

LUIS S. KRAUSZ
Em busca da terra prometida
Painel da comunidade judaica vienense
O CAMINHO PARA A LIBERDADE
Arthur Schnitzler
Tradução: Marcelo Backes
RECORD
540 p., R$ 59,90
Neste romance de 1908, Arthur Schnitzler (1862-1931) volta-se, com as filigranas estilísticas e a delicadeza de olhar que lhe são características, sobre as aporias da comunidade judaica vienense, à qual ele mesmo pertencia. Esta temática, que até então ocupava uma posição marginal em sua obra, é indissociável do crescimento do antissemitismo na capital dos Habsburgos, desencadeado pela ascensão política de Karl Lueger, prefeito de Viena de 1897 a 1910, que se elegeu pelo partido cristão-social com base numa retórica que, precedendo em algumas décadas o nazismo, atribuía aos judeus as mazelas do povo austríaco nos anos de crepúsculo do Império Austro-húngaro.
Der Weg ins Freie, título original da obra, pode também significar o caminho para o vazio ou para o aberto: é um livro sobre a vertigem e a labilidade social austro-judaicas. Os personagens, desvinculados de suas origens étnico-religiosas, estão contagiados pela epidemia do desejo de integração às esferas superiores da sociedade e de aquisição de novos repertórios estéticos e culturais que, como supõem erroneamente, farão deles cidadãos de um mundo cosmopolita, livre de discriminação e de preconceitos.
O esquecimento e o abandono da tradição judaica, de um lado, e de outro o empenho numa busca pelo que seria o essencialmente humano, em harmonia com a ideologia liberal e científica hegemônica nas últimas décadas do século XIX, são, assim, o norte e o sul dos personagens aqui retratados por Schnitzler. E seus ideais de vida se aproximam de uma espécie de embriaguez hedonista, onde os confortos e prazeres mundanos se renovam com a vida dos Salons, as escapadas para junto da natureza, as idas a concertos e a freqüência de cafés, num mundo cujas feições se imaginava que haveriam de durar para sempre. Ou de um mergulho radical e apaixonado nas utopias do socialismo e do sionismo, destinadas a substituir esse mundo estagnado, muitas vezes percebido como injusto.
Eixo principal
As transformações sociais e culturais dos judeus de Viena, em sua maioria descendentes de migrantes da Boêmia, da Moravia, da Hungria e da Galícia, e a penetração, sobre uma visão de mundo religiosa ancestral, dos ideais auto-redencionistas característicos do século XIX é, assim, um dos eixos deste belíssimo painel da vida na capital habsburga, cujo fio narrativo central é um caso de amor entre Georg von Wergenthin, músico da aristocracia declinante, e Anna Rösner, professora de piano da pequena burguesia cristã e antissemita.
É em torno desse eixo principal que vão surgindo pequenos dramas secundários, cuja temática recorrente é a busca por liberdade de oito famílias judias, cada qual ligada, de alguma maneira, ao músico von Wegenthin. São elas Ehrenberg; Golowski; Nürnberger; Eissler; Berman; Stauber; Oberberger e Wyner. Essas narrativas subordinadas refletem-se umas nas outras e acabam por conduzir o leitor num passeio por todas as camadas sociais da heterogênea e peculiar população judaica vienense, que chegou a representar 12% do corpo de cidadãos da capital imperial. Schnitzler vai desde os apartamentos mal iluminados da Leopoldstadt, bairro onde se concentravam os judeus recém-chegados das províncias orientais do Império, geralmente pobres e religiosos, até os salões onde a velha aristocracia se encontrava com a alta burguesia judaica, num convívio raramente isento de motivos ulteriores, em que nome, gosto e dinheiro eram moedas de troca.
Os judeus que Schnitzler retrata, seja qual for sua situação social e econômica, têm em comum o fato de estarem, sem exceção, a caminho de algum lugar ou de alguma situação desconhecida. Daí, o título do romance. A família Ehrenberg é um bom exemplo: S. Ehrenberg é um industrial cujos familiares, desejando integrar-se aos círculos aristocráticos, ocultam seu pré-nome, Salomon, que lhes soa desagradavelmente judaico. Salomon, porém, despreza as ambições desses que mimetizam o grupo ao qual desejam assimilar-se e, para irritá-los, expressa-se sempre em ídiche, língua mal-vista pelos que tinham a ambição de se tornarem austríacos sine nomine e que causa horror aos seus familiares. Enquanto isto Oskar, seu filho, como a compensar os modos e o linguajar deselegante de Salomon Ehrenberg, imita os gestos, os costumes e a aparência dos aristocratas com os quais convive para tornar-se um emblema grotesco dos esforços de apropriação, por uma classe de arrivistas, de símbolos da classe patrícia.
Melhor sucedida é a assimilação do velho Eissler, “que compunha agradáveis valsas vienenses e canções; era conhecedor das artes e da Antigüidade; ocupava-se em colecionar e às vezes em vender antiguidades; fora em seu tempo o mais famoso boxeador de Viena e, com seu porte gigantesco, sua barba longa e cinzenta e o monóculo, parecia-se mais a um magnata húngaro do que a um patriarca judeu.”
Sonhos socialistas
Há também lugar, na narrativa, para os sonhos socialistas de justiça e igualdade: os irmãos Golowski, filhos de uma família de pequenos-burgueses da Leopoldstadt, engajam-se no movimento socialista, e acabam presos pela polícia política do Kaiser. Outro que dedica sua vida ao sonho de um estado democrático é o deputado Stauber, que renuncia a seu mandato depois de ter sido execrado publicamente no parlamento e insultado como “cão judeu” por colegas de ofício da bancada oposta, enquanto Heinrich Berman, cujo pai morre, louco, depois de sofrer implacável perseguição política no partido social-democrata, sonha tornar-se um dramaturgo admirado.
O Caminho para a Liberdade, assim, mostra os judeus modernizados de Viena como indivíduos em busca de uma direção, mas soltos no vazio. As dúvidas, o nervosismo, a fragilidade psíquica e social devoram suas vidas e eles parecem sempre ameaçados por inúmeros tipos de catástrofes pessoais, econômicas, ou sociais. Emerge, assim, o retrato de um grupo que, como diz o dramaturgo Heinrich Berman, se vê na contingência de, se quiser um mundo bem ordenado, ter que construí-lo com suas próprias forças – “o que demanda muito esforço para quem não é o bom Deus.”
Luis S. Krausz é professor de literatura judaica e hebraica da FFLCH/USP e autor de Rituais Crepusculares: Joseph Roth e a Nostalgia Austro-judaica (Edusp).