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- 73 - Abril de 2001
Elogio da sensibilidade
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Elogio da sensibilidade

Uma introdução à obra de Georg Simmel

FEDERICO NEIBURG

O nome de Georg Simmel (1858-1918) está presente em alguns dos principais debates intelectuais do século 20, estimulando indagações nas áreas mais diversas, da crítica de arte à filosofia, da psicologia às ciências sociais. Essa presença contrasta com o caráter fragmentário da recepção de sua obra, especialmente fora do mundo germânico.
Nesse plano, o das leituras e traduções, o paradoxo se duplica: de um lado, um nome que foi rapidamente reconhecido em um amplo círculo social .
De outro, uma obra submetida à arbitrariedade dos organizadores e a seus critérios, poucas vezes explícitos, de seleção e montagem das coletâneas. De fato, fragmentação e multiplicidade são idéias afins a Georg Simmel: seus livros são, eles mesmos, coleções de ensaios, variações sobre temas tratados em diferentes textos -a moral, a religião, a cidade grande, o conflito, a dominação, o individualismo e também a moda, a gratidão, a coquetaria, o segredo, a conversação.
Leopoldo Waizbort escreveu um livro surpreendente. Menos por argumentar ser possível falar de uma "obra", no caso de Simmel, e mais por seu método, pelos caminhos que percorre para interpretá-la. A tese principal é de que não se deve procurar a unidade do pensamento de Simmel em qualquer tipo de sistema teórico, mas em uma singular sensibilidade intelectual, um traço não só de sua própria personalidade, mas também do mundo social no qual viveu, dos laços que o uniam e separavam de seus contemporâneos, das modulações da sociabilidade européia, alemã e, sobretudo, berlinesa, de finais do século 19.

Diálogo com SimmelBR> De forma tenaz e minuciosa, Leopoldo Waizbort foi além do objetivo explícito de sua obra (capturar o ponto de vista do pensador alemão, "privilegiar seu próprio modo de análise, imitar os seus procedimentos para se debruçar sobre seus conteúdos"): conseguiu se inspirar em Simmel para nos apresentar Simmel e, ao mesmo tempo, nos falar de muitas outras coisas. Por essa razão, seu livro não se deixa identificar com nenhum gênero: não é uma exegese interna dos escritos de Simmel, não é uma biografia nem, tampouco, um estudo de história das idéias.
Trata-se, em verdade, de quase 600 páginas de um intenso diálogo entre "sujeito" e "objeto". Na primeira das três partes em que se divide o livro, Waizbort esboça a "fisionomia" de Simmel, examinando as afinidades entre suas formas de pensar (uma "cultura filosófica") e de escrever (o "ensaio"). Aqui já aparece um dos signos peculiares do trabalho, salpicado de extensas citações de textos originalmente escritos em alemão.
Páginas ou fragmentos pouco conhecidos do próprio Simmel, trechos de cartas de pessoas que integravam seu mundo social, algumas lembranças que sua figura invoca entre os que o viram e ouviram e, também, textos mais recentes de outros autores: descrições historiográficas, análises sociológicas. Waizbort sabe que interpretar é também traduzir e que seu livro abre para o leitor um mundo intelectual relativamente pouco conhecido entre nós, mais habituados ao francês e ao inglês do que ao alemão.
A segunda parte discute dois motivos centrais em Simmel, a "cultura" e o "moderno", mostrando a principal tensão que atravessa seus escritos. De um lado, uma crítica aguda do "presente", carregado, segundo o pensador berlinês, pelos efeitos (negativos), para a vida das pessoas e para as formas de sociabilidade, resultantes do aumento da velocidade, da desmesurada valoração da quantidade e da generalização do uso do dinheiro.
De outro, o fascínio por um "estilo de vida" refinado, que cultiva a inteligência e a capacidade criativa, por um alargamento de horizontes que só a metrópole é capaz de oferecer ao desenvolvimento da individualidade.
Próximo à metade do livro, transcreve-se um fragmento no qual Simmel fala do vínculo que liga sua obra ao "meio berlinês" e às vertiginosas transformações sofridas por sua cidade. Como lembra Waizbort, até a unificação alemã (1871), Berlim tinha menos de um milhão de habitantes; 40 anos depois, quando começa a Primeira Guerra Mundial, moravam ali mais de 3,5 milhões de pessoas. A mais jovem das metrópoles européias é um mundo em movimento, multifacetado, atravessado por tensões e conflitos. Disso trata a terceira parte do livro, em que são examinadas as relações entre Simmel e a Berlim do Segundo Império.
Ao ponto de vista de Simmel, acrescentam-se aqueles de outros indivíduos e grupos com os quais ele compartilhou algumas de suas "aventuras". Essa constelação de olhares objetiva-se em um par de páginas nas quais aparecem três gráficos que, "simmelianamente", mostram a posição de Simmel como um "ponto de cruzamento entre círculos sociais". Ali estão, entre muitos outros, Stefan George, Rainer M. Rilke, Auguste Rodin, Paul Ernst, H. Rickert, Lou Andreas-Salomé, Max e Marianne Weber, integrantes da Secessão berlinesa, os naturalistas, jovens modernistas do "Jugendstil", militantes do partido social-democrata, e alguns de seus discípulos, como Walter Benjamin, Georg Lukács e Martin Buber.
No livro há também alguns outros personagens, que não aparecem nos gráficos. Um deles é Dietrich Shäfer, que, como Simmel, foi aluno de Trieschke. Por encomenda do ministro da Educação do império, Shäfer escreveu um parecer (reproduzido por Waizbort) que, fundado em um argumento puramente anti-semita, teve o efeito de impedir o acesso de Simmel a uma posição universitária permanente, perpetuando sua marginalidade no campo acadêmico e reforçando suas ambiguidades diante da sociologia e das disciplinas universitárias em geral. Não obstante o reconhecimento que teve desde cedo, a popularidade de sua figura entre os alunos, a notoriedade de algumas das suas publicações e o fato de ter sido um dos fundadores da Sociedade Alemã de Sociologia, Georg Simmel só se tornou "professor" quatro anos antes de morrer, e na universidade de Estrasburgo, uma instituição menor se comparada com Heidelberg, Frankfurt ou Berlim.
Ao longo do livro somam-se vários elementos que nos aproximam do lugar ocupado pelos judeus na Alemanha guilhermina e dos sentimentos que sua origem judaica provocava em Simmel. Waizbort menciona que ele foi batizado evangélico, como sua mãe (o pai tinha sido batizado católico); mostra como ele preferia não falar da questão e como, em algumas circunstâncias, optava por se identificar como evangélico (especialmente quando, como no caso da universidade, estava em jogo um vínculo com o Estado). Também descreve várias imagens que alguns amigos e alunos tinham de Simmel, nas quais é possível comprovar até que ponto o adjetivo judeu estava associado a sua pessoa. Associação que não deixou de persegui-lo mesmo depois de morto: seu filho, Hans, faleceu após ter passado pelo campo de concentração de Dachau, e boa parte de sua biblioteca e de seus arquivos foi queimada pelos nazistas.

Polêmicas estéticas
Inclusão e exclusão, proximidade e distância, esses termos, centrais na obra e na existência social de Simmel, estruturam a interpretação de Waizbort. Organizam, por exemplo, sua análise das polêmicas estéticas, das tensões em que viviam os criadores de novos gostos, formas e conteúdos: de um lado, autonomização das cortes e, de outro, subordinação ao mercado. Simmel rejeita a arte realista que enfeita as residências dos nobres, mas não demora em desconfiar da arte moderna, comprada e vendida nas galerias.
São esses também os termos que estruturam os espaços de sociabilidade transitados por Simmel: alguns dos últimos salões berlinenses, suas aulas na universidade, o seminário que animava em sua residência, os longos jantares nos quais compartilhava, junto com a esposa e algum amigo, o gosto pela arte da conversação.
Utilizando um arsenal variado de recursos, o livro permite ao leitor visitar esse mundo: transcreve um fragmento de um dos sonhos de Simmel; descreve a plasticidade dos seus gestos, o modo como eram vistos por aqueles que compartilharam a sua intimidade; e o mostra em aula, por intermédio da recordação dos seus alunos e, significativamente, de não poucas alunas.
Trata-se de um livro que exige bastante do leitor. É preciso, por exemplo, esperar muitas páginas para descobrir que a ilustração da capa reproduz um retrato de Simmel em sua cátedra, realizado por um dos seus alunos. As duas únicas fotos aparecem apenas perto do final, quando o autor julga estar a sensibilidade do leitor suficientemente cultivada para perceber o significado do rosto de seu principal personagem (na verdade, Waizbort faz Simmel comentar sua própria foto, em uma longa passagem dedicada ao "significado sociológico do olho").
A obra ganharia em clareza com uma bibliografia organizada e uma cronologia das publicações de Simmel. Um índice temático reforçaria também uma dimensão do livro que parece gerar sentimentos ambíguos em Waizbort: seu caráter pedagógico, o fato de este consistir também, embora seja muito mais que isso, em uma introdução à obra de Simmel.
Por fim, é uma pena que o autor fale tão pouco de sua própria relação com Simmel e da história do livro, elaborado entre São Paulo e Berlim e originalmente escrito como tese de doutorado para o departamento de sociologia da USP. É a sensibilidade sociológica que a obra transmite o que nos convida a pensar sobre o rastro desse vínculo, certamente um itinerário de proximidades e distâncias, que poderia dizer algo mais sobre a intenção mimética de Waizbort.


Federico Neiburg é professor de antropologia social no Museu Nacional (UFRJ) e autor de "Os Intelectuais e a Invenção do Peronismo" (Edusp).


As Aventuras de Georg Simmel
Leopoldo Waizbort
Editora 34 (Tel. 0/xx/3816-6777)
594 págs., R$ 36,00

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