de cada autor.
Escrevendo na década de 20, o autor tinha vários escolhos a evitar -o entusiasmo surrealista com a obra de Sade, o biografismo patológico e/ou tardo-romântico entronizado na academia e, na Itália, o biografismo hiperbólico de Croce (eram os tempos em que só se escrevia "sujeito" em caixa alta). Sua saída foi conceber uma monografia temática de recorte bem definido e aferrar-se vigorosamente à idéia de interpretação histórica como processo de reconstituição do sentido.
E, ao fazê-lo, Praz contornou ainda um último perigo: as longas cadeias de citações que visam provar que uma bela imagem de Keats não é nada mais, afinal de contas, que uma variação tardia de uma metáfora, digamos, de Píndaro (2). Pesquisando o desenvolvimento de tópicos como o do demônio prometéico, de Milton a Byron, ou comparando poemas macabros do barroco italiano a outros do romantismo francês, Praz está sempre alerta para os anacronismos à espreita -lição importante numa terra em que até Gregório de Matos é proto-concretista.
O resultado foi a compilação de uma tópica do corpo e da sexualidade sob o império da literatura romântica, que para o autor estende-se do final do século 18 aos decadentismos do último "fin de siècle". São quatro os motivos básicos: a conjunção de horrível e belo, dor e prazer no conceito de "beleza meduséia", distinta do gosto barroco pela maravilha; a heroicização de Satanás, que ganha feições alternadamente frenéticas e melancólicas; o elogio do prazer perverso, "sádico", como modo de superar a natureza, numa inversão espetacular (ou nem tanto) de temas tradicionais do ascetismo cristão (ver em especial as belas e concisas páginas 110-112); e finalmente o satanismo masculino romântico, acompanhado pelo mito complementar da mulher fatal.
Mas, ao contrário do que uma apresentação sumária pode sugerir, o autor não se limita à listagem pura e simples. Narrando a migração e as mutações de temas e motivos ao longo de um século de literatura romântica, Praz também monta um enredo que, em sentido descendente, nos leva do satanismo agitado dos fundadores ao que lhe parece ser o artificialismo exangue dos decadentistas. Haverá quem discorde do tom mais opiniático que surge pelo final da monografia; não duvido mesmo que pesquisas mais cuidadosas revelem vários erros de julgamento. Mas não há por que ser ingrato logo ao final de uma excursão tão instrutiva, e muito menos deve-se esquecer alguns trechos agudíssimos dessa mesma seção final; lembro aqui seu juízo sobre a "Salomé" de Wilde ("como paródia, 'Salomé' resvala na obra-prima; infelizmente, parece que Wilde não tencionava tanto"), a passagem sobre a religião de Dostoiévski e dos decadentistas ("neles, a religião não é mais que uma forma embrionária de satisfação mórbida; a contrição pode ser somente uma máscara da algolagnia").
Uma palavrinha sobre a versão brasileira: tanto quanto se nota, Philadelpho Menezes não peca por ignorância do italiano; se há problemas em sua tradução, eles parecem derivar antes de uma excessiva aderência ao original, que ocasiona orações de prosódia portuguesa um pouco atravancada e algumas confusões (como manter "Arrigo Heine" ao invés de "Heinrich Heine"). Nada que, juntamente com vários deslizes de revisão, não possa ser corrigido para uma segunda edição.

Notas:
1. Antonio Candido utilizou-o em sua "Formação da Literatura Brasileira".
2. Por essa mesma época, Edmund Wilson parodiava esse "método" no capítulo de "O Castelo de Axel" dedicado a Eliot. 

Samuel Titan Jr. é professor do Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada da Universidade de São Paulo.
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