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Emir Sader - 23 - Fevereiro de 1997
Em defesa da cidadania
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Em defesa da cidadania

 

EMIR SADER

o jornalismo econômico e o policial são as duas editorias com menor independência na imprensa. À mercê de fontes para obter informações, atrelam sua sobrevivência a uma boa convivência com ministros, diretores do Banco Central, grandes empresários, tecnocratas (com policiais, delegados, secretários de segurança pública etc.). Via de regra dependem mais dessas fontes que dos leitores -para não falar dos cidadãos.
Os colunistas econômicos da grande imprensa brasileira compõem um coro de propaganda dos sucessivos planos governamentais. Certamente cada um se considera de outro modo, seja pelo seu passado, seja por acreditar que possui um ponto de vista diferenciado. Para quem os lê, porém, as diferenças dependem apenas da pessoa com quem o colunista conversou no dia anterior.
O objetivo é o bom funcionamento dos agregados macroeconômicos, seccionando a economia das outras esferas. Os jornais e revistas tornam-se cada vez mais esquizofrênicos: adoram a estabilidade monetária vigente, mas não se sentem à vontade com o desemprego, a concentração de renda, a exclusão social, o aumento da miséria e da violência. Como disse Brecht, querem comer carne sem ver a cor do sangue.
Bernardo Kucinski aborda o jornalismo econômico em seus diversos aspectos -o de uma possível ética, as dificuldades técnicas no seu exercício, as armadilhas e atalhos dos temas econômicos. Como diz logo de saída, "o jornalismo econômico, veículo por excelência dessa nova ideologia (neoliberal), tornou-se o principal agendador do debate político". Não se discutem mais democracia, justiça social, participação política, cultura, esfera pública. Discute-se o Estado somente do ponto de vista do equilíbrio fiscal: como cortar gastos, demitir funcionários, perdoar dívidas, aumentar os subsídios ao capital privado, privatizar bens públicos em condições atraentes para o grande capital. Não se discute o direito universal à educação, mas quanto custa cada aluno, cada professor, qual o custo/benefício dos "investimentos" educacionais. Não se discute política externa, mas políticas de tarifas, parceiros comerciais, atração de capitais especulativos com juros estratosféricos.
Esse jornalismo que, nas palavras de Kucinski, "não se propõe a explicar, e sim a seduzir", em 20 anos passou em média de 1,5 a 6,5 páginas diárias, incluindo o que ele chama de "griffes" jornalísticas: aqueles que também são donos de empresas de assessoria -e que estão, portanto, impossibilitados de defender o cidadão, pois recebem do outro lado do balcão.
Para além dessas indicações, municiadoras da defesa da cidadania, o livro concentra-se em grandes temas econômicos, apresentados em versões sintéticas e atualizadas: a desigualdade monetária internacional, as teorias do subdesenvolvimento e a conta de serviços, quem paga o balanço de pagamentos, mito e realidade do produto interno bruto, emprego e salário, globalização e divisão mundial do poder econômico.
Kucinski também aborda a questão da ética no jornalismo econômico. Para começar, esta é contraditória com "a propaganda que faz proselitismo, a publicidade que quer vender uma mercadoria, ou a assessoria de imprensa que visa proteger a imagem de uma empresa, indivíduo ou instituição, em geral contra as críticas dos jornalistas". Em lugar de reportagens investigativas proliferam matérias que mal camuflam os interesses que as promovem. As fontes oficiais são 30% do total, e se somadas as das empresas, chega-se a 80%, demonstrando o caráter ventríloquo de grande parte dos materiais das editorias econômicas.
Na ética proposta por Kucinski, caberia ao jornalista econômico "revelar os segredos do poder", alertar os cidadãos sobre as armadilhas dos mecanismos econômicos, apontando-lhes as formas de defesa. Por exemplo, não se viu nenhum colunista econômico advertir os cidadãos a respeito dos bancos que estavam, há mais de dez anos, virtualmente falidos. Como argumentou um deles -de acordo com a lógica do Proer,- seria antipatriótico revelar que o Bamerindus estava quebrado, porque levantaria desconfianças e poderia conduzir a uma corrida aos bancos que, como se sabe, cobram juros escorchantes sobre o dinheiro que não têm.
A lógica da empresa jornalística, enquanto empresa privada, é a da maximização dos lucros. A sua referência central não é a democratização da informação ou a qualificação da cidadania para a participação política, mas as agências de publicidade e todas as fontes potenciais de anúncio. Tanto assim que a preocupação maior não é com a tiragem, mas com o poder aquisitivo dos leitores, chamariz para os anúncios. Daí que o marketing prevaleça sobre a informação. Certamente outras dimensões estão presentes na grande imprensa, inclusive a formação da opinião pública, mas sem aquela primeira, esta não se sustenta.
O livro de Kucinski não foi abordado em nenhuma dessas colunas diárias, preocupadas com os equilíbrios macro e microestruturais. De fato, o livro não é para elas. Seu alvo é a cidadania, são aqueles que percebem a realidade econômica de uma forma e a vêem reconstruída pela grande imprensa de outra, aqueles que se atrevem a desmistificar as ficções econômicas de fim de ano, que servem para esquecer as previsões erradas do seu início e voltar os olhos dos incautos para um futuro que "será melhor". 

Emir Sader é professor de sociologia da USP.
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