

Em busca da integração
JOÃO DE FERNANDES TEIXEIRA
Nascida de uma rejeição ao behaviorismo, a ciência cognitiva tem pouco mais de 40 anos. Seu objetivo é o estudo da mente, tomando como ponto de partida uma analogia entre o funcionamento mental e os programas computacionais. Trata-se de um projeto essencialmente interdisciplinar, que se encontra na interseção entre campos como a psicologia, a linguística, a ciência da computação, a filosofia e a antropologia.
Delinear os contornos dessa novíssima disciplina é a tarefa à qual se propõe Paul Thagard neste livro introdutório. Em pouco mais de 200 páginas, o autor busca oferecer uma visão unificada dessa tentativa de fazer uma ciência da mente. Mas não é tarefa fácil. Em quatro décadas de existência oficial, a ciência cognitiva já viveu várias peripécias e muita dispersão teórica.
Essa trajetória inicia-se pela proposta de uma analogia entre cérebros e mentes, de um lado, e entre computadores digitais e programas computacionais, de outro. No esforço para transformar-se numa ciência paradigmática e num novo horizonte para a psicologia, a ciência cognitiva identificou conhecimento com representação mental, mentes (e às vezes cérebros) com processadores de informação. Mas nunca se chegou a um consenso sobre o que seriam essas representações mentais e como seria feito tal processamento de informação.
Na primeira parte do livro, Thagard explora essa falta de consenso e dela se utiliza para apresentar uma pluralidade de perspectivas. Sua abordagem não é histórica e sim sistemática, mas acaba percorrendo as diversas maneiras pelas quais os cientistas cognitivos tentaram definir a representação mental e o processamento de informação que ocorreria nas nossas mentes. A exposição é bem minuciosa, partindo da idéia de que o pensamento poderia ser concebido seja como um conjunto de regras lógicas, seja como um conjunto de regras do tipo "se..., então..." (como nos programas de computador), seja como uma hierarquia de conceitos e esquemas. Os raciocínios analógicos e o papel das imagens no pensamento são também analisados por Thagard. Tais variedades da representação mental compõem aquilo que o autor chama "Compreensão Computacional-Representacional da Mente" (Crum).
Além de minuciosa, a exposição é bastante didática. Todos os capítulos obedecem a um mesmo tipo de estrutura, em que se discutem o poder computacional, a plausibilidade psicológica e a plausibilidade neurológica de cada uma das alternativas apresentadas para se conceber o que seria a representação mental e o pensamento humano. Todos os capítulos são seguidos de resumo, questionário e indicação de leituras complementares. Em nenhum momento a exposição se torna excessivamente técnica ou pesada para o leitor leigo.
A OBRA Mente: Introdução à Ciência Cognitiva Paul Thagard Tradução: Maria Rita Hofmeister Artmed (Tel. 051/330-3444) 210 págs., R$ 31,00 |
Mas é a segunda parte do livro que desperta maior curiosidade. Após um capítulo de "avaliação e revisão" da Crum, Thagard inicia uma outra trajetória, questionando os grandes desafios a serem enfrentados por esse tipo de visão da natureza dos processos mentais. Timidamente, o autor nos conduz ao problema da relação entre mente e cérebro, cuja ausência de solução ainda constitui uma ameaça para o projeto da ciência cognitiva. Uma ameaça que, aliás, se desdobra em vários aspectos. O primeiro deles consiste no fato de a Crum ser uma descrição abstrata dos processos mentais, como se eles fossem imunes às emoções.
Essa descrição abstrata, ao modo de um software de computador, exclui também a possibilidade da Crum nos fornecer uma teoria da consciência. Outro grande desafio para a Crum é saber até que ponto o corpo e o meio ambiente influem e determinam os processos cognitivos e se a cognição poderia ser concebida como um processo intrínseco à mente ou ao cérebro. Negar o papel das emoções, da consciência e do meio ambiente equivaleria a excluir da Crum boa parte da pesquisa atual em neurociência e em robótica, cujas propostas são analisadas por Thagard.
Das críticas e desafios enfrentados pela Crum, Thagard tira a conclusão de que ela não precisa ser rejeitada, mas ampliada e suplementada. A Crum ampliada seria transformada em "Compreensão Computacional Representacional Biológico-Social da Mente" (Crumbs). A proposta de Thagard é essencialmente ecumênica, o que, aliás, é muito louvável. Contudo, ele não nos mostra como a integração de perspectivas tão distintas e incompatíveis poderia ser feita. Seu ecumenismo acaba se transformando num puro e simples sincretismo.
A dispersão teórica que encontramos na ciência cognitiva resulta do fato de nela não se saber o que deve ser privilegiado na busca de um ponto de partida (se deve ser a mente, o cérebro ou o comportamento). Tal dificuldade em lidar com essa dispersão teórica não é típica da proposta de Thagard nem tampouco exclusiva da ciência cognitiva. É o resultado de incorrer na ilusão de que seria possível fazer psicologia sem uma discussão de seus compromissos filosóficos. A ciência cognitiva não se resume apenas a uma discussão filosófica, mas tampouco pode prescindir dela. Seria pueril afirmar que precisamos resolver o problema mente/cérebro para começar a fazer psicologia. Mas seria também pueril afirmar que não precisamos desse tipo de discussão ou que a filosofia poderia contribuir muito pouco para a ciência cognitiva, como já fizeram vários autores (inclusive brasileiros!) que parecem ter esquecido da importância de obras de filósofos como Putnam e Dennett.
A tradução deste livro é bastante confiável, embora em alguns momentos transpareça uma falta de familiaridade com termos específicos. O que, aliás, é perfeitamente desculpável, em se tratando de um assunto ainda tão pouco conhecido no Brasil.
João de Fernandes Teixeira é professor do departamento de filosofia da Universidade Federal de São Carlos e autor de "Mentes e Máquinas" (Artes Médicas).